Mãos ao alto (e oxalá não te asfixiem)

Outro negro americano morto pela polícia. Outro júri que não livra o policial responsável. Este é o reino da impunidade para quem está do lado do poder.

26/12/2014 00:00

Light Brigading / Flickr

Créditos da foto: Light Brigading / Flickr

Outro negro americano morto às mãos da polícia. Outro grande júri que decide não apresentar queixa contra o polícia responsável: nem por assassinato, nem por homicídio, nem por agressão. Nem sequer por conduta imprudente e temerária. Vivemos num país onde reina a impunidade; pelo menos para quem está do lado do poder.

 

No verão passado, após cobrir os protestos em Ferguson, Missouri, voltei à cidade de Nova York e fui diretamente a Staten Island cobrir a marcha de protesto do assassinato, às mãos de um polícia, de Eric Garner, um negro de 43 anos de idade, pai de seis filhos. O caso foi notavelmente semelhante ao do assassinato de Ferguson, onde o polícia Darren Wilson disparou e matou o adolescente negro desarmado Michael Brown. Ambos os casos envolveram agentes da polícia brancos que aplicaram força letal. Ambas as vítimas eram negros desarmados. Em ambos os casos os promotores locais, com estreitos vínculos aos departamentos de polícia locais, puderam controlar o grande júri. Mas houve algumas diferenças entre os casos. A principal é que o assassinato de Eric Garner foi registado em vídeo.


Se observarmos cuidadosamente o vídeo, no momento em que Daniel Pantaleo, o polícia de Nova York, submete Eric Garner a um estrangulamento ilegal, vê-se Eric Garner levanta as mãos em sinal de rendição, como internacionalmente se entende. Ato sequente, é derrubado por um grupo de polícias e escutamo-lo a dizer várias vezes que não consegue respirar. Di-lo onze vezes antes de deixar de lutar e morrer.

 

De onde veio este vídeo? Um jovem chamado Ramsey Orta encontrava-se perto de Garner nessa tarde de 17 de julho quando chegou a polícia. Orta pegou no telemóvel e filmou tudo. Pantaleo foi apanhado em flagrante e a prova foi exposta a todo o mundo. Apesar disso, o grande júri decidiu não apresentar queixa contra ele. Só duas pessoas foram presas depois da morte de Garner: Ramsey Orta, que filmou o vídeo, e a sua esposa, Chrissie Ortiz. Chrissie declarou a uma estação de televisão local que desde que Ramsey foi identificado como autor do vídeo, ambos foram submetidos a assédio policial. Ramsey foi preso no dia seguinte àquele em que o médico forense da cidade declarou que a morte de Garner tinha sido um homicídio.

 

Pouco depois, Chrissie também foi presa. Vi-os na marcha de Staten Island naquele sábado, parados junto ao lugar onde morreu Garner. Pedi-lhes que comentassem, mas tiveram medo e refugiaram-se na mesma escada onde estava Ramsey enquanto filmava a morte de Garner.

 

Nessa marcha de Staten Island de 23 de agosto, conquanto Ramsey e Chrissie optassem por não falar, muitas outras pessoas o fizeram. Uma delas foi Constance Malcolm, mãe de outro jovem negro morto às mãos da polícia: “O meu nome é Constance Malcolm. Sou a mãe de Ramarley Graham. O [procurador geral] de Staten Island não devia ser responsável deste caso. Não queremos que ocorram as mesmas coisas que no caso de Ramarley. Não podemos permitir que isto aconteça. Precisamos que venham responsáveis federais e se ocupem do caso agora mesmo. É necessário que os culpados sejam responsabilizados”,

 

Também entrevistei Imani Morrias, uma menina de apenas 12 anos de idade: “Precisamos de mostrar à comunidade que estes agentes da polícia devem ser responsabilizados e sentenciados por tudo o que causaram. Já causaram muita dor”.

 

Perto dali, outra jovem negra que só deu o seu nome próprio, Aniya, marchava solenemente. Aniya tem 13 anos de idade. Perguntei-lhe o que desejava conseguir com o protesto: “Viver até aos 18 anos sem que disparem sobre mim. Quero crescer, viver a vida. Não quero morrer em questão de segundos por culpa da polícia”.

 

A notícia sobre a decisão do grande júri no caso de Garner foi difundida em Staten Island ao mesmo tempo que, a centenas de quilómetros de distância, em Cleveland, terminava o funeral de outro negro morto às mãos da polícia. Tamir Encrespe, de 12 anos, estava a agitar uma pistola de brincar num parque público a 22 de novembro quando um polícia de Cleveland chegou num carro patrulha, desceu bruscamente e atirou a matar. O sonho de Aniya de uns meses atrás aparece como um fantasma no funeral de Tamir: “Viver até os 18 anos sem que disparem sobre mim”.

 

Enquanto era divulgado que o polícia Daniel Pantaleo não seria acusado da morte de Eric Garner, o presidente da câmara de Nova York, Bill de Blasio, apoiou os líderes afro-americanos em Staten Island. “Este deve ser um momento de luto nacional, de dor e de busca de soluções. Ouvimos dizer repetidamente a mesma frase básica da parte de pessoas de diversas origens: que as vidas dos negros contam. E disseram-no porque era aquilo que era preciso dizer. É uma frase que não deveria ser necessário pronunciar nunca, deveria ser evidente. Mas, lamentavelmente, a nossa história exige que o digamos. Porque, como disse no outro dia, não é um problema do ano 2014. Não se trata de anos de racismo que conduziram a isto, nem de décadas, mas de séculos de racismo que nos conduziram ao dia de hoje. Essa é a profundidade da crise”. Milhares de pessoas juntaram-se ao longo da cidade de Nova York para repudiar a decisão do grande júri. Juntaram-se em Staten Island, no local do crime, onde Garner morreu, e em Harlem, Times Square e Union Square. Entre os cartazes podia ler-se “Ferguson está em todo o lado”.

 

Os protestos contra a impunidade estão apenas a começar.
 
Artigo publicado em Truthdig em 3 de dezembro de 2014. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Inés Coira para espanhol para Democracy Now. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net



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