Do Maranhão, os ventos anunciam: nem tudo está perdido

 

30/05/2019 10:57

A gestante Caroline Costa (ao centro) e equipe de assistência à saúde do Estado do Maranhão. (Handson Chagas/Agência de Notícias do MA)

Créditos da foto: A gestante Caroline Costa (ao centro) e equipe de assistência à saúde do Estado do Maranhão. (Handson Chagas/Agência de Notícias do MA)

 

Há pelo menos três anos, desde o golpe que destituiu um governo democraticamente eleito, vemos o Brasil retroceder drasticamente em direitos sociais. E, em menos de seis meses de governo de Bolsonario e Cia., o que se construiu foi destruição, maior ainda.

No entanto, “Desesperar, jamais!”, escreveu Ivan Lins, cantou Simone.

De fato, existem motivos para não esmorecer.

Alguns chegam do Maranhão. Lá do nordeste quase norte, sentimos soprar ventos de esperança.

Enquanto em boa parte – na quase totalidade – das unidades da federação as medidas anunciadas são de arrocho, de perseguição a pobres, de estímulo à violência miliciana ou policial, de sucateamento dos serviços, de desomonte de políticas públicas, na contramão disso tudo vêm boas novas da terra de Maria Firmino dos Reis e Joãosinho Trinta. Destacam-se duas, bem recentes, e singelas. Voltadas às gestantes, mães e crianças.

Uma delas, a ampliação de um programa de renda mínima local, o “Cheque Cesta Básica”, para mulheres grávidas – o “Cheque Cesta Básica Gestante”. Trata-se de um auxílio de R$ 900, por família, proporcionado pelo governo estadual, distribuídos em nove parcelas de R$ 100 – seis durante a gravidez, três depois do nascimento. Para a receber o benefício, a gestante precisa iniciar o pré-natal antes da 12ª semana de gravidez. O dinheiro só pode ser destinado à compra de alimentos. Até 20 mil mulheres deverão ser atendidas.

A outra boa nova, atrelada à primeira, é a importação, da Finlândia, do programa “baby box” - “Caixa de Bebês”. As mães atendidas pelo “Cheque Cesta Básica Gestante” recebem uma caixa com colchão, que nas primeiras semanas serve de berço. Um kit de artigos de higiene para o nenê faz parte da caixa também.

De quatro anos para cá, o Maranhão já vinha sendo notícia também por ter se tornado o Estado que paga o maior salário para os professores da educação básica, em todo o Brasil – R$ 5.750,84 para jornada de 40h semanais, enquanto o piso nacional é de R$ 2.557,74.

Noutros tempos, tais medidas seriam trivais. Na atual conjuntura, podem ser classificadas como corajosas.

Diante dos ataques dos setores reacionários e elitistas à atuação do Estado em favor do povo, as iniciativas maranhenses guardam, além dos resultados concretos, uma força simbólica ímpar. Demonstram que a escolha de como aplicar ou cortar o orçamento público tem nada de técnica – é absolutamente política e ideológica: alguns governos, como o brasileiro, optam por tirar dinheiro da educação para garantir o pagamento dos juros da dívida pública a banqueiros. Outros, como o do Maranhão, destinam os recursos dos impostos a programas sociais.

O Estado é governado, desde 2015, por Flávio Dino, ex-juiz federal. Do PCdoB, comanda um governo de coalizão que reúne legendas de diferentes espectros políticos ideológicos. Enfrenta ferrenha oposição, na arena política, na mídia, dos grupos ligados a Sarney. Ou seja, não administra sob céu de brigadeiro. Lida com as mesmas, ou até piores, adversidades da velha e da nova política.

Wagner de Alcântara Aragão (@waasantista) é jornalista e professor. Mantém um veículo de mídia independente, a Rede Macuco (www.redemacuco.com.br). Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR).




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