Os interrogatórios de Assange - Dia 14

 

25/09/2020 15:06

(Henry Nicholls/Reuters)

Créditos da foto: (Henry Nicholls/Reuters)

 
Segunda-feira (21) foi um dia frustrante, na medida em que as audiências do processo de extradição de Assange rumaram para o fundão de para uma terra da fantasia onde ninguém sabe ou pode dizer que pessoas foram torturadas na Baía de Guantánamo e sob extradições ilegais.

A vontade da juíza Baraitser, de aceitar linhas limitantes norte-americanas para o que as testemunhas podem ou não dizer, combinou-se com um desejo conjunto, e abertamente declarado pela juíza e pela acusação, de encerrar este caso rapidamente limitando o número de testemunhas, o tempo de suas provas e o tempo permitido para as alegações finais.

Pela primeira vez, sou abertamente crítico da equipe jurídica da defesa que parece estar deixando passar o momento de parar de ser conduzida e dizer não, isso é errado, forçando a juíza a tomar decisões contra a defesa. Em vez disso, a maior parte do dia foi perdida em negociações entre acusação e defesa sobre quais provas de defesa poderiam ser editadas ou omitidas.

Volto a esse ponto mais à frente.

Professor Christian Grothoff

A primeira testemunha foi o professor Christian Grothoff, cientista da computação do Instituto de Ciências Aplicadas da Universidade de Berna. O Prof. Grothoff havia preparado uma análise de como e quando os telegramas não editados vieram a ser lançados pela primeira vez na internet.

Mark Summers QC, pela defesa, conduziu seus depoimentos. O professor Grothoff testemunhou que o Wikileaks tinha compartilhado o cache de telegramas com David Leigh do Guardian. Isso tinha sido feito de forma criptografada e chave da criptografia era muito forte. De modo que, sem a senha longa e forte não haveria como acessá-la. Os arquivos eram inúteis sem a chave.

Em resposta às perguntas de Summers, o Grothoff confirmou que era prática comum que as informações fossem compartilhadas por um cache online com criptografia forte. Era um padrão, e de forma alguma era uma prática irresponsável. Registros bancários ou médicos podem ser comunicados com segurança desta forma. Uma vez que o arquivo é criptografado, ele não pode ser lido sem a chave, e nem a chave pode ser alterada. Novas cópias podem, naturalmente, ser feitas a partir do original não criptografado com chaves diferentes.

Summers então conduziu o Prof Grothoff até novembro de 2010, quando os cabos começaram a ser publicados, inicialmente por parceiros do consórcio de mídia após a edição. Grothoff disse que o evento seguinte foi um ataque de Negação Distribuída de Serviço (DDOS) no site do Wikileaks. Ele explicou como funciona um ataque DDOS, sequestrando vários computadores para sobrecarregar de demandas o site alvo. A reação do Wikileaks foi encorajar as pessoas a colocar espelhos para manter a disponibilidade de conteúdo. Ele explicou que esta foi uma resposta bastante normal para um ataque de DDOS.

Grothoff fez uma grande lista de espelhos criados em todo o mundo como resultado. Wikileaks tinha publicado instruções sobre como configurar um espelho. Os espelhos configurados usando estas instruções não continham uma cópia do cache de mensagens não editadas. Mas, em algum momento, alguns espelhos começaram a conter o arquivo com mensagens não editadas. Estes pareciam ser poucos sites especiais com espelhos criados de outras maneiras diferentes das instruções do Wikileaks. Houve alguma discussão entre Grothoff e Summers sobre como o arquivo armazenado em cache pode ter sido escondido em um arquivo no site do Wikileaks, por exemplo, não listado no diretório, e como um espelho criado poderia varrê-lo.

Summers então perguntou a Grothoff se David Leigh liberou a senha. Grothoff respondeu que sim, Luke Harding e David Leigh haviam revelado a chave de criptografia em seu livro sobre Wikileaks publicado em fevereiro de 2011. Eles tinham usado como um título de capítulo, e o texto explicitamente definia o que era. As cópias do arquivo criptografado em alguns espelhos eram inúteis até David Leigh postar essa chave.

Summers: Então, uma vez que David Leigh divulgou a senha de criptografia, o Wikileaks tinha poder para derrubar os espelhos?

Grothoff: Não.

Summers: Eles poderiam mudar a senha de criptografia nessas cópias?

Grothoff: Não.

Summers: Havia alguma coisa que eles pudessem fazer?

Grothoff: Nada além de distrair e atrasar.

Grothoff continuou explicando que em 25 de agosto de 2011 a revista Der Freitag havia publicado a história explicando o que tinha acontecido. Ela não deu a senha ou localização do cache, mas deixou claro para as pessoas que poderia ser feito, especialmente para aqueles que já haviam identificado a chave ou uma cópia do arquivo. O próximo link na cadeia de eventos foi que nigelparry.com publicou um artigo no blog que identificava a localização de uma cópia do arquivo criptografado. Com a senha no livro de David Leigh, o material estava efetivamente aberto. Isso resultou, em poucas horas, na criação de torrents [um protocolo que permite baixar arquivos e, simultaneamente, servir como fonte para que outros usuários baixem], em seguida, publicação do arquivo completo, não criptografado e não editado no site Cryptome.org.

Summers perguntou se Cryptome era um site menor. Grothoff respondeu que de forma alguma, era uma plataforma há muito estabelecida para material vazado ou confidencial e era especialmente usada por jornalistas.

Nesta fase, a juíza Baraitser deu a Mark Summers um aviso de que tinha apenas mais cinco minutos. Ele, então, começou a passar rapidamente pelos eventos. A próxima coisa que aconteceu, ainda em 31 de agosto de 2011, foi que o site MRKVA tinha feito uma cópia na qual se podia pesquisar. Torrents também começaram a aparecer, inclusive no Pirate Bay, um serviço muito popular. Em 1 de Setembro, de acordo com material confidencial da acusação fornecido ao Prof. Grothoff, o governo dos EUA tinha acessado pela primeira vez o cache não editado. O documento mostrou que isso tinha sido através de um torrent do Pirate Bay. O Wikileaks havia disponibilizado os cabos não editados em 2 de setembro, depois de já estarem amplamente disponíveis. Eles já tinham passado o ponto onde o processo de dispersão dos arquivos “não podia mais ser contido".

Nem o Pirate Bay nem o Cryptome foram processados pela publicação. O Cryptome é baseado nos EUA.

Joel Smith, então, iniciou o interrogatório pela acusação. Ele começou abordando as credenciais do professor. Ele sugeriu que o professor era especialista em análise de computadores, mas ao montar uma cronologia de eventos ele não era especialista. O Prof. Grothoff respondeu que precisava de habilidades forenses especializadas para rastrear a cadeia precisa de eventos.

Joel Smith então sugeriu que sua cronologia dos eventos dependia do material fornecido pela defesa. O Prof. Grothoff disse que, de fato, a defesa forneceu provas-chave, mas ele procurou extensivamente por outros materiais e evidências on-line do curso dos eventos e testou as provas de defesa.

Smith então perguntou a Grothoff se ele havia retido qualquer informação que ele deveria ter dado como uma declaração de interesse. Grothoff disse que não tinha, e não conseguia pensar o que Smith estava falando. Disse que tinha conduzido sua pesquisa de forma justa e tomou muito cuidado para testar as afirmações da defesa contra as evidências. Smith então leu uma carta aberta de 2017 ao presidente Trump pedindo que a acusação de Assange fosse retirada. Grothoff disse que era possível, mas ele não se lembrava de tê-la assinado ou visto. A defesa havia lhe falado sobre a carta no sábado, mas ele ainda não se lembrava. O conteúdo da carta parecia razoável para ele, e se um amigo lhe pedisse para assinar, então ele provavelmente o teria feito. Mas ele não se lembrava disso.

Smith observou que Grothoff era listado como um signatário inicial, não como um signatário adicionado on-line. Grothoff respondeu que, no entanto, ele não tinha nenhuma lembrança dela. Smith então perguntou-lhe incrédulo "e você não se lembra de ter assinado uma carta ao Presidente dos Estados Unidos?" Grothoff novamente confirmou que não se lembrava.

Citando a carta, Smith então perguntou a ele "você acha que a acusação é ‘um passo para a escuridão’?". Grothoff respondeu que achava que tinha fortes ramificações negativas para a liberdade de imprensa em todo o mundo. Lewis então disse a Grothoff que ele tinha opiniões fortes, e, portanto, era evidentemente "tendencioso, parcial". Grothoff disse que era um cientista da computação e tinha sido convidado a pesquisar e dar testemunhos sobre fatos reais sobre o que havia ocorrido. Ele tinha testado os fatos corretamente e suas opiniões pessoais eram irrelevantes. Smith continuou a fazer várias outras perguntas sobre a carta e a parcialidade de Grothoff. Ao todo, Smith fez 14 perguntas diferentes relacionadas à carta aberta que Grothoff supostamente assinou.

Ele então seguiu em frente:

Smith: Você baixou o arquivo de mensagens durante sua pesquisa?

Grothoff: Baixei sim.

Smith: Você o baixou no site do Wikileaks?

Grothoff: Não, acredito que foi do Cryptome.

Smith: Então, no verão de 2010, David Leigh recebeu uma senha e o cache foi colocado em um site público?

Grothoff: Não, foi colocado em um site, mas não em público. Estava em um diretório escondido.

Smith: Então, como foi parar em sites espelho se não era público?

Grothoff: Depende de como o espelho específico é criado. No site do Wikileaks, o cache criptografado não era um campo disponível. Diferentes técnicas de espelhamento podem carregar os arquivos.

Smith: Wikileaks pediu a criação de espelhos?

Grothoff : Sim.

Smith; A força de uma senha é irrelevante se você não pode controlar as pessoas que a têm.

Grothoff: Sim, é verdade. O elo humano é sempre o mais fraco do sistema. É difícil se proteger da má-fé de um dos envolvidos, como David Leigh.

Smith: A quantas pessoas o Wikileaks deu a chave no verão de 2010?

Grothoff: Parece que só para David Leigh, segundo seu livro. Ele então deu para as centenas de milhares que tiveram acesso ao seu livro.

Smith: É verdade que 50 organizações de mídia e ONGs estavam eventualmente envolvidas no processo de edição?

Grothoff: Sim, mas não tinham acesso a todo o cache.

Smith: Como você sabe disso?

Grothoff: Está no livro de David Leigh.

Smith: Quantas pessoas no total tiveram acesso ao cache dessas 50 organizações?

Grothoff: Apenas o Sr. Leigh teve acesso ao conjunto completo. Só o Sr. Leigh tinha a chave de encriptação. Julian Assange tinha relutado muito em dar esse acesso a ele.

Smith: Qual é a sua evidência para essa declaração?

Grothoff: Está no livro de David Leigh.

Smith: É isso não é o que o livro diz.

Smith então leu duas longas passagens separadas do livro de Luke Harding e David Leigh, que de fato deixaram muito claro que Assange tinha dado a Leigh acesso ao cache completo com extrema relutância, e tinha sido persuadido a fazê-lo, inclusive por David Leigh que perguntou a Assange o que aconteceria se ele fosse levado para a Baía de Guantánamo e ninguém além de Assange tivesse a senha.

Grothoff: Foram estas as minhas palavras. Harding e Leigh escrevem que foi uma luta difícil tirar a senha da mão de Assange.

Lewis: Como você sabe que os 250.000 cabos não estavam todos disponíveis para os outros?

Grothoff :Em fevereiro de 2011 David Leigh publicou seu livro. Antes disso, não tenho provas de que o Wikileaks deu a senha para mais ninguém. Mas se assim for, eles mantiveram-se totalmente calados sobre isso.

Smith: Você diz que, após o ataque DDOS, o Wikileaks pediu que as pessoas espelhassem o site globalmente. Eles publicaram instruções sobre como fazê-lo.

Grothoff: Sim, mas os espelhos criados usando as instruções do Wikileaks não incluíam o arquivo criptografado. Na verdade, isso foi útil. Eles estavam tentando construir um palheiro. A existência de tantos espelhos sem o arquivo não criptografado tornou mais difícil de encontrá-lo.

Smith: Mas em 2010 a senha não havia sido liberada. Por que o Wikileaks iria querer construir um palheiro, então?

Grothoff: O efeito foi construir um palheiro. Concordo que provavelmente não foi o motivo inicial. Pode ter sido o objetivo quando essa criação de espelhos continuou mais tarde.

Smith: Em dezembro de 2010, o que o Wikileaks dizia era que queria multiplicar o site pois eles estavam sob ataque?

Grothoff: Sim.

Smith: Em 23 de agosto de 2011, o Wikileaks inicia uma liberação em massa de cabos?

Grothoff: Sim. Trata-se de uma liberação de cabos não classificados como secretos e também a liberação contínua de cabos confidenciais editados por parceiros de mídia.

Smith: Eles estavam lançando cabos por país, e lançando tuítes dizendo sobre quais países eles estavam lançando cabos naquele momento e nos próximos? (Smith lê os tuítes)

Grothoff: Sim. Eu verifiquei que estas mensagens cabos não eram confidenciais pesquisando no campo de classificação.

Smith: Algum tinha sido classificado como secreto?

Grothoff: Não, eles não eram confidenciais. Eu verifiquei isso.

Smith: Alguns estavam marcados como "Proteção Estrita"?

Grothoff: Isso não é uma classificação de confidencialidade. Não verifiquei esses.

Smith: Wikileaks se vangloriam de disponibilizar os arquivos de forma pesquisável.

Grothoff: Sim, mas o aplicativo de busca deles não era muito bom. Era muito mais fácil de procurá-los de outras maneiras.

Smith: Você disse que Der Freitag afirmou que o arquivo criptografado estava disponível em espelhos. O artigo não diz isso.

Grothoff: Não, mas diz que estava circulando amplamente na internet. Isso é feito por espelhamento. Eles não usaram essa palavra, eu concordo.

Smith: O artigo de 29 de agosto da Der Spiegel não publica a senha. Em seguida, o Wikileaks publica um artigo afirmando que essas histórias eram "substancialmente incorretas".

Grothoff: Aponta para a senha.

Smith: Alguns cabos foram publicados classificados como "Secreto".

Grothoff: Estes eram cabos que tinham sido editados totalmente pelo consórcio de especialistas em mídia.

Smith: Por que os chama de "especialistas"?

Grothoff: Eles conheciam o assunto e as localidades.

Smith: Por que os chama de "especialistas"?

Grothoff: Eram jornalistas experientes que sabiam o que era e o que não era seguro e correto publicar. Então, especialistas em jornalismo. É preciso distinguir entre três tipos de mensagens publicadas neste momento: 1) confidenciais e editados; 2) não confidenciais; 3) o cache confidencial e não editado.

Smith: Você está ciente de que alguns cabos eram marcados com "Proteção Estrita"?

Grothoff: Isso não é uma designação de uma mensagem. É aplicado a indivíduos. Mas isso não indica que eles estão em perigo, apenas que por razões políticas eles não querem ser conhecidos por fornecer evidências aos governo dos EUA?

Smith: Como você sabe disso?

Grothoff: Está no pacote que foi enviado para mim, e a evidência de outras testemunhas de defesa.

Smith: "Você não sabe?"

Grothoff: Eu sei que os nomes "Proteção Estrita" a que você está se referindo estavam em países seguros.

Smith: Antes de 31 de agosto você não encontra nenhuma evidência de publicação completa de todo o cache?

Grothoff: Sim.

Em seguida, passamos por um processo extremamente longo em que Smith questionava as evidências para o horário de cada publicação antes da própria publicação do Wikileaks, e tentando mudar o horário de possível publicação on-line de várias cópias, incluindo Cryptome, MRKVA, Pirate Bay e vários outros torrents. Ele conseguiu estabelecer que, dependendo do fuso horário em que você estava, parte disso poderia ter ocorrido muito cedo em 1 de setembro, em vez de 31 de agosto, e que não era possível colocar um horário exato dentro de uma janela de algumas horas na publicação não editada do Cryptome no início da manhã de 1 º de setembro.

[Este exercício pode ter influência para os dois lados. O tuíte que diz uma cópia ou um torrent está disponível e dá um link, deve ser publicado depois que o material é disponibilizado, que poderia ter acontecido algum tempo antes de se emitir o tuíte.]

Grothoff concluiu que, no fim das contas, nós não sabemos, minuciosamente, os horários para cada publicação, mas o que nós podemos dizer com certeza é que todas as publicações que foram discutidas, inclusive a do Cryptome, foram feitas antes do Wikileaks.

Smith apontou então que o Parry escreveu em seu blog “que este é um dia ruim para David Leigh e o Guardian. Eu coloquei a senha do livro de David Leigh em um arquivo antigo do Wikileaks …” mas não deu a localização do arquivo. Isto foi à 10 da noite em 31 agosto. Depois de 20 minutos o Wikileaks emitia uma nota para a imprensa “indicando a traição de senhas de Wikileaks pelo Guardian” e 80 minutos mais tarde um editorial.

[Eu penso de que Smith aqui estava tentando dizer que Wikileaks tinha publicado a descoberta do Parry.]

Smith tentou então fazer Grothoff concordar que, quando o próprio Wikileaks publicou os documentos completos, mais tarde em 2 setembro, eles eram mais completos e visíveis do que as publicações feitas anteriormente. Grothoff respondeu que eles não eram mais detalhados, ele eram os mesmos. Eram mais visíveis, mas nesse instante o gato já tinha saído completamente do saco e mensagens não editadas estavam se espalhando rapidamente por toda a Internet. Não havia nenhuma maneira interromper isso.

Em seguida, Mark Summers reexaminou Grothoff e asseverou que a evidência era que a chave do encriptação para o arquivo completo foi dada a David Leigh e a ninguém mais. O método do armazenamento era seguro - Grothoff indicou que, precisamente, o mesmo método era usado para enviar pacotes de documentos da corte neste processo. Somente David Leigh tinha revelado a senha.

No sites espelho, Grothoff confirmou que as instruções de Wikileaks criaram espelhos sem o cache codificado. Todas as cópias do cache encriptado que ele conseguiu encontrar em outros sites espelho, estavam em sites que foram criados claramente usando outros métodos, por exemplo outros sistemas de software.

Summers então conseguiu que o professor Grothoff explicasse a metodologia que ele havia usado para verificar os cabos publicados pelo Wikileaks antes da quebra de sigilo de Leigh não eram classificados como secretos. Além da amostragem, isso incluiu uma correlação do número publicado para cada país com o número listado como não secreto para cada país no diretório do governo dos EUA. Hou essa correspondência em todos os casos.

Summers então tentou conduzir Grothoff de volta à prova da linha do tempo que Joel Smith tinha colocado tanto esforço em desqualificar, mas foi impedido de fazê-lo por Baraitser. Ela tinha interrompido Summers quatro vezes durante seu reexame, com a extraordinária alegação de que o assunto tinha sido abordado antes; extraordinário, porque é para isso que se faz um reexame. Baraitser permitiu que Smith fizesse 14 perguntas sucessivas de Grothoff sobre por que ele havia assinado uma carta aberta. O uso de critérios diferentes ficou muito óbvio.

O que nos leva a um ponto crucial: a testemunha seguinte, Andy Worthington, estava no tribunal e pronta para prestar depoimento, mas foi impedida de fazê-lo. O governo dos Estados Unidos se opôs às suas provas sobre seu trabalho nos arquivos de prisioneiros de Guantánamo, aparentemente porque continha alegações de detentos sendo torturados em Guantánamo.

Baraitser disse que sua decisão não consideraria se ocorreu tortura em Guantánamo, ou se tinha ocorrido extradições ilegais. Ela não precisava ouvir evidências sobre esses pontos. Mark Summers respondeu que a ECHR tinha aceitado estes fatos como verdadeiros, mas que era necessário que eles fossem declarados por testemunhas para a defesa do Artigo 10 ECHR. Lewis manteve a objeção por parte do governo dos EUA.

Baraitser disse que queria que a acusação e a defesa produzissem um cronograma de testemunhas que terminaria o caso até o final da próxima semana, incluindo as alegações finais. Ela queria que eles concordassem com as provas que poderiam e não ser ouvidas. Sempre que possível, ela queria provas em declarações incontestáveis com a defesa apenas lendo a essência.

Ela também disse que não queria ouvir as alegações finais no tribunal, mas ela as teria por escrito e a defesa e a acusação poderiam apenas resumi-las brevemente oralmente.

O que a defesa deveria ter dito neste momento é :"senhora, até os cães de rua sabem que as pessoas foram torturadas na Baía de Guantánamo. No mundo real, não é um fato contestado. Se as instruções do Sr. Lewis negassem que a Terra é redonda, nossas testemunhas teriam que acomodar isso? A verdade dessas questões vai claramente para a Defesa do Artigo 10, e ao se curvar à negação de um fato notório e claro, este tribunal será notabilizado como uma zombaria. Não discutiremos essa censura ridícula com o senhor Lewis. Se a senhora decidir que não deve haver menção de tortura em evidência, então que assim seja”.

A defesa não disse nada disso, mas como instruído entrou em um processo com os advogados da acusação de concordar com o encurtamento e edição de provas, um processo que levou o dia todo e com o qual Julian mostrou sinais claros de estar desconfortável. Andy Worthington não conseguiu apresentar suas provas. A única evidência ouvida foi a leitura da essência de uma declaração de Cassandra Fairbanks. Eu não ouvi a maior parte disso porque, tendo adiado para às 16:30, o tribunal reiniciou mais cedo do que o anunciado, enquanto o pai de Julian, John Shipton, o músico MIA e eu estávamos fora tomando um café. Eu recomendo este relato de Kevin Gosztola das evidências surpreendentes de Fairbanks. Foi lido rapidamente por Edward Fitzgerald em "essência", acordado como um relato incontestável, e fala fortemente da motivação política aparente nesta acusação.

Estou muito preocupado com o evidente conluio da acusação e da juíza para encerrar este caso. A extraordinária confluência na "gestão do tempo" e a exclusão de evidências que o Governo dos EUA não quer ouvir em público são claramente ilegítimas. A contínua pressão e interrupção do advogado de defesa em exame, enquanto se permite, aos advogados de acusação, uma repetição sem fim chegando ao assédio e ao bullying é ilegítima. Alguns interrogatórios extraordinariamente longos, como o de Carey Shenkman, o advogado, têm todas as aparências de perda de tempo e distração.

A testemunha de terça-feira é o Professor Michael Kopelman, o eminente psiquiatra, e a acusação indicou que eles desejam interrogá-lo por quatro horas extraordinárias, que Baraitser concordou contra as objeções de defesa. Sua obsessão com a gestão do tempo é claramente subjetiva.

Obviamente há uma questão moral para mim em quanta evidência médica eu publico. A decisão será tomada de acordo com as opiniões de Julian ou, se não pudermos determinar isso, com sua família.

*Publicado originalmente no site do autor |Tradução de César Locatelli



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