Onde está meu relatório final do processo de Assange?

 

13/10/2020 16:08

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Créditos da foto: (EPA-EFE)

 
Muitas pessoas me contataram de várias maneiras para perguntar onde está o relatório que prometi do último dia de audiências do processo de extradição de Assange, para completar o relato.

É difícil explicar isso para vocês. Quando estive em Londres foi extremamente intenso. Essa era minha rotina diária. Eu ia ao tribunal às 10h, faria de 25 a 30 páginas de anotações manuscritas e sairia por volta das 5. No tribunal, eu estava o tempo todo com o pai de Julian, John, e geralmente no almoço também. Depois das audiências, eu agradecia aos apoiadores, do lado de fora do tribunal, ocasionalmente fazia alguma declaração para a mídia e frequentemente me encontrava com a equipe do Wikileaks para discutir os desenvolvimentos e as táticas. Eu então voltava para o meu quarto de hotel, comia alguma coisa e ia para a cama por volta das 18h30 às 19h. Eu acordava entre 23h e meia-noite, tomava banho e fazia a barba, lia minhas anotações e fazia qualquer pesquisa necessária. Por volta das 3 da manhã, eu começava a escrever. Terminava de escrever por volta das 8h30 e revisava. Então eu ia me vestir. Por volta das 9h30, eu fazia as últimas alterações e publicava. Depois, caminhava até Old Bailey e começava de novo.

Além de ser exaustivo, fiquei totalmente imerso em uma bolha, e estimulado pelo apoio de outras pessoas próximas a Julian, que também estavam dentro dessa bolha.

Mas naquele tribunal, estava-se na presença do mal. Com um verniz civilizado, uma farsa em processo e até exibições de bonomia, estava em andamento a completa destruição de um ser humano estava. Julian estava sendo destruído como pessoa diante dos meus olhos. Pelo crime de publicar a verdade. Ele teve que ficar sentado lá ouvindo dias de discussão calma sobre a incrível tortura que o aguarda em uma prisão supermax dos EUA, privado de todo contato humano significativo por anos a fio, numa solitária em uma cela de apenas 4,6 metros quadrados.

Cinquenta pés quadrados. Meça você mesmo agora. Três passos por dois. De todas as coisas terríveis que ouvi, a diretora de presídio Baird explicando que a única hora por dia permitida fora da cela é sozinho em outra cela absolutamente idêntica chamada de “cela de recreação”, foi talvez a mais assustadora. Isso e o asqueroso “especialista” do governo, Dr. Blackwood, descrevendo como Julian possivelmente estaria suficientemente medicado e fisicamente privado dos meios de suicídio para mantê-lo vivo durante anos disso.

Eu encontrei o mal no Uzbequistão quando uma mãe me trouxe as fotos de seu filho torturado até a morte por imersão em um líquido fervente. O governo dos Estados Unidos também esteve envolvido nisso, por meio da cooperação da CIA com os Serviços de Segurança do Uzbequistão; isso aconteceu perto da base militar dos EUA em Karshi-Khanabad. Aqui estava aquele mesmo mal exposto no centro de Londres, sob a panóplia da justiça da Coroa.

Tendo deixado a bolha, minha coragem continua me faltando para voltar ao mal e escrever o último dia. Eu sei que isso soa patético ou presunçoso. Eu sei que os jornalistas tradicionais que se deleitam em me retratar como mentalmente instável terão prazer em fazer zombarias. Mas nos últimos dias não consigo nem olhar para minhas anotações. Eu me sinto fisicamente doente quando tento. Claro que vou completar a série, mas talvez precise de um pouco de tempo.

*Publicado originalmente no blog do autor | Tradução de César Locatelli

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