O Brasil e a dívida com os descendentes de escravos e os povos indígenas

 

09/03/2020 15:47

(E. Peres/AP Photo)

Créditos da foto: (E. Peres/AP Photo)

 
O Brasil foi um entre os países que persistiu em conservar o sistema escravocrata, mesmo após a revolução industrial ter resolvido banir tal modelo de economia primitiva.

Ainda com o bloqueio do tráfico escravo a elite aristocrática brasileira continuava juntando fortunas com a venda de vidas humanas importadas da África que nos mercados de mão de obras eram vendidos como se vendem qualquer mercadoria que se compra ou vende, podendo se comparar aos negócios envolvendo bois e porcos que são cotados no mercado financeiro.

Os estigmas da escravidão no Brasil ainda são tão presentes que recentemente ouvimos de certa autoridade do cenário político se referir ao peso dos negros quilombolas, abertamente, de medida de arroba, referência de peso, equivalente a 15kg, para cotar animais vivos para a venda e negócios.

Observa-se então que as doenças psicológicas, neuroses, depressões, traumas[1], sofridas com as formas preconceituosas que eram tratados os escravos ainda estão no inconsciente[2] coletivo da população brasileira, em maioria, descendentes de diversas etnias africanas, indígenas, e também, de uma parcela de europeus que eram descriminados na Europa.

Estes últimos, sofriam preconceitos por não serem plebeus, parcela da baixa classe social europeia, em que muitos foram obrigados a virem como deportados para que não fossem condenados aos suplícios no mundo Europeu. Inclusive pode se juntar a estes grupos muitos cristãos novos, judeus que eram obrigados a se converterem ao cristianismo e virem como deportados para que não fossem condenados à morte naquele contexto. Salientando, que entre todos os repatriados que para cá vieram trazidos, alguns, obrigados, os negros e os índios são os que mais foram e ainda continuam sendo maltratados e humilhados na construção desse país.

“Calculo que o Brasil, no seu fazimento, gastou cerca de 12 milhões de negros, desgastados como a principal força de trabalho de tudo o que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Ao fim do período colonial, constituía uma das maiores massas negras do mundo moderno. Sua abolição, a mais tardia da história, foi a causa principal da queda do Império e da proclamação da República”. (Ribeiro, 2009, p. 203)

Como afirma a referência os motivos do golpe na monarquia em que derrubou o Imperador D. Pedro II, no final do século XIX, foi a imposição dos latifundiários ao Rei para que não perdessem os autos investimentos com os negócios da escravidão, e que a imposição da Inglaterra em acabar com o tráfico, ameaçava os lucros dos traficantes com aquela mercadoria.

“O cenário mudou por volta de 1830, quando o tráfico se tornou ilegal. Os lucros aumentaram de forma substancial e proporcional aos perigos do negócio, uma vez que os navios negreiros estavam expostos à captura pela Marinha Britânica, que patrulhava o Atlântico Sul. Nesse período, o retorno sobre os investimentos por parte dos traficantes mais ousados teria chegado a 300%. Ainda assim, os números variavam muito de acordo com os imprevistos e as circunstâncias de cada viagem”. (Gomes, 2019, p. 243 -244)

Percebe-se que o golpe à monarquia era motivado pelos fazendeiros escravocratas que como conservadores resistiam às ideias do Imperador que se mostrava mais voltado para a industrialização do Brasil rural, e, para tal teria que se esforçar para a abolição, por força do Império britânico, que forçava o fim do sistema de escravidão para que transformassem os escravos em mão de obra assalariadas os tornando em consumidores.

Por tais interesses os fazendeiros pseudo republicanos costuraram uma ideia de república escravagista para que mantivessem os seus conservadorismos e desta forma mudaram o regime de governo no Brasil sem que fizessem o processo de indenização e reforma agrária para que de fato a república fosse possível.

O entrave no processo de democratização no Brasil, é oriundo da falta de reparação, social e econômica, histórica para com os descendentes dos escravos que construíram o país com o seu sangue e que por mais de trezentos e cinquenta anos de escravidão não foram indenizados. Pelo contrário, continuaram em condições análogas a de escravidão, e assim continuam até ao presente.

O Brasil é um, país que como outros se tornou capitalista tardiamente, isto se chama capitalismo tardio. Tal transformação foi feita queimando etapas sem que o processo de inserção dos eis escravos no sistema de industrialização ou de mercado capital fosserealizada. A elite cafeicultora preferiu trazerem os emigrantes europeus para a nova forma de trabalho de que indenizarem os negros e terem empregados como massa trabalhadora assalariada.

O resultado disso foi o abandono e o descarte dessa gente que não restaram outras alternativas senão a de buscarem moradias nas encostas das cidades e a de continuarem como empregados de serviços gerais, salientado, que outros ficaram como agregados nos campos rurais.

Capitalismo não é uma experiência irracional oriunda da necessidade de o ser humano ter de consumir produtos e que para tal seja forçado à troca de escambos, o Capital tem toda uma teoria que fundamenta a sua ideologia.

Os países que saíram na frente do sistema capitalista, passaram por etapas que os tornaram pioneiros, começaram com o acúmulo de metais, atravessaram conflitos dentro de estruturas feudais onde uma nova classe emergiu a burguesia, que se constituíram os empreendedores do conglomerado produtivo, assim foi possível acolherem como mão de obras os antigos servos que viviam como agricultores dentro do universo feudal.

Com esta análise simplificada, pois, o aprofundamento dessa transição fica para os profissionais da área de economia, porém, no Brasil, até hoje os negros não conseguem se inserirem no mercado de trabalho, continuam como desqualificados. O que emperra o processo de desenvolvimento econômico da população que não sai da linha da pobreza, pois, não tem acesso ao consumo o que termina reduzindo o fluxo da economia no mercado, uma vez, que quem mais compram são as pessoas de baixa rendas.

O capitalismo é uma ideologia de sociedade econômica que se constroem por meio do trabalho, diferentemente, da economia feudal ou escravagista em que uma classe já tinha por naturalidade todas as riquezas doadas pela graça divina. Assim sendo, não existiam naquelas economias o conceito de riqueza ou pobreza, a riqueza era um bem de uma classe e ponto final, entre as riquezas estavam os escravos, que também eram bens e propriedade.

Como esse país escravagista se tornou da noite para o dia capitalista? Coletou toda economia produzida por mão de obras escrava e com o patrocínio do próprio Estado que patrocinou o setor da indústria pesada e fez toda infraestrutura para que acelerassem o processo de transição entre o escravismo e o capitalismo. Entretanto, a mão de obra escrava foi descartada nas encostas periféricas das grandes cidades e das grandes fazendas latifundiária desse país.

Observa-se que a classe elitista branca, aristocrática, foi beneficiada com os investimentos do Estado no financiamento do setor produtivo que manteve as suas riquezas intactas. Ao contrário dos escravos que continuaram em condições piores.

“O trabalho é a atividade na qual o homem se humaniza, na qual o homem cria o mundo humano-social e também na qual o homem consegue desvendar a realidade natural. Essa concepção materialista do homem e do trabalho é premissa fundamental para que possamos compreender a nossa realidade. Sem ela, cairemos em uma série de equívocos tomando como fenômenos naturais criações do próprio homem.

Ao nos perguntarmos quem é o homem? Estamos tratando da problemática filosófica da ontologia do homem também conhecida como natureza ou essência humana. Percebemos que o homem, por natureza, não é lobo nem cordeiro, não é mau nem bom, não é egoísta nem solidário, mas um animal que precisa satisfazer suas necessidades, mas que se diferencia dos outros animais pela forma com que faz isso. No trabalho estabelece relações sociais de produção e cria meios de produção que o humanizam, que o torna um ser social. Vimos como o trabalho é a atividade”. (TONI, 2011, p. 16)

Com base no pensamento do texto da referência acima pode se dizer que essa oportunidade de o negro, eis escravo, ter desenvolvido a sua humanidade por meio da dignidade do trabalho ainda lhe é negada no Brasil. Quando se observa os estereótipos das populações de periferias do Brasil se percebe que o maior número dessas pessoas traz características de negros ou mestiços com índios.

 

Concluo dizendo que o Brasil só vai se tonar um país próspero, livre e democrático, quando for realizada uma reparação moral e econômica para com os descendentes das gerações de eis escravos que construíram as riquezas desse país com o seu próprio sangue. Durante muitas décadas exigiam que essa reparação fosse feita para com a África e com o povo negro brasileiro.

Entretanto, o escritor Gomes (2019, p. 141), traz em seu livro de pesquisa a afirmativa de que a própria África estava no consórcio dos negócios escravocratas. Mas que na realidade não se pode entender que toda a África participava desse tipo de negócios, pois, ela é um continente e na época já havia muitos países africanos até mesmo mais à frente da própria Europa em relação aos avanços humanitários. Porém, muitos grupos tiraram proveitos daquela forma de negócios desumanos.

“Em todas as demais regiões, os europeus limitaram-se a ocupar a borda do continente, estabelecendo feitorias, castelos e postos de compra e venda de escravos que os próprios africanos capturavam e conduziam até o litoral para que fossem vendidos”.

Sem esta ação reparadora do Estado brasileiro para com o povo negro, essa população que foi abandonada à mercê da sorte, para que ela ascenda sem que o Estado repare os danos, só sairá da condição de penúria em que se encontra com mais duzentos anos, no mínimo.

Ao longo dos governos mais progressistas nos últimos anos no Brasil houve uma tentativa de o Estado reparar esta dívida, foi democratizado o acesso às universidades por meios das cotas, foram realizadas as campanhas da minha casa minha vida, um projeto que retirou muitas famílias das encostas periféricas e perigosas das cidades, e também, os programas de bolsas estudo e bolsa família, sem esquecer de que o eis Presidente Luís Inácio (Lula), fez um projeto de indenização aos africanos.

Porém, embora eu tenha alguns pontos de vistas que contradiz a obra do autor do livro A Escravidão, (Gomes 2019, p. 23), ele diz: “Entre os governos locais, até pouco tempo antes habituados a conviver com a generosidade do dinheiro farto do BNDES e com outras linhas de financiamentos brasileiras”, se referindo aos investimentos que o citado governo fez para com a África, reconhecendo tal continente como importante na construção histórica e cultural da nação brasileira. Parece que o citado autor critica essa iniciativa do governo passado do PT.

Hoje após o governo de tendências de extrema-direita ter sido eleito os povos descendentes de negros africanos e índios veem sofrendo ataques e redução de garantias sociais, o que tem retroagido os avanços que estavam adiantados em reparações constitucionais dos referidos grupos sociais.

Notas

1.- Em minha infância na cidade interiorana da Bahia, em que eu vivia na década de 1960 a 1980, que prefiro não nomear aqui, era comum se ouvir insultos de grupos de crianças filhos de pessoas mais identificadas com etnias brancas, que quando em revanche perdiam para grupos negros algo, tal como partida de futebol, etc., para com os descendentes de negros se dirigiam ofensivamente cantando paródias tal como, “negro preto do sovaco fedorento arrasta a bunda no cimento para ganhar mil e quinhentos”, analisem que esse tipo de ofensa e “bullying” aconteciam cotidianamente no Brasil, e com ênfase na

Bahia bem recente na década de 1980. Imaginemos os impactos de tais ofensas no inconsciente coletivo que ainda paira na mente de pessoas negras.

 

2.-Incluindo também a essa lista de ofensas as canções de parodias que eram cantadas por crianças em maioria negras que gritavam os palhaços pelas ruas de pequenas cidades em que sempre aos finais de tardes juntavam crianças para acompanha-los nos anúncios dos shows, em que tentavam conquistar a gratuidade no espetáculo, se ouviam as canções acompanhadas com as palmas de mãos com pequenas pedrinhas ou pequenas tábuas catarem respondendo ao coro do palhaço,

“Ô lê bambu filho de negro é urubu” , alguns desses artistas eram analfabetos em maioria cantavam a letra erradamente, fazendo a tradução do próprio português, “Ô lê bambu fie de nego é arubu”. Isto sem falar dos “bullying” e preconceitos que o povo do Nordeste e do Norte ainda sofrem cotidianamente no Sul e Sudeste desse país. A citação é de minha própria experiência ouvida e sofrida na época de minha infância, pois, sou negro assumidamente sem qualquer vergonha de minha etnia.


Referências

GOMES; Laurentino. Escravidão. Vol. 1 Rio de Janeiro, Livros Globo; 2019.

RIBEIRO; Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo; Campanha de Bolso, 2009.

TONIN; Vitor Hugo. A IDEOLOGIA TARDIA DA BURGUESIA BRASILEIRA: CRÍTICA A “O CAPITALISMO.UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, 2011.

Antonio Martins Soares Santana tem licenciatura em História pela Universidade Leonardo Da Vince SC, Licenciatura em Música pela UEFS-BA, e é Pr. Evangélico pela Comunidade Cristã em Feira de Santana BA. É integrante da Rede Internacional de Cátedras, Instituições e Personalidades sobre o Estudo da Dívida Pública (RICDP – www.ricdp.org)








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