Cooperar em pé de igualdade

Uma sociedade em que as mulheres substituam os homens em seu lugar privilegiado se afasta dos ideais democráticos de justiça e igualdade defendidos pela maior parte das correntes feministas

11/03/2019 10:11

(Raquel Marín)

Créditos da foto: (Raquel Marín)

 

A crítica feminista é cada vez mais sofisticada e seu acervo analítico aumenta conforme se recuperam valiosos textos do passado e mais e mais mulheres e homens refletem sobre a infinidade de formas que a desigualdade de gênero adquire no modelo heteropatriarcal.

Em sua ambiciosa recopilação de manifestos feministas de todo o mundo desde o Século XVII, a pesquisadora Penny A. Weiss constatou como coletivos feministas tão distantes entre si no tempo e no espaço – como as mulheres do Terceiro Estado francês no final do Século XVIII, as pan-arabistas dos Anos 30 ou as estadunidenses Riot Grrrls dos Anos 90 – concordam em muitas de suas reivindicações. Estas demandas incluem desde aspectos da reprodução e da criação dos filhos até a violência sexual, passando pelo emprego e as oportunidades educativas das mulheres. Seus textos se assemelham no uso de uma linguagem veemente para se fazer escutar, junto com um forte compromisso democrático e social, e às vezes também ecologista. Mas ficam pendentes algumas perguntas: que ideais ou referentes alternativos ao patriarcado, e em que estratégias para substituir uma sociedade baseada no privilégio masculino se baseia a crítica feminista? Dominar os homens? Se afastar deles e criar comunidades nas que só vivam mulheres? Cooperar com os varões na construção de uma sociedade alternativa? Liberar o indivíduo dos constrangimentos do seu sexo e abolir o gênero?

A maioria dos especialistas estão de acordo em que, na atualidade, não existe nenhuma sociedade cujo modelo seja de fato matriarcal, ou seja, uma sociedade na qual as mulheres ocupem o lugar central ou predominante na estrutura política, social e econômica. Existem sociedades matrilineares, embora alguns autores discutam o carácter matriarcal da sociedade dos Minangkabau na Indonésia – para citar um exemplo, de povoado onde as filhas herdam tanto o nome como as propriedades de sua mãe. Tampouco se conhecem casos históricos. Segundo a evidência arqueológica mais recente, o mítico reino das amazonas, que tanto espantava os gregos, parece ter se inspirado na existência de mulheres guerreiras nas tribos saurormatas procedentes da estepe euroasiática.

Seja pela ausência de referentes reais ou pela mercê de uma historiografia que encarrega de silenciar o protagonismo das mulheres, o conceito de matriarcado não tem um significado unívoco para o feminismo e não necessariamente se entende como sinônimo de dominação ou predominância sobre os homens. Em sua concepção mais ampla, se refere a toda sociedade que não seja patriarcal.

Afinal, uma sociedade na que as mulheres substituem os homens em seu lugar privilegiado se afasta dos ideais democráticos de justiça e igualdade defendidos pela maior parte das correntes feministas. Tampouco resolve os problemas estruturais de desigualdade social e destruição do meio ambiente, associados ao capitalismo, que é um elemento indissociável ao patriarcado. Ademais, é inegável que a imagem de um patriarcado invertido se trata de uma ficção revulsiva: elas, liderando a maioria dos governos do mundo e disfrutando dos benefícios do poder, enquanto eles, cuidam das crianças e recebem nulo ou pouco reconhecimento por isso.

Não existe nenhuma sociedade na qual as mulheres ocupem o lugar central na estrutura política, social e econômica

Já no começo do Século XIV, quando descreveu a Cidade das Damas, Cristina de Pisano imaginou uma fortaleza feita de mulheres notáveis, isoladas e protegidas dos insultos masculinos. Esta noção defensiva permeia as womyn’s lands (terras de mulheres) que surgiram nos Estados Unidos no final do Século XIX, e nas que se refugiavam sobretudo as mulheres lésbicas, iniciando uma tradição que resiste nas comunas contemporâneas, como WomanShare. Somente se associando entre elas, as mulheres “podem formar o sistema de autodefesa necessário para enfrentar as instituições existentes dominadas pelos homens”, explicam as fundadoras das comunas de mulheres surgidas na região do Curdistão Sírio, na última década. Seja como solução definitiva ao patriarcado – partindo de um certo pessimismo antropológico com respeito à possibilidade de construir uma sociedade igualitária junto com os homens – ou como a fase necessária na transição à uma sociedade não patriarcal, a ideia de se separar e se auto organizar é essencial ao movimento feminista. Horizontalidade, reciprocidade e auto sustentabilidade são alguns dos princípios sobre os quais se fundam as comunidades deste tipo.

Ao mesmo tempo, estudos antropológicos recentes indicam que “a igualdade entre os sexos poderia ser uma vantagem para a sobrevivência (dos hominídeos), e teve um papel importante na conformação e o desenvolvimento da sociedade humana”. Diferente dos outros primatas – como os chimpanzés que vivem em sociedades hierárquicas dominadas por machos agressivos – a relação igualitária e cooperativa dos nossos ancestrais caçadores e coletores admitia maiores exposição e intercâmbio com outros grupos de humanos”, explica o antropólogo Mark Dyble. Esso permitia a transmissão de conhecimento e novas ferramentas e evitava a endogamia. Desde esta perspectiva evolucionista, ambos sexos deveriam ter o mesmo interesse em cooperar em pé de igualdade, pois situar as mulheres em uma posição secundária, ou estabelecer uma hierarquia das atividades em função do sexo, teria sido um passo atrás; um prolongado desperdício de inteligência e talento para toda a espécie.

A tecnologia pode liberar os indivíduos dos constrangimentos impostos por se nascer com um ou outro sexo

As correntes feministas mais vanguardistas, como o xenofeminismo, buscam alternativas ao patriarcado além da história natural e não concordam com o anseio de outras – como o ecofeminismo – de regressar a uma vida próxima aos ditados da natureza. “Qualquer um que tenha sido considerado antinatural (leia-se, LGTB, deficiente, etc), qualquer um que tenha experimentado injustiças cometidas em nome da ordem natural, perceberá que a glorificação da natureza não tem nada a oferecer”. Autoras como Helen Hester enfatizam a dimensão artificial do ser humano e planteiam um uso estratégico da tecnologia para liberar os indivíduos das vergonhas naturais impostas por nascer com um ou outro sexo. Herdeiro do ciberfeminismo, o xenofeminismo considera o potencial da rede para diluir o gênero como categoria binária, permitindo uma multiplicidade de identidades versáteis. Ao mesmo tempo, defende a recuperação do ideal da emancipação universal. Imagina, assim, um indivíduo pós-identitário, comprometido politicamente no âmbito global.

Sendo tão só uma seleção de possibilidades, cada uma destas visões ou estratégias oferece elementos – imagens, teorias, práticas – necessários para um debate público sobre que alternativas ao patriarcado estamos tratando de construir. É um debate que já está se reproduzindo nos círculos feministas, mas que vale a pena estender ao conjunto da opinião pública. O feminismo alcançou um amplo consenso social em torno ao diagnóstico crítico da sociedade patriarcal e a inadmissibilidade da discriminação contra as mulheres. Agora é hora de abordar e debater a estrutura concreta, a dimensão prática da sociedade que substituirá o patriarcado.

Olivia Muñoz-Rojas é doutora em Sociologia pela London School of Economics e investigadora independente

*Publicado originalmente em elpais.com | Tradução de Victor Farinelli


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