Os interrogatórios de Assange - Dia 15

 

27/09/2020 13:12

(Reprodução/bit.ly/2G8nXnz)

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Quando Daniel Ellsberg divulgou os documentos do Pentágono, o governo dos Estados Unidos invadiu o consultório de seu psiquiatra para furtar evidências médicas e desacreditá-lo. Julian Assange foi obrigado a submeter-se, em estado de debilidade física e mental, nas mais severas condições de encarceramento, a exames de psiquiatras indicados pelo governo dos Estados Unidos. Ele afirma que a experiência foi intrusiva e traumatizante. É um furto da mente.

Julian está profundamente preocupado que seu histórico médico seja usado para desacreditá-lo e tudo pelo que ele trabalhou, para classificar as conquistas do Wikileaks, na promoção de governos abertos e de cidadãos bem informados, como a fantasia de uma mente perturbada. Não tenho dúvidas de que isso será tentado, mas felizmente houve uma mudança real na compreensão e reconhecimento público da doença mental. Não acho que os episódios periódicos e infrequentes de depressão muito grave de Julian sejam retratados com sucesso sob uma luz ruim, apesar da atitude incrivelmente grosseira e insensível demonstrada hoje no tribunal pelo governo dos Estados Unidos, que aparentemente passou ao largo da mudança de atitude das últimas décadas.

Discuto isso antes de chegar às provas de terça-feira porque, pela primeira vez, meu relato será menos detalhado do que outros, porque decidi censurar muito do que foi dito. Faço isso com o fundamento de que, no que diz respeito ao seu histórico médico, o direito de Julian à privacidade não deve ser abolido por esses procedimentos. Discuti isso com alguns detalhes com Stella Morris. É claro que pesei isso contra meu dever de jornalista para com você, leitor, e decidi que o direito à privacidade médica é maior, independentemente do que outros estejam publicando. Portanto, dei uma explicação tão completa quanto possível, omitindo todas as menções de comportamentos, sintomas e detalhes mais pessoais.

Também acredito que teria essa mesma opinião independentemente da identidade do réu. Não estou simplesmente sendo parcial para um amigo. Em todos os meus relatos sobre esses procedimentos, é claro que minha amizade com Julian foi um componente do qual tenho ciência. Mas não inventei nada, nem omiti nada maliciosamente.

Afirmo com firmeza e determinação que meu relato foi verdadeiro. Não afirmo que tenha sido imparcial. Porque em um caso de extrema injustiça, a verdade não é imparcial.

O relato a seguir tenta dar a você uma impressão adequada dos eventos do tribunal de hoje, omitindo o conteúdo e os detalhes de grande parte da discussão. A única testemunha durante todo o dia foi o eminente psiquiatra professos Michael Kopelman, que será familiar para os leitores de Murder in Samarkand. Professor Emérito de Psiquiatria no Kings College London e ex-chefe de psiquiatria no Guy's e St Thomas's, o Prof Kopelman foi nomeado pela defesa (ele não é um dos psiquiatras de quem Julian se queixa, que darão testemunhos mais tarde) e visitou Julian Assange 19 vezes na prisão de Belmarsh. Seu relatório detalhado concluiu que

“Reitero mais uma vez que estou tão seguro, no limite ao qual é possível a um psiquiatra estar, de que, em caso de extradição iminente, o Sr. Assange realmente encontraria uma maneira de se suicidar”, afirmou.

Kopelman testemunhou que seu relatório foi baseado não apenas em suas muitas consultas com Assange, mas em pesquisas detalhadas de seus registros médicos desde a infância, incluindo contato direto com outros médicos que trataram de Assange, inclusive na Austrália, e várias entrevistas com familiares e amigos de longa data. Seu diagnóstico de depressão grave foi apoiado por uma história médica de tais episódios e uma, surpreendente, história familiar de suicídio, possivelmente indicando disposição genética.

O professor Kopelman foi firme ao afirmar que não considerava Assange delirante. As preocupações de Assange em ser espionado e vítima de conspiração eram perfeitamente racionais nas circunstâncias.

Kopelman não tinha dúvidas de que Julian poderia cometer suicídio se extraditado. “É o transtorno que traz o risco de suicídio. A extradição é o gatilho.”

James Lewis QC, da acusação, interrogou o professor Kopelman por quatro horas. Como sempre, ele começou depreciando as qualificações da testemunha: o professor Kopelman é um psiquiatra cognitivo, não um psiquiatra forense e não havia trabalhado em prisões. O professor Kopelman apontou que ele vinha praticando psiquiatria forense e testemunhando em vários tribunais por mais de trinta anos. Quando Lewis insistiu várias vezes em questionar suas credenciais, Kopelman se cansou e decidiu sair da bolha da etiqueta da corte:

“Tenho feito isso há mais de trinta anos e em cinco ou seis ocasiões, advogados de Londres me telefonaram e disseram que James Lewis QC estava atuando em um caso de extradição e estava extremamente ansioso para obter meus serviços para um relatório. Então eu acho que é um tanto irônico você estar aí agora questionando minhas qualificações.” Isso causou gargalhadas no tribunal, que, surpreendentemente, a juíza não fez nenhuma tentativa de silenciar.

O outro truque, usado mais uma vez pela acusação, foi entregar ao prof. Kopelman dois pacotes enormes que, disseram, tinham sido enviados a ele naquela manhã e que ele disse nunca ter visto - sem surpresa, pois ele começou a testemunhar às 10h. Isso incluía itens substanciais que Kopelman nunca tinha visto antes, mas sobre os quais ele seria questionado. O primeiro deles foi um artigo acadêmico sobre simulação que Lewis, na verdade usou para desqualificar Kopelman por não ter lido. Ele disse que tinha lido muitos artigos sobre o assunto, mas não este em particular.

Lewis então leu várias frases do artigo e convidou Kopelman a concordar com elas. Entre elas a afirmação que “habilidades clínicas por si só não são suficientes para diagnosticar a simulação de uma doença” e que uma equipe clínica teria melhores condições para detectar a simulação de uma doença. O professor Kopelman recusou-se a aceitar qualquer uma dessas proposições sem qualificação, e várias vezes durante as quatro horas foi obrigado a refutar as afirmações de Lewis de que ele o havia feito.

Essa é outra técnica continuamente empregada pela promotoria, agarrando-se a um único artigo e tentando dar a ele o status de escritura sagrada, quando JStor sem dúvida apresentaria centenas de artigos conflitantes. Com base neste único artigo, Lewis continuamente afirmava e / ou insinuava que apenas a equipe médica da prisão estava em posição de julgar a condição de Assange. Edward Fitzgerald QC para a defesa iria mais tarde afirmar que o artigo, quando se referia à “equipe clínica”, falava de hospitais psiquiátricos e não de prisões. Kopelman não quis comentar, alegando não ter lido o artigo.

Lewis, então, aplicou outro de seus truques padrão, tentando contestar a perícia de Kopelman, insistindo que ele declarasse, sem pesquisar, quais eram os oito possíveis sintomas diagnósticos de uma determinada classificação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de depressão grave. Kopelman simplesmente se recusou a fazer isso. Ele disse que fez um diagnóstico clínico da condição do paciente e só então o calibrou com as diretrizes da OMS para fins judiciais; e indicou que ele fazia parte de alguns dos comitês da OMS que redigiram essas definições. Eles eram, disse ele, muito políticos e algumas de suas decisões [da OMS] eram estranhas.

Em seguida, entramos em um processo muito longo e detalhado em que de Lewis examinava centenas de páginas das notas médicas da prisão de Assange e apontava frases omitidas da sinopse de dezesseis páginas de Kopelman, que tendiam a considerar que a saúde mental de Assange era boa, enquanto o professor respondia, repetidamente, que ele tinha incluiu essa opinião de forma abreviada, ou que também tinha omitido outro material que dizia o contrário. Lewis afirmou que a sinopse foi parcial e tendenciosa e Kopelman disse que não.

Lewis também apontou que parte do histórico médico de Assange da Austrália não continha as notas médicas originais. Kopelman disse que isso se deve à política de destruição do estado de Victoria. Lewis estava preparado apenas para aceitar a história apoiada pelas notas médicas originais. Kopelman explicou que essas notas se referiam a episódios anteriores, ele consultou o professor Mullen que tratou de Julian e, embora Lewis possa desejar contestar a validade de relatos de familiares e amigos, para um profissional médico esse era o método padrão de Maudsley para abordar a história de doenças mentais; além disso, havia um relato em um livro publicado em 1997.

Depois do almoço, Lewis perguntou ao professor Kopelman por que seu primeiro relatório citava Stella Morris, mas não mencionava que ela era parceira de Julian. Por que ele estava escondendo esse conhecimento do tribunal? Kopelman respondeu que Stella e Julian estavam muito ansiosos por privacidade nas circunstâncias por causa do estresse sobre ela e os filhos. Lewis disse que o primeiro dever de Kopelman era para com o tribunal e isso anulava seu direito à privacidade. Kopelman disse que tomou sua decisão. Seu segundo relatório mencionou isso assim que se tornou público. Lewis perguntou por que ele não havia declarado explicitamente que eles tinham dois filhos. Kopelman disse que achou melhor deixar as crianças fora disso.

Lewis perguntou se ele estava escondendo essa informação porque ter um parceiro era uma proteção contra o suicídio. Kopelman disse que alguns estudos mostraram que o suicídio era mais comum em pessoas casadas. Além disso, o que estávamos considerando aqui era o estresse da separação do parceiro e dos filhos.

Lewis então abordou a referência no relatório de Kopelman ao trabalho do professor Nils Melzer, o Relator Especial da ONU sobre Tortura. Sem especificar o histórico ou a posição do professor Melzer, ou mesmo fazer qualquer menção às Nações Unidas, Lewis leu sete parágrafos da carta do professor Melzer a Jeremy Hunt, então secretário do Exterior do Reino Unido. Esses parágrafos tratam das circunstâncias do encarceramento de Assange na Embaixada e de sua perseguição contínua, incluindo a decisão do Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária. Lewis até conseguiu deixar as palavras “Nações Unidas” fora do nome do grupo de trabalho.

Ao ler cada parágrafo, Lewis caracterizou-o como “disparate”, “lixo” ou “absurdo” e convidou Kopelman a comentar. Todas as vezes o Prof. Kopelman deu a mesma resposta, que só utilizou o trabalho do psicólogo que acompanhava o Prof. Melzer e não tinha comentários a fazer sobre a parte política, que não havia aparecido em seu relatório. Baraitser - que está sempre tão interessado em descartar as evidências de defesa como irrelevantes e para economizar tempo - permitiu que essa leitura de parágrafos irrelevantes continuasse indefinidamente. O único propósito era registrar o trabalho do prof. Melzer no registro com uma caracterização desprezível incontestável, e era simplesmente irrelevante para a testemunha no depoimento. Este foi o critério duplo de Baraitser em cena mais uma vez.

Lewis então apresentou ao professor Kopelman breves extratos de transcrições do tribunal mostrando Julian interagindo com o tribunal, como evidência de que ele não tinha nenhuma dificuldade cognitiva grave. Kopelman respondeu que algumas breves trocas realmente não diziam nada de significativo, ao passo que suas manifestações não autorizadas, do banco dos réus, podem ser vistas como um sintoma de Asperger, sobre o qual outros psiquiatras testemunhariam.

Lewis repreendeu Kopelman novamente por não ter prestado atenção suficiente à simulação. Kopelman respondeu que ele não somente havia usado sua experiência e julgamento clínico, mas dois testes normativos foram aplicados, um deles o teste TOMM. Lewis sugeriu que esses testes não eram para simulação e apenas o teste de Minnesota era o padrão. Nesse ponto, Kopelman parecia corretamente irritado. Ele disse que o teste de Minnesota era muito pouco usado fora dos EUA. O teste TOMM era, de fato, para simulação. É por isso que seu nome é Teste de Simulação da Memória [Test of Memory Malingering]. Mais uma vez, houve algumas risadas no tribunal.

Lewis então sugeriu que Assange poderia receber uma sentença leve nos EUA de apenas seis anos, e poderia não ser mantido em confinamento solitário. Isso mudaria o prognóstico de Kopelman? Kopelman disse que mudaria se isso fosse realista, mas ele havia feito muitos casos de extradição e tinha visto muitos compromissos serem quebrados, para dar muita importância a isso. Além disso, ele entendia que nenhuma garantia desses termos havia sido dado.

Lewis questionou a experiência de Kopelman sobre as condições carcerárias nos EUA e disse que Kopelman foi tendencioso porque não levou em consideração as evidências de Kromberg e de outra testemunha norte-americana sobre o assunto que está por vir. Kopelman respondeu que não havia recebido suas evidências até substancialmente depois de concluir seus relatórios. Mas ele tinha lido agora, e ele tinha visto uma grande quantidade de outras evidências que contradiziam [o que Kromberg havia declarado], tanto neste caso como em outros. Lewis sugeriu que não cabia a ele usurpar o julgamento do tribunal sobre essa questão e que ele deveria corrigir sua opinião para refletir o efeito do sistema prisional dos Estados Unidos sobre Assange, se fosse como Kromberg o descreveu. Kopelman recusou-se a fazê-lo, dizendo que não confiava na perícia de Kromberg e preferia acreditar, entre outros, no próprio relatório do Departamento de Justiça de 2017, no relatório do Center for Constitutional Rights de 2017 e no relatório Marshall de 2018.

Lewis pressionou Kopelman novamente e perguntou que se as condições da prisão e os cuidados de saúde nos EUA fossem bons, e se a sentença fosse curta, isso causaria uma alteração em sua opinião clínica. Kopelman respondeu que, se esses fatores fossem verdadeiros, sua opinião mudaria, mas ele duvidava que fossem verdadeiros.

De repente, Baraitser repetiu em voz alta a citação parcial de que se as condições da prisão nos Estados Unidos fossem boas e a sentença curta, então a opinião clínica de Kopelman mudaria e ostensivamente a digitou em seu laptop, como se fosse realmente muito significativo.

Isso foi muito sinistro. Como ela habita um mundo peculiar onde não está provado que alguém tenha sido torturado na Baía de Guantánamo, eu entendo que no universo interno de Baraitser as condições da prisão no Colorado ADX são perfeitamente humanas e o atendimento médico é muito bom. Pude notar que Baraitser viu seu caminho repentinamente claro para como lidar com o Professor Kopelman em seu julgamento. Não pude deixar de considerar que Julian era a última pessoa neste tribunal que precisava de um psiquiatra.

Lewis então perguntou, em seu melhor estilo retórico e sarcástico, se a doença mental havia impedido Julian Assange de obter e publicar centenas de milhares de documentos confidenciais que eram propriedade dos Estados Unidos. Ele perguntou como, se ele sofria de depressão severa, Julian Assange tinha sido capaz de liderar o Wikileaks, escrever livros, fazer discursos e apresentar um programa de TV?

Confesso que nessa fase fiquei realmente muito zangado. O fracasso de Lewis em reconhecer a natureza episódica da doença depressiva grave, mesmo depois de o professor ter explicado isso inúmeras vezes, foi intelectualmente patético. Também é grosseiro, insensível e ultrapassado sugerir que ter uma doença depressiva grave pode impedi-lo de escrever um livro ou liderar uma organização. Era simplesmente estigmatizar aqueles com problemas de saúde mental. Confesso que levei isso para o lado pessoal. Como meus leitores antigos sabem, tenho lutado contra a depressão toda a minha vida e nunca escondi o fato de que no passado fui hospitalizado por causa disso e sob vigilância de suicídio. Mesmo assim, venci os exames para o serviço público, tornei-me o mais jovem embaixador da Grã-Bretanha, presidi várias empresas, fui reitor de uma universidade, escrevi vários livros e tenho grande facilidade para discursar. A caracterização de Lewis dos depressivos como permanentemente incapazes não é apenas grosseiramente insensível, é uma forma de discurso de ódio e não deve ser aceitável em tribunal.

(Eu sou um defensor da liberdade de expressão, e se Lewis quer fazer papel de idiota exibindo ignorância de doença mental em público, eu não tenho nenhum problema. Mas no tribunal, não.)

Além disso, Lewis não estava representando suas próprias opiniões, mas falando sob instruções diretas do governo dos Estados Unidos da América. Ao longo de quatro horas inteiras, Lewis, em nome do governo dos EUA, não apenas demonstrou não ter qualquer compreensão de doença mental, ele nunca, nem por um segundo, mostrou um único sinal de que a doença mental é um assunto la ser evado a sério, nem demonstrou o menor elemento de simpatia e preocupação humanas. Não apenas para Julian, mas para qualquer um que sofra dessa enfermidade. A doença mental como fingimento ou real, o desqualifica para qualquer papel na sociedade, nenhuma outra opinião, além dessa, foi expressa. Ele deixou claro, em nome do governo dos Estados Unidos, por exemplo, que o histórico de doenças mentais de Julian na Austrália não será levado em consideração porque os registros médicos foram destruídos.

A única conclusão possível do depoimento de ontem é que a atuação do representante do Governo dos Estados Unidos foi, por si só, evidência completa e suficiente de que não há possibilidade de Julian Assange receber consideração justa e tratamento de seus problemas de saúde mental dentro o sistema dos Estados Unidos. O governo dos Estados Unidos acaba de nos demonstrar isso, em tribunal aberto, com perfeição.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli

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