Moçambique, estamos aqui

Diante da inércia de autoridades e elite brasileira, tentemos nós espalhar notícias sobre as formas de ajudar no socorro ao país africano que sofre com mortes, feridos, doentes e desabrigados por tempestades e ciclone

23/04/2019 16:12

Crianças numa estrada de Búzi, em Moçambique, danificada pelo ciclone (Divulgação Unicef)

Créditos da foto: Crianças numa estrada de Búzi, em Moçambique, danificada pelo ciclone (Divulgação Unicef)

 

A língua é um dos elos mais significativos entre sociedades.

Mesmo quando territorialmente distantes um dos outros, povos que compartilham o mesmo idioma se tornam próximos.

A interação é natural.

Entendemos com muito mais facilidade, familiaridade e empatia os sentimentos de uma pessoa no Timor Leste, do outro lado do planeta, do que de um vizinho na Bolívia, na Argentina, no Peru, e assim por diante.

Por isso, o sofrimento que Moçambique enfrenta há quase dois meses, depois que o país foi devastado por tempestades e pelo ciclone Idai, parece nos tocar, a nós brasileiros, tão fundo: as palavras que os moçambicanos expressam sua tristeza são as mesmas que exprimem as nossas.

No entanto, em que pese tamanha irmandade, estamos praticamente inertes à tragédia que matou, feriu, adoece, desespera Moçambique. À parte iniciativas de organismos internacionais, como Unicef e Cruz Vermelha; de organizações como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); e de um protocolar envio da Força Nacional para atuar no socorro àquele país africano de fala como a da gente, a sociedade brasileira, em regra, não se mobilizou como se esperava.

Fora uma e outra notícia factual, a tragédia em Moçambique não é retratada no Brasil com a frequência, intensidade e sensibilidade com que deveria ser abordada. Exceção se viu, como sempre, no Profissão Repórter, conduzido por Caco Barcellos, na TV Globo, que iniciou nova temporada no último dia 17 trazendo histórias, in loco, do drama moçambicano. Mas foi apenas com o Profissão Repórter, um mês depois das chuvas e do ciclone, que o acontecimento e suas consequências foram apresentados com o devido realismo (pena que numa quarta-feira à noite, já madrugada de quinta, quando a maior parcela da população está a dormir para trabalhar na manhã seguinte).

Deste governo brasileiro que temos não há de se esperar nada que preste, todavia não podemos naturalizar a estupidez e deixar de apontar o que seria lógico de se ver.

Ademais uma declaração burocrática no sentido de se colocar à disposição de Moçambique para qualquer ajuda, e do envio tardio dos agentes da Força Nacional, o governo brasileiro não esboçou nenhuma atitude digna de uma nação que vê um povo irmão a sofrer as piores dores da existência humana. Nenhum posicionamento no cenário internacional cobrando das potências mundiais atenção aos africanos, nenhuma oferta objetiva, concreta, genuinamente solidária e humanitária.

Não se duvide que essa gente que está no governo brasileiro até dê de ombros – isso de ajudar nações africanas é coisa de petralha, comunista ou o que mais o valha, pensa essa turma.

Não devemos depender dessas lideranças ocas e toscas para agir, muito menos crer que de nossa elite do atraso emergirá gesto nobre, mínimo que seja. Cuidemos nós, mesmo com nossas limitações diante do febeapá, intolerância e truculência hegemônicos, de disseminarmos sementes de solidariedade. Indiquemos as campanhas da Unicef, da Cruz Vermelha, da CNBB, e outras que encontremos; espalhemos as notícias como a da ajuda fornecida por Cuba, entre outras exemplares, e assim tentemos mostrar a Moçambique que estamos aqui.

Wagner de Alcântara Aragão, jornalista e professor. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém a Rede Macuco, veículo de mídia independente (www.redemacuco.com.br)

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