Levante Popular da Juventude promove “esculacho” no STF

12/04/2012 00:00

Estudantes fazem protesto em frente ao Supremo Tribunal Federal contra a impunidade nos crimes da ditadura militar (José Cruz/ABr)

Créditos da foto: Estudantes fazem protesto em frente ao Supremo Tribunal Federal contra a impunidade nos crimes da ditadura militar (José Cruz/ABr)
Brasília - O Levante Popular da Juventude manteve a ousadia que o notabilizou nos últimos dias e promoveu, nesta quinta (12), um “esculacho” em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF), com a simulação de cenas de tortura em pau-de-arara, prática comum durante a ditadura militar brasileira. Para o movimento, a corte máxima do país é uma das principais responsáveis pela impunidade que cerca os crimes contra os direitos humanos cometidos no período, já que, em 2010, reafirmou a validade da Lei da Anistia, de 1979, que concede perdão incondicional aos militares.

“Nós decidimos fazer aqui a primeira ação do Levante em Brasília porque a Lei da Anistia voltou à pauta do Supremo e pode ser votada a qualquer momento”, explica Heloísa Soares, integrante do movimento, que veio de Montes Claros (MG) para participar do ato. A corte máxima, agora, se prepara para julgar um recurso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que questiona se a anistia vale também para os chamados crimes permanentes, como os de sequestro e desaparecimento.

Membro da coordenação nacional do Levante, Felipe Baunilha acrescenta que o “esculacho” no STF foi a forma encontrada pelo grupo para reafirmar que está firme na luta pela imediata instalação da Comissão da Verdade. “Nós já estamos programando uma semana de mobilizações nacionais, em parceria com associações de familiares das vítimas e entidades de defesa dos direitos humanos. Temos o direito de conhecer a história do nosso país”, justificou.

Outras 15 entidades apoiaram o “esculacho”, incluindo organizações estudantis, partidárias e representantes dos familiares das vítimas. A União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) se uniram ao grupo. A presença de representantes das associações dos familiares das vítimas garantiu uma importante experiência de troca entre gerações. E os representantes partidários se comprometeram a reverberar as reivindicações do grupo.

Mas quem roubou a cena foi Micheas Gomes de Alemida, o Zezinho do Araguaia, um dos poucos sobreviventes da operação militar que aniquilou os combatentes daquele que foi um dos principais focos da resistência armada à ditadura brasileira. “Hoje é uma data muito importante para a história, porque há exatos 40 anos o Exército inicia sua ofensiva contra os guerrilheiros do Araguaia, que durou três anos e custou a vida de centenas de pessoas”, afirmou.

Militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) desde sua rearticulação no país, em 1962, Zezinho participou ativamente de todas as fases da resistência à ditadura. Nunca “caiu”, código usado à época para dizer que alguém foi preso. Chegou fugir do país. Morou na França e, por mais tempo, na China. Mas foi no Araguaia que passou a maior parte dos anos de chumbo, inclusive todo o período da guerrilha. “Vive 33 anos na clandestinidade. Tive mais de 80 identidades diferentes. Nem mesmo no meu casamento pude usar meu nome verdadeiro”, conta ele.

Durante a guerrilha, ele viu companheiros serem sequestrados, torturados e mortos. Assistiu a chacinas de camponeses, estupros de mulheres e abandono de crianças em ilhas. “Como não sabiam quem eram os guerrilheiros, os militares prendiam todos os homens que encontravam no Araguaia. Não sei nem quantos Zezinhos eles executaram com a esperança de que um deles fosse eu”.

O camponês acompanhou as três investidas das forças da repressão contra os guerrilheiros. “Nós éramos cerca de 60 guerrilheiros, mais os camponeses da região que aderiram ao movimento. E o Exército mandou 10 mil homens para a área para nos eliminar. Ainda assim, com poucas armas, a maioria espingardas muito velhas, conseguimos resistir até 1975”, conta.

Segundo ele, a cena mais chocante que presenciou foi o extermínio de cerca de 400 camponeses que, obrigados a entrar em dois aviões da Força Aérea, foram atirados do ar. “Nós vimos, de longe, os militares espremendo todos eles para caberem nos aviões. Vimos também a decolagem e o retorno das aeronaves, de 20 a 30 minutos depois, já vazias”, relembra.

Testemunha ocular de toda sorte de crimes de lesa-humanidade, o eterno militante é defensor aguerrido da Comissão da Verdade. Segundo ele, apesar de muitos a criticarem porque ela não terá poderes de punir os culpados, a comissão é indispensável para garantir a transição do Brasil à democracia. “Por maior que seja a nossa indignação, ela não pode impedir o resgate da história”, justifica.

De acordo com ele, passados tantos anos, ainda não se sabe ao certo o que aconteceu no embate. Apenas os restos mortais de dois guerrilheiros já foram localizados e identificados. Um deles, o da militante Maria Lúcia Petit, com a ajuda dele, em 2001, na identificação dos locais para escavação e acompanhamento direto dos trabalhos.

Emocionado com o ato promovido pelos jovens do Levante, Zezinho disse que o país vive um estado de abertura democrática que só avançará com mobilização social. “A juventude precisa mesmo se mobilizar para darmos mais um passo rumo à democracia. Os três poderes ainda mantém ranços da ditadura, e isso não se resolve com decreto e nem com a vontade de meia dúzia”, afirmou.

Porém, ao final, ele confidenciou que sentiu falta de uma característica muito comum à sua geração: o amor à pátria. “Até mesmo o espírito patriótico do povo brasileiro foi triturado pelo regime militar. Onde já se viu um ato dessa envergadura sem nenhuma bandeira brasileira e sem ninguém cantar o hino nacional?”, observou.

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