Erundina fala sobre grupo que vai monitorar a Comissão da Verdade

29/12/2011 00:00

Darío Pignotti - Página/12

A deputada Luiza Erundina, líder de um organismo que dará apoio à Comissão da Verdade sobre a ditadura (1964-1985), afirmou que este ano foi histórico em matéria de direitos humanos, mas observou com cautela o cenário para 2012, diante das pressões militares. “É claro que a criação da Comissão da Verdade por parte da presidenta Dilma Rousseff foi um fato de importância histórica, mas ainda não podemos ser muito otimistas sobre se ela atingirá seus objetivos em 2012”, declarou Erundina.

“Não sou excessivamente otimista nem pessimista, vejo a Comissão da Verdade com realismo, sei que vamos enfrentar pressões. Já enfrentamos essas pressões nestes meses por parte de grupos conservadores”, disse a parlamentar. A dirigente socialista falou de atrasos. “Sinceramente, esperávamos que a presidenta anunciasse os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade no dia 10 de dezembro, como disseram algumas pessoas do governo informalmente, mas isso não ocorreu”, comentou. Daí a precaução expressa por Erundina. “Agora se diz que a comissão só começa a trabalhar a sério em maio, e não esqueçamos que se fixou 2014 como prazo para que apresente seu informe sobre mais de duas décadas de ditadura. Não se pode demorar”, acrescentou.

Luiza Erundina, do Partido Socialista, foi eleita há duas semanas titular de um organismo parlamentar cuja missão será “auxiliar a Comissão da Verdade que, nos parece, voltará a sofrer pressões quando tentar revelar fatos importantes, vamos recolher informações, testemunhos”. Para a congressista, nos próximos meses possivelmente ocorrerão “manobras para obstruir os trabalhos, fazer com que a comissão seja desnaturalizada, não chegue a nada que ajude um posterior trabalho da Justiça”.

“São evidentes as novas pressões militares. Elas estiveram presentes no dia do anúncio presidencial, impedindo que a filha de um desaparecido fizesse o discurso que tinha preparado”, exemplificou Erundina. Ela se referiu à suspensão do discurso que iria ser feito pela filha do deputado Rubens Paiva, desaparecido desde 1971, no ato de lançamento da comissão, no dia 18 de novembro. Assistiram à cerimônia, realizada no Palácio do Planalto, vários ministros, familiares e vítimas do regime, juntamente com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

“Lamento que a filha do deputado Paiva não tenha falado e creio que teria sido interessante que os militares também tivessem feito um discurso. Seria positivo que eles expressassem seu pensamento de uma maneira clara, republicana, sobre as investigações dos delitos”, observou Erundina. Meios de comunicação publicaram que ocorreram discussões acaloradas entre os ministros da Justiça, da Defesa e dos Direitos Humanos nas horas prévias à apresentação da Comissão da Verdade.

Erundina disse ter conhecimento dessas versões. “E, pelo que me disseram, o ministro da Defesa (o ex-chanceler Celso Amorim) foi de alguma maneira o mediador, aquele que transmitiu as queixas militares e suas demandas para que não fosse lido o discurso” da filha do deputado desaparecido. A deputada esclareceu que esse foi um comentário que chegou até ela, mas que essa informação não está confirmada.

Ex-prefeita de São Paulo na década de 1990, Luiza Erundina ordenou, na época, investigar as tumbas com corpos sem nome no cemitério de Perus, onde foram achados alguns opositores assassinados pelo governo da ditadura.

Recentemente, as autoridades brasileiras entregaram os restos do comerciante espanhol Miguel Sabat Nuet aos seus familiares. Ele morreu em uma cela da polícia política da ditadura, DOPS, em São Paulo. “É preciso seguir analisando os corpos encontrados que ainda foram identificados. Isso pode demorar mais tempo, mas estamos contando com o apoio claro do Ministério Público Federal e as comissões da verdade que começam a ser criadas em vários estados. Isso é importante”, concluiu Erundina.

Tradução: Katarina Peixoto

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