Carta a Paulo Abrão, ex-secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos

 

04/12/2020 15:57

(Reprodução/Metrópoles)

Créditos da foto: (Reprodução/Metrópoles)

 
"Prezado Paulo Abrão

Desculpe a demora em lhe dar detalhes. Antes de mais nada, gostaria de reafirmar nossa alegria e a pertinência de nosso convite, tão generosamente aceito por você para ser nosso palestrante nos Estados Gerais da Cultura no domingo 13 de dezembro, às 17h, com o tema A memória como bússola da verdade, da justiça e da reparação. O encontro será disponibilizado para o público em tempo real, às 17h de 13/12/20, no canal Estados Gerais da Cultura, do youtube e do facebook, onde ficará gravado, como os outros que já aconteceram, permitindo o livre acesso.

Será um Encontro especial dos Estados Gerais da Cultura, movimento de resistência cultural, fundado pelo documentarista Silvio Tendler em agosto deste ano, a este governo neofascista, destruidor de nossas mais caras conquistas e direitos. Entre tantos malfeitos, o rebaixamento do Ministério da Cultura a uma simples secretaria especial do Ministério do Turismo. Nossa ação principal se faz no sentido de desejar restaurar o lugar do MinC como instituição de Estado, e não de Governo, colocando-o ao abrigo de truculências como essa, fruto de tenebrosas políticas que visam o empobrecimento da subjetividade de nosso povo.

Uma vez que quem cria, pensa, e deseja um mundo melhor, construindo utopias e lutando por elas! Travamos assim uma luta do pensamento criador contra a barbárie.

Este será um Encontro especial porque você estará presente. Precisamos de vozes muito lúcidas, portadoras de experiências como a sua, que nos ajudem a atravessar a ponte para um futuro mais justo a partir de um passado não solucionado, de 21 anos de autoritarismo e arbítrio que nunca acabaram, e que continuam a nos ferir e a nos tornar inertes por tanta impunidade acumulada, por tanta transição negociada, e não realizada ou levada a cabo da melhor forma para o país. E isto acontece, como você bem o sabe, desde o brasil-colônia.

Acredito que o passaporte para esta alforria simbólica coletiva de todos os brasileiros - negros, pardos, brancos e indígenas - da opressão de um Estado elitista e autoritário desde sempre, militarista e genocida, esteja em grande parte na retomada para valer da Justiça de Transição, iniciada entre o final da ditadura e a redemocratização, até hoje em questão. Completaríamos assim o trabalho árduo de tantos brasileiros democratas que empenharam e empenham a vida no reconhecimento dessa luta que precisa ser finalizada. Não podemos abrir mão desta utopia de justiça! Ou seremos sempre servis, acovardados diante dos interesses dos poderosos, em detrimento dos nossos.

Vimos com muita alegria e orgulho seu trabalho corajoso como secretário - executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, e com muita tristeza seu afastamento por Almagro, secretário-geral da OEA, depois de uma reeleição por unanimidade, fruto de mais um arbítrio deste governo brasileiro subserviente. Do mesmo modo que os 21 anos de ditadura, seu trabalho realizado na CIDH nunca acabará, seus efeitos são incalculáveis. Eros vencerá Tanatos. Mais uma utopia contra a barbárie.

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Fique à vontade para fazer de sua participação no domingo 13 de dezembro o que bem desejar, inclusive torná-la um momento de desagravo pelo que você passou, sabendo o quanto isso tudo ultrapassa a esfera da injustiça pessoal e passa a ser mais uma contusão nacional e mundial na esfera dos Direitos Humanos. Uma cultura dos Direitos Humanos, aliás, será uma vertente importante da Escola Superior de Paz, que estamos construindo, e que se articula ao Movimento dos Estados Gerais da Cultura.

Justamente queremos tornar (mais) públicas esta e outras questões relativas ao silenciamento e a perseguição à memória, à verdade, à justiça e aos seus agentes, à reparação de todo tipo, luta esta que deve continuar a ser feita mesmo e principalmente neste governo de extrema direita, tão arbitrário e humilhante para todos. Inclusive para os militares.

Gostaríamos também de pensar com você, na ocasião, sobre o legado da ditadura e de que forma podemos transmiti-lo às gerações que vieram depois e que permanecem alienadas completamente destes graves fatos por conta das políticas de esquecimento e de silenciamento perpetradas pela ditadura militar. Elas foram muito eficientes até hoje! Precisamos desmontá-las! Os Estados Gerais da Cultura agem em conformidade com este imperativo ético, num tom bem humorado, pacífico e receptivo. Com arte!

Dia 13 de dezembro nos traz a memória da promulgação do AI-5, o momento mais duro da ditadura, cujos efeitos terríveis ainda nos perturbam, inconscientemente inclusive, travando nossa ações, nosso impulso por justiça e liberdade.

Por outro lado, vemos com alegria e esperança o trabalho do Ministério Público Federal, no pensamento corajoso e na ação decidida de Procuradores da República como Marlon Alberto Weichert, que recentemente idealizou e fez acontecer o site Justiça de Transição, no MPF, como uma comemoração dos 20 anos de luta do MPF pela Justiça de Transição.

Gostaríamos, se possível que você pudesse nos falar também sobre sua experiência da pandemia pelo novo coronavírus em outros países da América Latina, se possível correlacionando os melhores desempenhos com o grau de autonomia/soberania do país.

Uma questão facultativa, como qualquer sugestão encaminhada aqui, compondo um leque de subtemas possíveis, à sua escolha : qual seria, na sua opinião e experiência, uma forma de viabilizar a disseminação dos Direitos Humanos nesta nossa Escola Superior de Paz?

Ela tem como Reitor da amizade e da esperança o Professor Célio Turino, criador dos Pontos de Cultura na gestão do Gilberto Gil. Nos últimos 10 anos, ele expandiu esta experiência democrática, popular, criadora de vínculos afetivos e solidários entre as pessoas de comunidades periféricas, a partir da Cultura, em mais de 10 países da América Latina. Deste monumento de interação entre países latino-americanos com o projeto brasileiro de Pontos de Cultura surgiu um livro, documento imperdível para todos que acreditam na possibilidade de se criar uma nova mentalidade no planeta, com outros valores, que não os da ditadura do dinheiro, da submissão, da mentira e da barbárie. "Por todos os caminhos - Pontos de Cultura na América Latina", Célio Turino (Ed. Sesc/SP)

Agradeço muito em nome de todos dos Estados Gerais da Cultura e da Escola Superior de Paz! Qualquer dúvida, estamos à sua disposição.

Glaucia Peixoto Dunley é Psicanalista



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