O desafio dos refugiados para encontrar trabalho no Brasil

A lenta burocracia para validar diplomas e a ausência de documentos de identidade para muitas pessoas que tiveram que abandonar rapidamente seus países de origem são os maiores problemas observados atualmente

14/05/2019 10:15

Manifestação de imigrantes e refugiados por direitos iguais em São Paulo, em 2 de dezembro de 2018 (Nacho Doce/Reuters)

Créditos da foto: Manifestação de imigrantes e refugiados por direitos iguais em São Paulo, em 2 de dezembro de 2018 (Nacho Doce/Reuters)

 
“O Brasil é conhecido pelos congoleses pelo futebol, era um destino popular. Saímos do nosso país escondidos, mas tínhamos esperança, chegar aqui nos permitiu voltar a respirar”, explica Lucia Mbuya Zelesa, que migrou da República Democrática do Congo para Brasil aos 17 anos, junto com a sua família, por causa das ameaças que sofriam, pelas quais eram obrigados a viver com a escolta de vários militares em casa, dos que a própria Mbuya desconfiava quando ficava sozinha em casa. “Meu pai nos disse que não tínhamos que levar nada, que encontraríamos coisas melhores no Brasil, mas não foi assim”, relata esta congolesa, filha de um antigo funcionário público que começou a ser perseguido após o início da atual crise política e humanitária. O país africano sofre as consequências do autoritarismo do presidente Joseph Kabila, das ofensivas de mais de 40 grupos armados, da falta de liberdade de expressão, da epidemia de cólera, da inflação galopante e dos altos níveis de pobreza, entre outros elementos denunciados pela Anistia Internacional.

Em 2015, o gigante latino-americano abriu suas portas a Mbuya, seus padres e suas seis irmãs e irmãos, após a família ver seu pedido de asilo ser rejeitado por França e Bélgica, países onde tinham mais esperança devido ao idioma em comum. A jovem conta que a receptividade do Brasil foi percebida como um milagre para a sua família de nove membros, que preferia não ter que se separar para encontrar refúgio. “O mais difícil foi o idioma, no começo, nós íamos a todos os lugares levando um dicionário, mas a minha adaptação e dos meus irmãos foi mais fácil, graças à escola e à abertura dos brasileiros”, declara Mbuya, e completa dizendo que a maior dificuldade foi a de seus pais, que até hoje não conseguiram encontrar empregos.

“Eles estão fazendo todo o possível, mas é difícil. Em geral, os brasileiros pensam que se uma pessoa não estudou aqui pode provocar problemas de compreensão no trabalho, mas a bagagem intelectual e a experiência de vida que pessoas como os meus pais têm pode ser mais uma ajuda que um obstáculo”. Mbuya acredita que chegar a um país novo é um grande desafio, que consiste, entre outras coisas, na adaptação a um território estranho. Ela admite que se sente pena quando conhece pessoas que acham que um refugiado pode ser uma ameaça, “gostaria que os políticos criassem trabalho para todos, brasileiros e refugiados”, expressa ela, e explica, com tristeza, as dificuldades que sua família tem enfrentado nestes quatro anos para reconstruir sua situação econômica. “Muitas pessoas fazem grandes coisas em seus países, mas como aqui elas são estrangeiras, só conseguem emprego em trabalhos piores”, considera.

Há 10.145 pessoas refugiadas no Brasil, segundo os últimos dados oficiais (de 2017), do informe “Refúgio em Números”, do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). Somente a metade delas possui um registro formal no país, e 52% estão concentrados na grande metrópole de São Paulo. As últimas recontagens também mostram que dos quase 34 mil novos pedidos de asilo, mais a metade são de venezuelanos, seguidos por pessoas procedentes de Cuba, Haiti e Angola, cifras que aumentaram consideravelmente nos últimos dois anos, segundo as estimações da instituição que trabalha na atualização de suas estatísticas oficiais.

Mbuya cursou seu último ano de ensino médio em uma escola da periferia de São Paulo, aprendeu o português e entrou em uma universidade privada, onde fez faculdade de Recursos Humanos e uma pós-graduação em Psicologia. “Entrar na universidade grátis é algo muito difícil para os estrangeiros, por isso eu queria trabalhar, fiz todo o possível durante dois anos, até que a Cáritas me ofereceu a oportunidade de participar em um programa para mulheres refugiadas”, explica ela. O programa se chama “Empoderando Refugiadas” e foi criado em 2015 pela agência ONU Mulheres, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e a rede brasileira do Pacto Global da ONU, tendo como objetivo auxiliar as mulheres para a sua entrada no mercado de trabalho brasileiro. “Graças a este programa, eu aprendi a compreender como funcionam as coisas no Brasil, e encontrei o primeiro trabalho da minha vida”.

Lucia Mbuya Zelesa, refugiada congolesa

Contratada como caixa em uma loja de utensílios domésticos, Mbuya conseguiu financiar seus estudos, e ficou orgulhosa porque o gerente aceitou colocá-la em um posto de atenção ao público, além de confiar a ela a gestão do dinheiro da caixa, o que a fez se sentir mais aceita no país, como ela relata. Algumas de suas irmãs também conseguiram emprego graças a essa iniciativa, e muitas delas puderam, depois, crescer e conseguir trabalhos mais ligados aos seus estudos. Mbuya, que hoje trabalha na administração da ONG Grupo Mulheres do Brasil, afirma que não descarta a possibilidade de voltar à República Democrática do Congo no futuro, mas que, no momento, seu objetivo é continuar crescendo neste país que considera sua segunda casa, apesar de certos preconceitos que os estrangeiros sofrem às vezes. “Tenho muitos sonhos, gostaria de contribuir com grandes coisas para o Brasil”, declara esta congolesa, orgulhosa do seu próprio esforço.

“Empresas com Refugiados”, um novo programa para sensibilizar o setor privado

Após o sucesso do programa “Empoderando Refugiadas”, cuja terceira edição foi concluída neste ano, a sede da ACNUR em São Paulo decidiu lançar, junto com o Pacto Global da ONU, um programa mais amplo destinado ao setor privado. Batizado como “Empresas com Refugiados”, o novo projeto consiste em uma plataforma para valorizar as experiências positivas do setor empresarial, promover novas iniciativas e informar sobre a contratação de pessoas com estatuto de refugiadas no Brasil. “Era necessário sensibilizar a sociedade sobre as dificuldades que os refugiados têm para encontrar trabalho e resolver as dúvidas das empresas, que muitas vezes não sabem como atuar para ajudar”, explica Camila Sombra, associada ao departamento de soluções sustentáveis da ACNUR e membro da equipe técnica criadora desta iniciativa.

Inaugurada no recente dia 3 de abril, a plataforma digital do programa (https://www.empresascomrefugiados.com.br/) já apresenta vários manuais informativos, uma seção de perguntas frequentes e seu produto mais importante: um banco de dados com boas práticas e experiências desenvolvidas por diferentes empresas. A equipe técnica da plataforma, que deve revisar as propostas antes de difundir qualquer iniciativa empresarial, destaca em um comunicado que os casos que já estão publicados na página web beneficiaram cerca de 1,5 mil refugiados, seja com a contratação direta, com estímulo para empreender ou com programas de educação. Entre as experiências que compõem este banco de práticas figuram a start-up WeWork, cujo compromisso é o de contratar 1,5 mil pessoas refugiadas até 2023, a Mapfre, com suas diversas campanhas de capacitação e a marca de eletrodomésticos Cônsul, que realiza um programa social para ajudar na formalização de um estatuto de autônomas para as refugiadas que trabalham de forma independente.

Protesto de migrantes e refugiados pela iguadade de direitos em São Paulo - 02/12/2018 (Nacho Doce/Reuters)

“O objetivo é aplaudir os projetos que o setor privado vem realizando para aumentar o compromisso de mais empresas”, afirma Sombra. A iniciativa já recebeu vários contatos através de sua caixa de correio, desde escolas de idiomas até escritórios de advocacia. “O setor privado começa a perceber o grande potencial em contratar estas pessoas, que têm conhecimentos de idiomas e experiências de vida diferentes. Isso contribui para criar um ambiente de trabalho diverso, que gera melhores resultados empresariais”, explica a colaboradora da ACNUR, que ressalta que as pessoas refugiadas costumam permanecer mais tempo em seus postos de trabalho, segundo as observações da instituição. Visto que, até agora, as pequenas e médias empresas são as que se mostram mais abertas a oferecer trabalho a pessoas refugiadas, principalmente nos setores de hotelaria, alimentação e comércio, o programa “Empresas com Refugiados” pretende realizar mais esforços para sensibilizar as grandes companhias, para que também abram as suas portas.

De acordo com a equipe que coordena este programa, as pessoas com experiência prévia em trabalhos mais técnicos, como a construção civil ou a hotelaria, encontram trabalho com mais facilidade que aqueles com formação superior. “O Brasil possui um número reduzido de migrantes com relação à população, por isso, ainda são muitos os que empregadores que têm dificuldade para entender que uma pessoa estrangeira pode ter uma ampla experiência, mesmo que tenha uma carteira de trabalho vazia”, explica Sombra, com relação ao documento que existe no Brasil, onde se registram todos os empregos formais pelos quais cada trabalhadora ou trabalhador passou. A lenta burocracia para validar diplomas e a ausência de documentos de identidade para muitas pessoas que tiveram que abandonar rapidamente os seus países de origem são os maiores problemas observados atualmente, com respeito à integração das pessoas refugiadas no país.

Certa vez, um empregador mostrou seu interesse em abrir algumas vagas, e a equipe do programa “Empresas com Refugiados” os colocou em contato com os portais colaboradores onde as mesmas são publicadas, ou difundidas através de outras associações, para que os refugiados que buscam emprego possam se candidatar. A participação do maior número de setores possível é essencial para que este projeto funcione, segundo explica Sombra, que considera as iniciativas deste tipo como cruciais para que as pessoas que vêm de fora sintam que têm uma oportunidade de recomeçar suas vidas no Brasil.

“Conseguir um trabalho é um fator importantíssimo para a imersão em um novo país. Além de ser uma fonte de renda necessária, representa uma oportunidade de convivência com as pessoas e com a cultura local”, relata esta funcionária da ACNUR e porta-voz do programa. “A autoestima da pessoa aumenta de forma impressionante quando consegue um emprego. Apesar de ter abandonado o seu país, a refugiada ou o refugiado deseja sentir que continua contribuindo com a sociedade, mesmo que seja em outro lugar”, acrescenta Sombra, orgulhosa dos excelentes – embora incipientes – resultados deste tipo de iniciativa.

*Publicado originalmente em RT News | Tradução de Victor Farinelli

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