Gonzalo ''Chispa'' Sánchez , um dos acusados pelo sequestro de Rodolfo Walsh, foi preso no Brasil

Fugitivo do Caso ESMA, o repressor que sempre se gabava de sua passagem por esse centro de detenção clandestino, foi preso em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro. Será o primeiro caso de extradição de um repressor argentino no governo de Jair Bolsonaro, apologista das ditaduras da América do Sul

12/05/2020 18:28

Sánchez, de 69 anos, foi preso na tarde desta segunda em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro (Reprodução)

Créditos da foto: Sánchez, de 69 anos, foi preso na tarde desta segunda em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro (Reprodução)

 
A Polícia Federal brasileira prendeu nesta terça-feira (12/5), no interior do Rio de Janeiro, o repressor argentino Gonzalo “Chispa” Sánchez, um dos fugitivos do Caso ESMA, acusado de sua participação na força-tarefa que assassinou o jornalista e escritor Rodolfo Walsh em 1977, além de ter participado nos chamados voos da morte.

Sánchez, de 69 anos, foi preso em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, na segunda-feira (11/5) à tarde. A polícia não revelou sua identidade em um primeiro momento, mas nesta terça ela foi confirmada ao diário Página/12, por uma fonte diplomática argentina.

O detido era um oficial militar durante a ditadura em seu país, e fazia parte do Grupo de Tarefa 3.3 da ESMA (sigla em espanhol da Escola de Mecânica da Marinha).

Este poderia ser o primeiro caso de extradição de um repressor argentino durante o governo de Jair Bolsonaro, um apologista das ditaduras da América do Sul – especialmente a do chileno Augusto Pinochet – que está em guerra política virtual contra o STF (Supremo Tribunal Federal, principal instância do Poder Judiciário em seu país).

Em 2013, durante o governo da então presidenta e ex-prisioneira política Dilma Rousseff, Sánchez foi preso pela primeira vez em Angra dos Reis, também no litoral do Rio de Janeiro, onde trabalhou como engenheiro naval.

Angra dos Reis é uma das fortalezas políticas de Bolsonaro, que desde sua chegada à Presidência começou a promover um projeto para incentivar o investimento estrangeiro e transformar o local na “Cancún brasileira”.

Rodolfo Walsh (Wikimedia Commons)

O mandado de prisão foi assinado pelo juiz Luiz Fux do STF.

Antes de fugir da Argentina, o agora prisioneiro Sánchez trabalhou, no início dos Anos 2000, como armador de empresas de pesca em San Antonio Oeste, na província argentina de Río Negro, onde se vangloriava de seus tempos na ESMA. Terminou sendo declarado persona non grata pelo Conselho Deliberativo local.

Em dezembro de 2017, o STF concedeu o pedido de extradição apresentado pelo governo argentino por 3 votos a 2, com base em uma solicitação do juiz federal Sergio Torres, em 2009.

Em suas alegações, as autoridades argentinas citaram que ele é acusado %u20B%u20Bde crimes como sequestros, assassinatos, desaparecimentos e torturas, contemplados na Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) como imprescritíveis, por se tratarem de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Mas o Brasil (cuja Justiça é refratária a essas questões, e onde a anistia herdada da ditadura ainda está em vigor), não é signatário da Convenção, e aplicou a prescrição aos assassinatos atribuídos a Sánchez.

Finalmente, o STF concedeu deportação baseada no crime de sequestro, que a Justiça brasileira ainda reconhece como condenação vigente a qual o réu deve cumprir.

Os votos a favor foram dos ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux, o mesmo que solicitou a captura do homem que até ontem era fugitivo.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli





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