Grande mídia faz tráfico de opinião, diz jornalista

08/12/2003 00:00

Porto Alegre – “Estamos presenciando o nascimento de um movimento – e esta parece ser uma sina de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul – em defesa da adoção de instrumentos de controle social da mídia, cada vez mais poderosa e incontrolável; um movimento que vai se expandir por todo o país”. A previsão é do jornalista Carlos Alberto Kolecza, editor da revista Porém, publicada no Rio Grande do Sul, e coordenador de uma reportagem investigativa sobre as operações do grupo RBS, maior empresa de comunicação do sul do país. Durante debate realizado dia 5 de dezembro, no plenarinho da Assembléia Legislativa gaúcha, Kolecza fez um diagnóstico crítico sobre o papel da grande mídia brasileira no processo de criminalização dos movimentos sociais e de vilanização de suas lideranças. Para ele, essa mídia especializou-se em seqüestrar a informação e traficar opiniões que interessam ao pacto de poder mantido pelas elites brasileiras. Contra esse poder, propõe Kolecza, os movimentos sociais e os setores progressistas da sociedade devem incorporar em sua agenda de lutas a necessidade urgente de adotar mecanismos de controle social.
Kolecza não mediu palavras para descrever o que entende ser hoje o papel dos grandes meios de comunicação no país. “A mídia é hoje uma das maiores fontes de corrupção deste país, fazendo parte do pequeno e fechado núcleo de poder das elites, principalmente a partir do governo Collor, que deu início ao processo de privatizações, de desregulamentação da economia brasileira e de supressão de direitos sociais, aprofundado depois pelo governo Fernando Henrique Cardoso”. Para ilustrar sua afirmação, o jornalista lembrou o episódio da demissão de mais de 100 mil funcionários públicos no governo Collor, que, supostamente, seriam os famosos marajás que embalaram sua vitória eleitoral. “Milhares de servidores foram demitidos sem receber seus direitos e a grande mídia silenciou sobre isso”. A partir deste período, assinalou Kolecza, aprofundaram-se os laços entre a mídia o sistema financeiro e grandes grupos empresariais, fortalecendo um pequeno mas poderoso grupo de poder, imune a mudanças políticas. “O poder deste grupo é tal que entra governo sai governo e nada de substancial muda. Estamos vendo isso mais uma vez agora. Apesar da mudança de presidente, nada mudou nesse modelo por enquanto”.
A questão do controle social
A partir deste diagnóstico, o jornalista considera uma tarefa urgente, para os movimentos sociais e todos os setores progressistas do país, a introdução do tema do controle social da mídia na agenda política nacional. “A mídia é o único poder deste país que não tem qualquer tipo de controle, que está acima de todos os poderes. Até o Judiciário está sendo questionado. A mídia, nem pensar”, observou. Qualquer menção a esse tema recebe uma saraivada de editoriais acusando uma tentativa de censurar a liberdade de informação. O que Kolecza põe em xeque é justamente a existência dessa liberdade, que, para ele, é absolutamente falaciosa. O jornalista considera que a resistência da grande mídia à introdução de mecanismos de controle social está diretamente relacionada ao papel que ela desempenha na atual estrutura de poder. “A parte da mídia neste processo é manter a sociedade desorganizada para que, assim, ela não possa identificar e entender as raízes profundas dos problemas do país”.
Ele aprofundou seu diagnóstico, sustentando que, para executar essa tarefa – de estimular e manter a desorganização social -, a mídia trabalha para isolar os grupos sociais organizados e seus líderes, criminalizando-os e transformando-os em vilões. Para Kolecza, o caso do MST é o mais flagrante. Lembrou uma capa da revista Veja, onde João Pedro Stédile, líder dos sem-terra, aparecia armado, como se fosse um bandido social. “A Veja, enquanto leitura obrigatória das classes médias executivas do país, funciona como um agente, o principal agente, de criminalização dos movimentos sociais”, defendeu. O forte caráter editorial da revista contra esses movimentos, especialmente o MST, desempenharia assim o papel de definidor da agenda política conservadora, contra qualquer tentativa de ruptura do atual modelo.
Concentração de renda
O que está em jogo na defesa desse modelo, prosseguiu, é a manutenção da atual estrutura de concentração de renda no país. O IBGE mostrou recentemente que o Brasil foi o segundo país que mais cresceu no mundo ao longo do século 20. No entanto esse crescimento não resultou em distribuição de renda, muito pelo contrário, agravou esse quadro. Kolecza lembrou esse dado. “Governo após governo, década após década, o IBGE revela que a estrutura de concentração de renda no país muda apenas decimalmente. Entra governo, sai governo, ninguém consegue mexer no salário, na concentração de terra e de renda”. E refletiu sobre a estrutura de poder que sustenta esse quadro. “Há vários setores sociais responsáveis por isso, que constituem a chamada elite. Mas quem faz o engate entre esses setores é a mídia. É ela quem organiza a agenda de debate dos grupos de poder. Os mecanismos de que dispõem para executar esse trabalho são incontroláveis e praticamente ilimitados, mas quem desempenha um papel estratégico neste processo é a mídia escrita”.
A afirmação de Kolecza foi questionada por alguns participantes do debate que consideram a televisão como o veículo hegemônico e mais poderoso deste esquema de poder. Concordando que, do ponto de vista quantitativo, a mídia televisiva tem uma penetração muito maior na sociedade, Kolecza discordou, porém, que ela seja a fonte principal de hegemonia. Para ele, a televisão, assim como o rádio, são pautados diariamente pela mídia escrita, que é quem organiza, articula e apresenta os temas que devem ser tratados diariamente. Neste ponto, introduziu outro ponto polêmico, relacionado à tiragem dos grandes jornais. Para ele, esses veículos não têm qualquer interesse em aumentar significativamente a tiragem de suas publicações.
O enigma das tiragens
Aparentemente paradoxal, uma vez que os grandes jornais parecem sempre empenhados em superar a circulação dos concorrentes, a tese foi sustentada por Kolecza com um argumento relacionado ao papel que a mídia desempenharia na defesa da atual estrutura de poder. Lembrou que o Brasil possui cerca de 400 jornais, que, segundo a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), vendem ao todo cerca de 7,8 milhões de exemplares por dia. Considerando uma população de 175 milhões de habitantes, essa é, proporcionalmente, a menor média de todo o continente americano, inferior inclusive a de países pequenos como a Guiana. “Os grandes jornais não têm interesse em vender muito mais do que isso. Com exceção da Folha de S.Paulo, que fez um esforço muito grande para aumentar sua tiragem, todos os outros grandes veículos da mídia impressa brasileira mantiveram ou diminuíram a sua. Os proprietários alegam que a tiragem é baixa em função de aspectos sociais e econômicos como o analfabetismo, a falta de hábito e leitura e o baixo poder aquisitivo da população. Mas se essas são as causas, por que será que esses jornais não defendem, em suas linhas editoriais, a elevação dos salários, o investimento maciço em políticas públicas capazes de resolver esses problemas sociais?”, perguntou Kolecza.
Na avaliação do jornalista, a mídia não abraça essa agenda, que poderia contribuir para o crescimento dos níveis de leitura do país, por que seus interesses estratégicos são outros. “A grande mídia trabalha para manter a cabeça da classe média em uma jaula de ouro, subornando-a com informações que são do seu agrado. O que ela quer é controlar a opinião desses 10% da população que acabam influenciando a opinião dos demais, produzindo isso que se chama de opinião pública a partir de factóides. Essa opinião pública é uma espécie de fumaça colorida engarrafada destinada à classe média”. “O que devemos defender”, acrescentou, “é a vontade pública de uma sociedade informada e organizada e não essa fumaça colorida vendida como sendo a opinião pública”. No processo de construção dessa fumaça colorida, a grande mídia pratica um trabalho sistemático de seqüestrar a informação e traficar opinião, defendeu. E citou como exemplo desse trabalho, o tratamento que a RBS deu ao tema da segurança durante o governo Olívio Dutra. “No RS, quando Olívio era governador, você ia a um restaurante e só se falava do problema da violência. Hoje, no governo Rigotto, a violência segue crescendo mas não se fala mais disso. As manchetes desapareceram, o noticiário policial foi para as páginas internas e vende-se a idéia de que o Estado foi pacificado”.
A lógica do tráfico de opinião
Esse processo de tráfico de opinião, segundo Kolecza, está diretamente relacionado ao papel desempenhado pela mídia na manutenção da estrutura de poder e também aos seus cada vez mais diversificados interesses econômicos. “A partir do processo de privatização aprofundado pelo governo Fernando Henrique, a grande mídia diversificou seus negócios, entrando de cabeça no setor das telecomunicações. Quebrou a cara e hoje está aí pressionando o governo por dinheiro. Mas diversificou em outras direções também e os interesses desses negócios estão presentes nas opiniões que são traficadas e vendidas como informações”. O jornalista citou mais uma vez o caso da RBS, que além de também ter entrado no negócio das telecomunicações (participou da privatização da Companhia Riograndense de Telecomunicações durante o governo Antônio Britto), diversificou seus negócios para o ramo imobiliário. Kolecza acredita que, por falta de concorrência, a RBS se sentiu dona de tudo e hoje "não há nenhum grande negócio no Estado que seja feito sem a presença do grupo".
O que é preciso entender, concluiu o jornalista, é que a chamada grande mídia não é mais um empreendimento propriamente midiático, possuindo ramificações em outros setores econômicos. “Além disso, essas empresas estão sendo engolidas por megacorporações que nem são da área da mídia. Pedro Parente (ex-chefe da Casa Civil do governo FHC) não veio para a RBS para ser meramente um representante dos credores, mas também para preparar esse processo de engolimento."
Armadilha para o governo Lula
E quem vai enfrentar esse poder? – perguntou um participante do debate. Em sua resposta, Kolecza disse que já houve políticos que tentaram enfrentá-lo, citando o caso de Leonel Brizola. “Foi o primeiro político a dizer que a grande mídia atuava como um partido político, pagando um alto preço por isso”. E apontou como novidade positiva o fato de os movimentos sociais começarem a perceber que o tema da mídia é um nó górdio a ser enfrentado em qualquer tentativa de enfrentar a atual estrutura de poder. “Isso está começando a acontecer aqui no Rio Grande do Sul e creio que vai se expandir para o resto do país”. Por fim, deixou uma advertência ao governo Lula. “Não quero comprar briga com o PT, mas acho que o governo Lula está tentando atrair a grande mídia para o seu projeto de poder, acenando com uma operação de salvação econômica e esperando assim, que ela não pegue no seu pé. Se é isso de fato, vão quebrar a cara muito em breve, pois a grande mídia está aí para manter o pacto de poder do qual ela participa. O governo precisa despertar para essa armadilha”.


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