O compromisso com um jornalismo feminista e dissidente

As trabalhadoras do meio digital chileno El Desconcierto declaram os princípios e razões que sustentam sua decisão de apoiar a greve feminista deste 8 de março

10/03/2019 17:22

 

 
Como mulheres feministas, nos interessa salientar a necessidade de que os meios de comunicação promovam as condições básicas de trabalho às jornalistas, acabando com a precariedade que afeta toda a profissão e especialmente as mulheres, devido às condições de desigualdade existentes no Chile.

Neste sentido, nos parece fundamental que os meios façam parte da luta contra a violência machista, começando com a concretização das mudanças necessárias para resguardar os direitos trabalhistas das mulheres jornalistas, e garantindo sua presença nas salas de redação, em espaços de direção e em chefias editoriais.

Graças ao papel que as jornalistas cumprem na sociedade, pensamos que é fundamental que paralisemos nossas atividades e apoiemos a greve feminista deste 8 de março, evidenciando que sem as mulheres não há jornalismo e que somos parte ativa da construção de uma sociedade disposta a combater as diversas expressões de violência que nos afetam em nosso dia a dia.

Nosso rol como jornalistas mulheres nos obriga a dar uma cobertura rigorosa e respeitosa dos feminicídios e casos de violência contra as mulheres, pelo fato de sê-lo. A violência de gênero não pode ser invisibilizada nos meios e a ética jornalística feminista deve se sobrepor aos interesses mórbidos e marqueteiros da imprensa hegemônica. Ainda é comum a normalização de conceitos de “ideologia de gênero”, dando voz a líderes religiosos e, no caso da violência de gênero, justificando os agressores, inclusive quando se trata de casos encerrados judicialmente.

Tudo isso se combate com um jornalismo que tenha perspectiva de gênero, inclusivo e não vitimizante, que contribua com a criação de uma sociedade que tenha um olhar sobre as violências de gênero de forma respeitosa e comprometida, capaz de gerar uma consciência social sobre este tema.

É preciso erradicar o sexismo presente nas agendas que controlam os meios de comunicação, combater a sub representação: normalmente, os homens têm seu nome com mais destaque nos créditos das matérias e colunas, invisibilizam as mulheres na produção de conteúdo e nos diferentes espaços de influência e reproduzem estereótipos de gênero.

Não é possível que a cobertura que se faça dos diferentes temas siga considerando somente fontes masculinas, muitas vezes pela comodidade de não indagar e abrir o espectro de vozes que estão dialogando sobre os temas de interesse público.

Urgimos uma profissão que não se transforme em um lugar cômodo, no qual se reproduzem estereótipos de gênero e de classe, sem dimensionar que com isso se mantém a desigualdade e o sistema hegemônico patriarcal.

É importante que os meios de comunicação fortaleçam as figuras femininas como fontes e referentes. Lamentavelmente, toda a história da humanidade é regida sob as formas masculinas de contar os fatos, omitindo a presença e relevância das mulheres nos processos sociais e históricos, o que só faz fomentar a invisibilização do trabalho das mulheres e desencadeia múltiplos fatores que promovem a precarização das nossas vidas, ao nos posicionar em um lugar secundário.

Todas as mulheres temos o direito de ser escutadas com respeito, porque tudo o que temos para dizer é importante. Apostamos em uma mudança profunda e necessária na sociedade, em nome das meninas e mulheres que já não estão mais conosco, porque foram vítimas da violência machista, por nós, as que habitamos este presente que desejamos transformar, e pelas mulheres do futuro, para que nenhuma nunca mais deva viver com medo.

O El Desconcierto renova seu compromisso com a exposição da violência de gênero, incluindo a que sofrem mulheres trans e lésbicas, e com seguir denunciando a pior cara do patriarcado: até o dia de ontem, o Chile já contabiliza 12 feminicídios este ano. Por tudo isso, seguiremos trabalhando com prontidão e à altura do desafio que temos pela frente hoje.

Acreditamos que outro jornalismo é possível.

*Publicado originalmente em El Desconcierto | Tradução de Victor Farinelli

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