Filha de Tenório Cerqueira Jr. quer Vallejos deportado

21/04/2012 00:00

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro - Assim como no pai, o amor pela música é explícito. Se deixar, a conversa com Elisa Cerqueira segue pelo mundo da música, da literatura e das artes. No fim de uma tarde de início de outono carioca no Largo do Machado, a mulher de 43 anos, cabelos curtos e cachecol verde passaria como mais uma mãe atarefada com a pequena filha na hora do rush. Infelizmente, inexplicavelmente ou complementarmente, a vida é mais dura do que doces acordes musicais. Tão dura que volte e meia usa de suas macabras ironias.

Elisa marcou a conversa com Carta Maior em uma das principais galerias da região, conhecida pela qualidade dos quitutes árabes de uma das suas lanchonetes. O nome da galeria é Condor. Elisa Cerqueira é filha do pianista Tenório Cerqueira Jr., desaparecido em 18 de março de 1976, em Buenos Aires, após um show com a banda liderada pelo poeta e diplomata expulso do Itamaraty Vinicius de Moraes. Seis dias depois, a Argentina era palco de mais um golpe militar na região e Tenório Cerqueira Júnior declarado morto. Era vítima da rede de informações e ações das ditaduras sul-americanas. O nome era operação Condor.

Elisa tinha oito anos. Não entendeu e embarcou contra a sua vontade em assento privilegiado na nebulosa jornada de tristeza, suposições, terror e fantasia.

Dezesseis anos depois, na conversa da noite do Largo do Machado, a hoje chef de cozinha e mãe de três filhos, refeita, rememora o início do fim da jornada com a chegada da juventude e de documentos comprovando a morte de seu pai, trazidos ao Brasil por um dos algozes dele, o argentino Claudio Vallejos, hoje preso por estelionato em Santa Catarina, mostra-se cética e descrente quanto à possibilidade do Brasil rever seu passado com a competência que os argentinos fazem, e afirma que para “fechar a tampa” dessa estória falta os restos mortais do pai serem transferidos para o Brasil e o pianista ser enterrado pela família.

Carta MaiorO que você lembra do fim da convivência com seu pai?
Elisa Cerqueira - Disseram que ele tinha sumido. Aí, dez anos depois, quando o Vallejos chegou ao Brasil, ele veio trazendo uma farta documentação e informações do que tinha acontecido. Ele deu entrevistas em que ele cobrou uma fortuna para mostrar esses documentos, que eram documentos secretos oficiais da Escola de Mecânica da Armada (ESMA) argentina. Aí é que a gente ficou sabendo. Quer dizer, para mim, que era criança, eu não tinha as informações que a minha mãe tinha. Então a minha mãe, e todo mundo, fazia uma ideia do que tinha acontecido, só não tinha nenhuma prova, nenhuma informação concreta. Mas pela situação, pelo momento em que ele sumiu, com todo o cenário armado em volta, era de se deduzir que ele tinha sido detido.

CM: Você soube das investigações da época?
EC: Meu avô paterno, que era delegado da Polícia Federal foi para lá. O Vinicius ficou na Argentina, ele era diplomata e passou um mês em Buenos Aires atrás de informações. Mas não conseguiram nada. Só quando o Vallejos veio ao Brasil mesmo, trazendo esses documentos para barganhar, é que a gente conseguiu saber o que tinha acontecido”.

CM: Falando do Vinicius, quando ele voltou ao Brasil, ele falou alguma coisa com a família de vocês?

EC: Claro, ele manteve o contato o tempo todo. Ele se empenhou muito, na verdade. Como eu te disse, ele passou um mês lá a partir do que aconteceu. Porque ele estava em turnê, ele poderia ter voltado ao Brasil a partir do que aconteceu, diante do golpe (N.R.: golpe militar na Argentina, em 24 de março de 1976) e tudo mais. Mas ele ficou procurando exaustivamente por alguma pista.

CM: Confere que ele se apresentou à embaixada brasileira em Buenos Aires e apresentou um habeas corpus à justiça argentina?

EC: Eu acho que sim. Não tenho certeza dessas coisas. Esses detalhes da época eu não sei direito porque era criança, e nem me aprofundei anos depois porque como a gente já sabia o que tinha acontecido, não vi motivos para escavar isso mais ainda. O que sei é que ele ficou um mês ainda lá, e provavelmente deve ter feito vários movimentos para conseguir algo.

CM: Quando ele voltou de lá, que tipo de informações ele passou a vocês?

EC: Nenhuma (risos). Nenhuma, nem ele tinha. Sério ! Durante dez anos foi uma incógnita, claro que eventualmente tinha um sem noção que ia falando “ah...porque eu vi o Tenório não sei aonde...”, não sei se era muito entusiasmo, ou muita vontade de querer que ele reaparecesse, ou, enfim, aquelas informações equivocadas. Isso aconteceu algumas vezes, mas de realidade, nada. Até a vinda do Vallejos, nada se sabia.

CM: Até a morte dele, quatro anos depois, em 1980, o Vinicius falou algo? Vocês mantiveram relacionamento com ele?

EC: Não. Não tinha mais contato. Na verdade ele não era íntimo da família, ele era músico, colega do meu pai, trabalhava com ele. Claro que meu pai o conhecia e tudo, mas não tinha uma intimidade de frequentar. Na verdade, como eu já disse, eu era criança. Então, se aconteciam, eu não sabia. Não tenho como afirmar se aconteciam ou não. Porque quando acontece uma tragédia dessas com a família as crianças não ficam muito a parte. Não é uma coisa que os pais, os adultos, discutem com criancinha de oito anos (risos). Então se esse relacionamento se manteve, se ele (Vinicius) continuou procurando informações, eu não sei dizer, mesmo.

Porque na verdade durante muito tempo isso foi muito complicado para mim, para falar sobre isso. Eu fui meio que desmistificar a coisa já bem mais velha. Como eu não tinha informações concretas, era muito difícil para mim, ainda por cima na adolescência, falar sobre isso.

CM: Você tinha o sentimento que poderia reencontrá-lo?

EC: Esse tempo todo, né ? Principalmente nesses anos em que a gente não tinha... não soube do que tinha realmente acontecido, era normal você ter sempre a expectativa...(voz cresce)...de repente toca a campainha e você vai abrir a porta é o cara. Isso é normal, principalmente para criança, que fantasia muito. E como a gente não tinha uma exata noção do cenário político, do que estava acontecendo, o que poderia ter acontecido com ele depois de preso, como éramos pequenos, não dava muito para ter uma ideia disso, exata.

CM: E, aos poucos, isso foi besbotando?

EC: Ah, vai, desbota. Não o ocorrido. O ocorrido, claro que não...

CM:...Sim, mas essa fantasia, do abrir a porta...

EC: ...Sim, essa sim, com certeza, com certeza. (Voz firme) Quando o Vallejos chegou ao Brasil eu já tinha dezoito anos. Então é claro que já foi outra leitura da situação. Porque aí ele deu entrevistas, saíram publicações, a documentação e tudo. Aí já foi outra coisa, eu já tinha um entendimento disso. Então realmente já não tinha nenhum tipo mais de esperança.

CM: E até essa vinda do Vallejos, pessoas ligadas a você, ou o seu próprio processo de amadurecimento, minimizaram esperanças?

EC: Com certeza, não tinha uma coisa de ficar alimentando uma esperança..., mas...(voz emocionada)..., isso dentro do espírito infantil acho que é normal. (retoma o tom) Você não sabe exatamente o que aconteceu, logo tudo pode ter acontecido, pode aparecer de uma hora para a outra.

CM: Voltando ao crime, há um documento, cuja veracidade é duvidosa, indicando que os militares argentinos teriam avisado a embaixada brasileira sobre a morte de Tenório. O que acha disso?

EC: Não é duvidosa ! Isso faz parte...isso é da... É duvidoso para o Brasil ! Né ? Que até hoje não assumiu... Essa história é muito maluca. Porque tinha a tal da operação Condor. O meu pai tinha um primo, tem um primo, que está vivo ainda, que na época era militante e estava na clandestinidade porque ele era da luta armada. Quando meu pai foi preso em Buenos Aires, eles associaram. Meu pai não era militante político, com certeza não era. Tinha uma visão de esquerda e tudo, mas não tinha nenhuma vivência política. E por ser primo em primeiro grau do Luiz Tenório, isso influenciou para eles o terem mantido, terem torturado. Porque talvez pudesse ser uma prisão de averiguação e tivessem soltado. Essa informação, como outras, foram dadas pelo governo brasileiro. Eles tinham uma conivência, uma troca de informações, enfim.

CM: O primo do seu pai estava lá?

EC: Não. O primo do meu pai estava aqui no Brasil, aqui no Rio, na clandestinidade. Se não me engano o Luiz não chegou nem a se exilar. Acho que ele nem foi preso.

CM: Mas as autoridades argentinas tinham o conhecimento do nome ser ligado a alguém daqui?

EC: Óbvio que tinham. Óbvio. O Vallejos trouxe toda essa documentação. Se eu não me engano, ele divulgou mas não entregou os documentos. Foram mostrados em fotocópias e tal, mas ele não entregou os originais. Mas nos documentos têm tudo.

E por ele ser o que ele era, né ? Pela aparência dele. Um cara cabeludo, barbudo, músico, enfim. Esse estereótipo dele claro que contribuiu para mantê-lo ali, porque era o estereótipo do revolucionário, do cara de esquerda.

CM: Você tem alguma informação a mais sobre a morte dele, supostamente no dia 25 de março de 1976?

EC: A única informação que a gente tem é essa documentação. Porque na verdade o governo argentino reconheceu a participação, indenizou a gente, estão lá prendendo e julgando e condenando os seus bandidos. Mas fora isso não tem nenhuma outra informação. A única informação que eu tenho são as que todo mundo tem, que foi o Astiz que deu o tiro de execução.

CM: Qual a sua opinião sobre a abertura de processo na Argentina para a captura internacional de Vallejos?

EC: Sendo deportado, o Vallejos vai ser julgado e provavelmente condenado, como todos foram. O Astiz está preso e condenado à prisão perpétua. Eu acho que ele tem que ser deportado, porque aqui é que não vai acontecer nada com ele. O Brasil ainda não abriu seus arquivos, não reconhece sua participação, anistiou todos os torturadores. Então eu acho que ele tem mais é que ir para lá porque lá a justiça vai ser feita.

CM: Você acredita mais no processo argentino do que no brasileiro, mesmo com a Comissão da Verdade se avizinhando?

EC: Quem é a nossa presidente ? A mulher não sofreu tortura, não foi uma vítima? Ela mesma foi a primeira a tirar o corpo fora, como o Lula já tinha tirado, da abertura desses arquivos. Eu duvido muito que algo aconteça aqui. Ela não fez um movimento, ela se esquiva, não vai fazer nada. Se eu estivesse no lugar dela teria sido a minha primeira ação. Até a trajetória política dela mostra que ela passou uma borracha, ela não tem interesse pessoal nisso. Muito menos interesses políticos de se confrontar com aquela corja toda com que ela convive, quando ela é obrigada a beijar a mão e dar abraço e sair na foto sorrindo. Eu não acredito, mesmo, “so sorry”.

CM: Você acha que a presidenta Dilma não tem tanta vontade política de acelerar esse processo, mesmo com o perfil dela?

EC: Eu acho. Acho que se fosse para acontecer, já teria acontecido. Como eles já anistiaram todos, estão todos aí. A partir do momento que eles abrirem esses arquivos, que essas verdades forem expostas, vai virar uma saia justa. Como eles vão fazer ? Vão manter esses criminosos em liberdade, sem julgamento, sem nenhum tipo de punição ? Vai ser simplesmente para que a gente saiba dos detalhes sórdidos do que aconteceu ? Então acho que não tem interesse em abrir isso. O único interesse que haveria seria se realmente eles fossem levados a julgamento pelos seus crimes. E isso não vai acontecer, a política daqui é muito diferente de lá (Argentina). Muitos ainda estão no poder aqui, é muito complicado. Eu acho que não tem nenhum interesse, nenhum interesse.

CM: Você teria interesse em falar na Comissão?

EC: Não tenho nada para falar para a comissão, eu era uma criança na época. Não tenho nada para falar. Eu sei que parece frio o que eu tô falando, mas é porque realmente eu não consigo ver algo. Eu adoraria que nosso país fosse um país diferente, eu adoraria que desse a volta por cima como eu vi outros países fazendo. Abrir seus armários, tirar seus esqueletos, encarar seus demônios, mas o brasileiro não tem esse espírito, eu não vejo esse espírito. E a política brasileira funciona de forma completamente centralizadora. (Voz triste) Eu não acredito que se faça algo.

CM: Não vê esse como o momento certo para o Brasil aprofundar esse acerto de contas com o passado?

EC: Eu acho que não há nenhum interesse. Acho que há interesses políticos muito maiores entre essas pessoas, tanto a situação como esses criminosos, muito maiores do que ficar desenterrando osso e julgando criminosos. Parece horrível a maneira como eu falei, mas acho que eles pensam desse jeito. Acho que eles viraram a página. Não tem interesse, mesmo. Não vai acontecer nada aqui, eles não vão pegar essas pessoas e colocar no banco dos réus, e condenar.

Sou totalmente desesperançada. Não acredito mesmo, não acredito mesmo ! Infelizmente. Eu morro de vergonha, se você quer saber. Eu já fui à Argentina várias vezes, tenho um monte de amigos argentinos que sabem da história, sabem da história do meu pai, muita gente que têm parentes lá que também foram mortos ou foram vítimas da ditadura de lá. Vejo uma diferença explícita entre lá e aqui. Lá há uma mobilização, a coisa é feita em regra, como deveria ter sido feito aqui desde a anistia, desde 1979. E a visão dos meus amigos argentinos em relação ao Brasil, que eu acredito que é a visão que os estrangeiros têm do Brasil nesta questão, é a mais depreciativa possível.

A postura do brasileiro em relação a isto é muito comodista, muito complacente. E o governo brasileiro é totalmente omisso, sempre foi, se manteve assim este tempo todo. Quando entrou o Lula era uma esperança. Quando entrou a Dilma foi uma esperança maior ainda, e é óbvio que a coisa não vai acontecer. Não vai haver esse julgamento, não vai haver um banco dos réus ou condenações.

Em 2006 a Comissão de Mortos e Desaparecidos do governo brasileiro pagou uma indenização padrão por todos os desaparecidos. Foram R$ 150 mil para a família. Uma vergonha ! Não é nem pelo dinheiro, mas pela maneira que eles trataram a coisa. Deram tipo um “cala a boca” para as famílias, e em contrapartida figuras públicas receberam indenizações milionárias, estando vivas, sem terem passado por uma repressão mais contundente, apenas pelo fato do que eles teoricamente perderam financeiramente pelo tempo que foram vítimas. Quer dizer, é uma palhaçada, é um deboche para as famílias que tiveram seus entes queridos realmente torturados e executados.

CM: Entre o Vallejos depor aqui e depor lá, você prefere lá?

EC: Primeiro, o cara é um mercenário. Ele não vale nada. Ele ainda está pedindo dinheiro para ser entrevistado. Até hoje, preso, com uma condenação quase certa lá, ele ainda pede dinheiro para falar. Eu acredito que tudo que ele tinha para ser dito, ele fez naquela época, que foi quando ele encheu o bolso dele para se esconder aqui no Brasil até hoje. Porque naquela época ele deu muitas entrevistas, extorquiu para fazer o pé de meia e ficar escondido na clandestinidade.

Então eu acho que o que ele tinha para falar ele já falou. A menos que...talvez essas informações que liguem figuras físicas brasileiras aos acontecimentos na Argentina, à Operação Condor, talvez ele possa dar algumas informações a mais, porque na época ele cobrou para falar mais sobre o meu pai porque meu pai era uma figura mais eminente do que a maioria dos desaparecidos. Mas não acredito que ele tenha muita coisa a mais. E ele ficando aqui corre o risco de ele se dar bem. Eu acho que ele tem que ser deportado, porque lá ele vai ser julgado, com certeza, e vai ser condenado.

O argentino é um povo engajado, seja para bem ou para mal. E com relação a esse período da ditadura eles foram exemplares nas punições. Eles realmente perseguiram, julgaram, condenaram e prenderam todos que eles conseguiram colocar as mãos até agora. Eu acho que ele (Vallejos) tem que ir para lá.

CM: Você acha que, para a sua família, estão mais próximas reparações pelo argentino do que por aqui?

EC: Olha, os argentinos já nos deram uma indenização. Que foi dada ao longo de dez anos em títulos do governo e tal. Essa reparação, eles fizeram quase toda, já se desculparam oficialmente. No final do ano passado inauguraram uma placa no hotel onde meu pai estava hospedado. Nesse ponto eu acho que sim.

A única coisa que faltou mesmo nessa história é o corpo dele ter voltado. Nesses documentos que o Vallejos trouxe diz que ele está enterrado com nome falso no cemitério...bem, esqueci o nome. Um cemitério famoso lá com nome indígena (N.R.: Chacarita). E a única coisa que faltou foi fazer a exumação e trazer os restos de volta para a gente poder enterrar o cara aqui e dar aquele ponto final, entendeu, (voz forte) que só um enterro dá !

Acho que o quê faltava era isso mesmo. Era só ter essa delicadeza. E isso é uma coisa que até o governo brasileiro podia ter feito, a partir do momento que, de certa forma pagando aquele “cala-boca” ali, ele meio que reconheceu, podia ter se mobilizado para isso, “cadê o corpo ? Devolve o corpo pelo menos”. E os argentinos poderiam ter feito também. Foi a única coisa que ficou meia no débito, a única coisa que não fechou a tampa do negócio.

CM: Essas suas idas a Argentina estão relacionadas com o caso do seu pai?

EC: No início foram. A gente recebia essa indenização em bônus do governo argentino, títulos, aí tinha um juros... Eu sei que nós recebíamos isso mensalmente e tinha uma advogada do movimento de justiça e direitos humanos da Argentina que, como era um valor baixo, esperava não sei quantos meses e enviava tudo junto para a gente. Mas aí ele teve um problema. Como ela era uma ex-presa política também torturada, ela teve um problema de saúde, era idosa e tal. E para não complicar a situação eu passei a ser procurante da minha família e passei a ir lá para receber isso de seis em seis meses. Aí depois virou uma coisa mais regular, eu comecei a fazer amigos, e hoje em dia vou regularmente.

CM: E sente alguma emoção quando está lá?

EC: No começo foi punk, né ? Eu fui nos lugares todos. Fui lá na Escola da Armada, mas, depois...cara...hoje em dia o sentimento que eu tenho pela Argentina é... eu moraria lá (risos). É muito legal, eu gosto muito de lá, acho que o quê aconteceu ali durante aquele período não desmerece o povo, a educação e tudo.

CM: E você está cética quanto ao Brasil? Neste momento também há uma tentativa de mobilização por aqui.

EC: Eu acho superlouvável, superlouvável. Eu não tenho esse espírito de militância nas coisas, eu sou muito cética mesmo, bem pragmática com as coisas. Tomara que eu esteja errada, mesmo ! Mas eu tenho muito pouca esperança. Não vou dizer que eu ache que não vai acontecer, a esperança sempre existe, mas eu não vejo acontecendo.

CM: Você acha que esse ciclo possa se encerrar?

EC: Isso não vai se fechar nunca, na verdade. Para fechar a tampa dessa estória, como eu te falei, é mandarem o corpo, acabar, encerrar essa estória. Mas isso nunca se encerra, porque volta e meia acontece alguma coisa e aí procuram a gente... De vez em quando acontece alguma coisa e aí essa estória vem à tona. Só serve para ficarem ali futucando, futucando com a gente mais uma vez, e ficarem ali falando, repetindo as mesmas coisas. Acaba não tendo nenhum valor porque nada acontece, não muda o panorama.

CM: Quanto a Vallejos, você acredita nele, ou acha que é um aventureiro?

EC: Ele é... Cara, não dá para saber. Eu acredito no que ele trouxe documentado, eu acredito na veracidade da documentação. Porquê ele não é burro, de burro ele não tem nada, ele é um estelionatário formado. Ele não ia trazer uma documentação falsa para tentar fazer um ganho. Quando ele chegou, ele chegou para isso, chegou trazendo aquilo para ser um tesouro negociável.

Eu acredito na veracidade da documentação sim, tanto que o próprio governo argentino reconheceu os fatos que estão documentados. Eu acho que se houvesse uma falsidade nessas documentações os argentinos não teriam endossado isso. Agora, nos depoimentos que não sejam documentados, só verbais, eu acho que ele possa tentar dar uma enfeitada no negócio para ter um valor maior. Aí só vendo o que ele tem para dizer.

CM: Você acha que ele deveria ser levado à Comissão da Verdade?

EC: Deveria... Mas já te falei isso, é mais garantido que ele seja deportado. Porque aqui, se ele vier a dar depoimento na Comissão da Verdade, como muita coisa não tá documentada aqui, pode ser um depoimento falso, que crie dúvidas e... eu acho que cria uma possibilidade de ele conseguir escapar de novo. Não sei, não sei como funciona isso aqui, não sei se ele ficaria aqui sob custódia para depois ser extraditado. Aqui ele pode ser solto por qualquer bobagem, por isso o governo argentino pediu a extradição dele. E lá ele vai responder pelos grandes crimes que ele cometeu. (Voz enfática) Ele tem que ir para lá, cara. O quê que o cara vai ficar fazendo aqui. Daqui a pouco ele vai ser solto. Todo mundo é solto aqui ! (risos). Você entende o meu ceticismo ? Ele não é em vão.

Se ele ficar aqui ele vai acabar escapando, de novo. Ele ficou solto esse tempo todo. Quando ele chegou aqui, em 1986, qual seria a ação correta do governo brasileiro, estando um cara aqui com aquele tipo de documento ? Teria que ter sido detido na mesma hora. O cara ficou esses anos todos escondido, vivendo bem lá naqueles paraisozinhos do interior do Paraná. Foi preso por um deslize dele, porque ele é um cara mau caráter, um bandido. Foi preso por um deslize e vai se safar se ele ficar. Talvez tudo que ele queira seja dar esse depoimento à Comissão da Verdade, fictício ou não, para poder ter mais uma chance de se manter aqui. Porque se ele for extraditado ele vai ser preso e vai ser condenado. Com certeza ele vai ser condenado, todos foram.

CM: Você acha que a aposta dele é ficar aqui e o caso ser esquecido em 10, 15 anos...?

EC: ...Não precisa nem tanto tempo. Nem tanto tempo. Exatamente isso. Eu acho que ele tem que ir, eu não faria nenhum movimento para mantê-lo aqui, mesmo. E eu duvido muito que ele tenha alguma coisa realmente nova para dizer. Eu acho que a única coisa que o Vallejos tem de verdadeiro mesmo, e que sirva para ele como uma moeda, é essa questão do meu pai, porque na verdade ele era um soldado raso, tanto que quando ele veio em 86 ele tinha vinte e poucos anos. Ele participou das ações como um comandado, um subalterno. Ele não era o braço-direito do Astiz que executou junto. Não foi bem assim. Isto está bem claro no depoimento dele da época, nos documentos e nos depoimentos do Astiz lá.

CM: Você disse que não gostaria que ele ficasse por aqui porque poderia acabar sendo solto. Alguma vez já ocorreu algum episódio conexo a isso com você ou com alguém de sua família?

EC: Como assim?

CM: Tipo perseguição ou intimidações, como acontece muito em países sob ditadura ou pós-ditadura...

EC: Entendo, entendo. Mas não. Talvez por a gente ter ficado no vazio, né ? No limbo, em relação ao que aconteceu, sem ter informação durante tanto tempo, não tinha muito o quê fazer. O que pôde ser feito foi feito pelo meu avô e pelo Vinicius na época, não tinha muito o que fazer. Como a família não tinha essa movimentação de buscar, porque não se sabia nem por onde começar, então nunca aconteceu nada. Nesse ponto, com certeza nunca aconteceu nada, nem como ameaça nem como apoio. Nem de um lado nem de outro.

CM: Você já teve alguns fantasmas? Aqueles sentimentos de dúvidas, ou até de investigação, aqui ou na Argentina, como alguém ou em algum lugar? Tipo, será que essa pessoas estava envolvida? O que está fazendo aqui? Quem é ela?

EC: Sentimento de perseguição ? Não, não. O fato mesmo é que o cara tava lá, um puta músico, fazendo um trabalho maravilhoso, entendeu ? Tava ali e se não tivesse acontecido isso com ele a projeção de carreira dele seria fantástica...(emocionada)... Para mim não tem..., eu entendo que para muitas famílias isso seja de suma importância, principalmente para aqueles que desapareceram mesmo na luta. Meu pai não era militante, ele não estava envolvido nisso dessa maneira.

Eu não sei o que dizer, mas eu não tenho essa... Claro que eu quero que a justiça seja feita, por isso que eu quero que o Vallejos vá. Até porque já está tudo esclarecido, na verdade. De certa forma já está tudo esclarecido. O quê eu quero saber, detalhes da sessão de tortura ? Eu não quero saber isso, entendeu ? Isso não me interessa, eu não quero saber os detalhes sórdidos, dispenso.

O que eu gostaria de ver era os militares brasileiros que estavam envolvidos na época, que deram os nomes, punidos. Esses eu gostaria de ver, isso eu gostaria de saber. Mas isso não vai acontecer, é óbvio que não vai acontecer, ou quando vier a acontecer eles já não vão estar vivos. Já estavam todos à beira da taxidermia na época, hoje então nem se fala. Não vai rolar.

CM: Você tem acompanhado essas ações de jovens denunciando os ex-torturadores, indo às casas deles, apontando para vizinhos e sociedade em geral o passado deles?

EC: Mas isso... sabe o quê acontece, isso não é legal. Eu acho isso covarde. A mesma covardia que eles tiveram em relação aos militantes políticos, isso de perseguir a família, de estigmatizar os parentes e filhos. Eu acho isso supercovarde, entendeu ? Ir lá na casa dos caras, pichar, estigmatizar os filhos na escola, agredir a família. Eu não faria isso. O que ele fez ninguém pode responder a não ser ele, ou os superiores dele. Não acho certo isso, de verdade, eu acho lamentável.

Sabe o quê vai acontecer ? Os filhos desses infelizes vão crescer e vão viver da mesma maneira que os filhos dos infelizes que foram torturados e assassinados viveram. Vão crescer com estigma. Isso não aconteceu com a minha família, podiam ter ido lá pichar a parede do meu prédio chamando meu pai de subversivo. Eu não ia querer isso, eu acho que ninguém é herdeiro de uma merda dessas. Ninguém merece uma herança dessas. Então não acho isso certo. Acho que tem pegar o cara, levar o cara, julgar e condenar o cara. Não é pegar e jogar tudo no mesmo saco, as novas gerações, que não têm nem entendimento do que aconteceu, totalmente inocentes, que não pediram para nascer filho desses infelizes. Acho totalmente errado.


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