Identificados os restos de Flávio Molina, encontrados em Perus

05/09/2005 00:00

São Paulo - Foram necessários 15 anos para que os restos mortais de Flávio Carvalho Molina - assassinado pela ditadura militar em sete de novembro de 1971 - pudessem finalmente ser enterrados pelos seus familiares. Resgatada da vala do cemitério de Perus, em 1990, a ossada de Molina, depois de vários testes de DNA - realizados por universidades brasileiras e instituições estrangeiras - foram finalmente identificados pelo Laboratório Genomic de São Paulo. A Procuradoria da República no Estado de São Paulo entregou, sexta-feira (2) à tarde - na presença de familiares do Movimento de Mortos e Desaparecidos - o laudo dessa confirmação ao irmão de Flávio, Gilberto Carvalho Molina.

Molina foi militante das organizações Movimento de Libertação Popular (Molipo) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Segundo a versão oficial, ele teria sido morto em um tiroteio, ao tentar reagir à prisão, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, em 1971.

Segundo o diretor do Genomic, Manoel Benevides, em exatos 20 dias, foi possível extrair o DNA da ossada e compará-lo com as amostras de sangue retiradas da mãe e dos irmãos de Flávio. Emocionado, Gilberto lembrou que Flávio foi preso no dia seis de
novembro de 1971 e assassinado sob tortura no dia seguinte. "Desde essa data, a tortura que matou o meu irmão se prolongou na família até o dia de hoje", afirmou.

A confirmação de que a ossada era a de Flávio ocorreu em uma data simbólica para todos aqueles que lutam para finalmente enterrar os mortos do regime militar. No dia quatro de setembro, completaram-se exatos 15 anos que o esforço dos familiares descobriu que na vala comum do Cemitério Dom Bosco, em Perus, entre as 1049 ossadas encontradas, seis, com certeza, eram de militantes de organizações de esquerda. A maioria deles com os nomes trocados. Apenas três foram identificados até agora.

O motivo da demora foi bem lembrado durante a reunião, pelo Procurador Regional da República Marlon Alberto Weichert - "omissão do Estado, tanto por parte do poder público federal como do estadual". Segundo ele, não adianta a boa intenção dos governos se não houver recursos disponíveis. Tudo o que foi feito até agora deve-se unicamente a méritos individuais. Marlon lembrou que jamais foi colocada na pauta política dos governos a identificação dos mortos pelo regime militar instalado no país entre 1964 e 1985. Além disso, existe o que ele chamou de inversão constitucional, ou seja, o Estado cometeu os crimes, mas o ônus da prova é dos familiares.

Para a Procuradora da República, Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, também responsável pelo processo de Molina, "no Brasil, o direito dos familiares enterrarem seus mortos foi surrupiado". É preciso, segundo ela, que esta triste página da história do país ainda permaneça aberta para que o direito à cidadania possa ser exercido plenamente. "Isso só acontece quando a sociedade conhece toda a sua história".

Suzana Lisboa, representante da Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos, observou que entre as 1049 ossadas encontradas em Perus pode haver mais militantes de esquerda, "mas isso só será esclarecido quando os arquivos do exército e dos órgãos de repressão forem finalmente abertos".

Para os familiares, o reconhecimento da ossada de Flávio Molina é a recuperação da esperança da identificação de todos os mortos e desaparecidos. A luta travada pelos familiares, mesmo com o que hoje pode ser considerada uma vitória - a identificação de Flávio Molina - é uma perda. Ganhar é a possibilidade de enterrar seus mortos e ter certeza das circunstâncias de suas mortes e desaparecimentos. A abertura dos arquivos, ato que só depende da vontade política dos governantes, só vai acabar com uma angustia: a de poder, enfim resgatar a história de cada um que é também a de todos. "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça".

Maiores informações sobre a história de Flávio Molina e sobre a Vala de Perus podem ser encontradas na página Desparecidos Políticos.


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