Os corpos (in)desejáveis: reflexões sobre o 8 de março

 

08/03/2021 08:52

Olga Bast (unsplash.com/@olgabast)

Créditos da foto: Olga Bast (unsplash.com/@olgabast)

 
Presente nas principais obras da tradição judaica, a exemplo de As Lendas do Povo Judeu, publicada em 1980, por Bin Gorion (1865-1921), a primeira companheira de Adão chamava-se Lilith. Criada por Deus à noite, ela foi apresentada a Adão, que se assustou com sua autonomia: Lilith reivindicou a igualdade de direitos, sobretudo, sexuais. Ela não desejava ficar por baixo durante o ato sexual – a popular posição do missionário – o que irritou Adão. O desentendimento cresceu a tal ponto que Lilith, ao ver que não seria atendida em suas reivindicações, transpôs as normas, proferiu o tetragrama sagrado – YHWH – ganhou asas e deixou o Paraíso, rumando para o Mar Vermelho. Nesse trecho, a narrativa judaica demoniza Lilith, afirmando que ela ganhou autoridade sobre seu próprio corpo, mas, para isso, se tornou um fascinante demônio feminino que penetra nos sonhos dos homens, lhes sugando a energia sexual.

O mito de Lilith nos mostra que, desde muito tempo atrás, as mulheres nunca desejaram uma posição passiva, de serem amadas. Antes, ele demonstra que a liberdade lhes foi tirada pelas imposições culturais que tem o claro objetivo de satisfazer a nós, os machos humanos. Para buscar soberania sobre si mesma, a mulher é obrigada a se transformar em demônio ou agir como Eva, enganando o primeiro homem, Adão, o qual, do alto da sua ingenuidade, não avaliou como certo ou errado comer do fruto proibido. Quanta pureza e falta de malícia, nós, homens, sempre tivemos, e como as mulheres são seres sutis e perversos...

Outro aspecto relevante trazido pelo mito lilitiano é a luta primordial das mulheres para acessar direitos sobre o próprio corpo. Não obstante, nem sempre a sociedade reprimiu as mulheres: segundo a psicanalista Regina Navarro Lins (1948-), em seu clássico A cama na varanda: arejando nossas idéias a respeito de amor e sexo, publicado em 1997, durante a Pré-História, as mulheres eram consideradas sagradas e um caminho para acessar o Divino. Foram elas que inventaram a agricultura, uma atividade já solidificada desde 6500 a.C., o que conferia à mulher um papel de protagonismo, sendo a sua fecundidade associada à fertilidade das plantações. Neste período, segundo Lins, as sociedades eram matriarcais e matrilineares e os homens não se sentiam acima das mulheres; eles as veneravam como símbolo maior da natureza e da espiritualidade; em festividades religiosas, o Sagrado Feminino era cultuado a partir de uniões sexuais em cerimônias nas quais as mulheres eram santificadas.

A iniciação destas mulheres ocorria no interior dos templos. Um homem estrangeiro, considerado como representante divino, adentrava àquele espaço sagrado e lançava moedas sobre a mulher. A quantia era uma oferta à deusa da fertilidade e do amor e revertida para o templo, o que indicava honraria e veneração por aquele local e pela sua autoridade máxima, a mulher, que, após o sexo, retornava para casa, sentindo-se honrada por ter sido ungida para aquele caminho sacrossanto. Dali por diante, a serva da Deusa poderia se tornar uma sacerdotisa xamânica, conduzindo ritos de sexo coletivo, envolvendo o corpo social da sua comunidade, celebrando a comunhão entre sexo, espiritualidade e existência.

Não obstante, A cama na varanda nos mostra que o ego feminino começa a ser descentrado a partir de 3000 a.C.: povos guerreiros da Antiga Mesopotâmia e do Antigo Oriente conquistaram as populações que viviam sob a égide do matriarcado, impondo normas patriarcais nos territórios consagrados à Deusa. As mulheres passaram a ser tratadas com desigualdade em relação aos homens: a elas foi imposta a adoração de deuses do sexo masculino; sua autonomia sexual, antes divina, passou a ser restringida, para que os homens se sentissem seguros quanto a paternidade. O poder, outrora feminino, foi violentamente arrancado, emanando a partir de então, da figura masculina, o pater familias. Ao longo do tempo histórico, o matriarcado praticamente desapareceu, a mulher foi ficando cada vez mais restrita ao lar e aos afazeres domésticos. Nem mesmo a Revolução Francesa viabilizou às mulheres direitos totais sobre seus próprios corpos. Pelo contrário, aproximou a mulher da obrigatoriedade do papel materno.

Mesmo após três ondas feministas e em plena vigência da quarta onda, continuamos a assistir à imposição da subalternidade e da violência contra as mulheres: um estudo conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 2012 e 2018, demonstrou que em todas as ocupações, as mulheres recebem salários, em média, 20,5% menores em relação aos homens. A rede de negócios LinkedIn, por sua vez, aponta para as mulheres obesas ganhando salários menores que homens obesos e tendo menos chances de ser contratadas por conta da sua aparência. Nessa estrutura patriarcal, assistimos a cultura do estupro e o aumento do feminicídio: o Brasil tem um estupro a cada 8 minutos, conforme o Anuário de Segurança Pública de 2020 e aumento de 1,9% no contingente de assassinatos contra mulheres por motivação de gênero em relação ao ano anterior. Segundo o mesmo Anuário, entre as vítimas, a maioria é branca, 54,9%, já as pretas e pardas somam 44,6% e amarelas e indígenas totalizam 0,5%. Aqui, não podemos deixar de lado as subnotificações, a vergonha e as ameaças que as famílias das vítimas certamente enfrentam quando tomam a decisão de denunciar o agressor.

Até aqui falamos apenas das mulheres cisgêneras. Em relação às travestis e mulheres transexuais, os dados são ainda mais preocupantes: de acordo com o Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2020, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), o Brasil ocupa, há 13 anos consecutivos, o 1º lugar entre os países em que mais se mata essa população. Se por um lado, mulheres cisgêneras acessam, ainda que sob condições desiguais, o mercado formal de trabalho, 90% das travestis e mulheres transexuais atuam como profissionais do sexo – as negras são maioria nesse campo profissional –, haja vista não terem outra escolha, já que sua identidade de gênero é percebida como uma aberração pela sociedade cis. Sua expectativa de vida é de 35 anos e em termos de escolaridade, 72% não possuem Ensino Médio e 56% sequer completaram o Ensino Fundamental. Apenas 0,02% se encontra na universidade.

Paradoxalmente, a sociedade cisgênera encara os corpos das mulheres como (in)desejáveis. Há uma intensa pressão estética sobre as mulheres, quer sejam cis, trans ou travestis, ainda que em graus distintos. O patriarcado lança mão de diversos discursos e práticas violentas para moldar o corpo das mulheres aos seus caprichos: corpos obesos não são aceitos como sensuais e são expurgados do conceito de beleza, lhes restando a fetichização. Travestis e mulheres transexuais embora não tendo o reconhecimento da sua mulheridade, também são alvo de fetiche. Em uma perspectiva psicanalítica, esse paradoxo opera na estrutura da perversão, o que pode levar as mulheres a um descentramento do próprio ego, levando-as a diversos transtornos mentais, a exemplo de ansiedade e depressão. Como resultado prático dessa opressão milenar, entre as mulheres cis, segundo o Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, os índices de suicídio aumentaram 50% e 16 travestis e mulheres transexuais se suicidaram em 2020, uma alta em relação ao ano anterior, 10, conforme a ANTRA e o IBTE registraram.

Obviamente, não se pretende hierarquizar a violência sofrida por mulheres cis, trans ou travestis. Entretanto, percebe-se que as mulheres cis, a partir de lutas árduas, são, por exemplo, monitoradas em relação ao suicídio por órgãos do Governo Federal, algo que não ocorre com as travestis e mulheres transexuais, as quais sequer são consideradas mulheres. Na verdade, não são consideradas vidas. Nesse ponto, as lutas de mulheres cis, trans e travestis podem se entrecruzar, haja vista cada grupo ser atingido como corpo (in)desejado, como uma não-vida, seja por aspectos raciais, étnicos, identitários, de (sobre)peso, de necessidades especiais para locomoção, de idade, entre tantos outros fatores presentes em uma sociedade machista, misógina e capacitista, a qual escanteia corpos que não se enquadram na beleza branca, magra e cisnormativa, em um processo pandêmico sem precedentes.

Toda essa atmosfera descrita, maximizou seu efeito nefasto com a pandemia da Covid-19 e especialmente com o negacionismo do presidente brasileiro, contrário aos padrões estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde no combate ao coronavírus. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o aumento da violência contra as mulheres durante a pandemia é mundial.

Os números trazidos aqui indicam a organização do aparelho psíquico das mulheres sofrendo intensos desgastes, o que pode abrir caminho para o descrédito de uma vida plena e abundante, incluindo as relações amorosas. Mulheres entristecidas com uma sociedade que sistematicamente lhes tira a paz, tornando sua vida ainda mais estressante na maior pandemia do século atual. Mulheres revoltadas com as suas condições de trabalho, se possuem trabalho. Mulheres vítimas de nós, homens, educados desde cedo para oprimir e matar. Mulheres impossibilitadas de ressignificar o ódio, afeto importante para a constituição do sujeito, porém, se não reelaborado, exponencial condutor do adoecimento psíquico.

As 130 tecelãs mortas – após serem trancadas e queimadas em uma fábrica de Nova Iorque em 8 de março de 1857 – continuam em greve, porque as fábricas e demais postos de trabalho da atualidade continuam a oprimir suas manas e lhes negar dignidade e cidadania plena. Na verdade, elas não morreram. Seus ideais continuam vivos nas mentes de quem, independente de gênero, traz consigo a luz de um sorriso ante o obscurantismo no qual o planeta se encontra.

Sejam cis, trans ou travestis, as mulheres seguem segurando a tocha de Semíramis... mas, essa é uma outra história!

Armando Januário dos Santos é mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB e Graduado em Letras com Inglês pela mesma instituição. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. Instagram: @januario.psicologo



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