Os interrogatórios de Assange - Dia 16

 

28/09/2020 12:03

O artista e dissidente chinês Ai Weiwei protesta para pedir a libertação de Julian Assange em frente ao tribunal de Londres de Old Bailey (AFP)

Créditos da foto: O artista e dissidente chinês Ai Weiwei protesta para pedir a libertação de Julian Assange em frente ao tribunal de Londres de Old Bailey (AFP)

 
Na quarta-feira (23), a armadilha disparou, pois a juíza Baraitser insistiu que os depoimentos deveriam se encerrar na próxima seguinte, e que não seria permitido nenhum tempo para a preparação dos argumentos finais, que deveriam ser feitos na segunda-feira subsequente. Isso levou a defesa a um passo de um protesto. Eles ressaltaram que as novas acusações ainda não haviam sido abordadas [acusações que foram feitas em substituição às iniciais] e a juíza, entretanto, recusou seu pedido de adiamento do início das audiências das testemunhas, para lhes dar tempo de fazê-lo.

Edward Fitzgerald QC, pela a defesa, também apontou que houve várias testemunhas cujas provas tinham que ser levadas em consideração, e as alegações finais escritas deveriam ser fisicamente preparadas com referência às transcrições e outras evidências de apoio do julgamento. Baraitser rebateu que a defesa havia lhe dado o argumento inicial de 200 páginas e ela não entendia que muito mais poderia ser necessário. Fitzgerald, que é um cavalheiro estilo antigo no melhor sentido dessas palavras, lutou para expressar sua perplexidade de que todos os testemunhos, que sucederam os argumentos iniciais, pudessem ser rejeitados como desnecessários e sem efeito.

Temo que em toda Londres esteja caindo uma pancada muito forte sobre aqueles que durante toda a vida trabalharam dentro de instituições da democracia liberal que, pelo menos ampla e normalmente, costumavam operar dentro da governança de seus próprios princípios professados. Está claro para mim, desde o primeiro dia, que estou assistindo o desenrolar de uma farsa. Não é nem um pouco chocante para mim que Baraitser não ache que qualquer coisa, além dos argumentos iniciais escritos, tenha qualquer efeito. Repetidamente, relatei a você que, quando as decisões precisavam ser tomadas, ela as trouxe ao tribunal pré-escritas, antes de ouvir os argumentos das partes à sua frente.

Suspeito fortemente que a decisão final deste caso tenha sido tomada antes mesmo que os argumentos iniciais fossem recebidos.

O plano do governo dos Estados Unidos sempre foi limitar as informações disponíveis ao público e limitar o acesso efetivo, por um público mais amplo, às informações disponíveis. Foi assim que entendemos as restrições extremas tanto no acesso físico quanto por vídeo. Uma grande mídia cúmplice garantiu que aqueles de nós que sabem o que está acontecendo sejamos muito poucos dentro da população em geral.

Mesmo meu blog nunca foi tão sistematicamente sujeito a shadowbanning [um bloqueio a um conteúdo sem que a comunicação de que o bloqueio de fato ocorreu] do Twitter e do Facebook como agora. Normalmente, cerca de 50% dos leitores do meu blog chegam via o Twitter e 40% pelo Facebook. Durante os depoimentos, tem sido 3% vindo do Twitter e 9% do Facebook. Isso é uma queda de 90% para 12%. Nas audiências de fevereiro, o Facebook e o Twitter direcionaram para meu blog mais de 200.000 leitores por dia. Agora eles estão me enviando 3.000 leitores por dia. Para ser claro, são menos os leitores vindos dessas redes sociais do que meu tráfego diário normal em tempos normais. É a natureza insidiosa dessa censura que é especialmente sinistra - as pessoas acreditam que compartilharam meus artigos com sucesso no Twitter e no Facebook, enquanto essas corporações escondem deles que, na verdade, os compartilhamentos não entram na linha do tempo de ninguém. Minha própria família não tem recebido notificações sobre minhas postagens em nenhuma das plataformas.

O governo dos Estados Unidos respondeu com entusiasmo ao pronunciamento de Baraitser com a sugestão de que os argumentos finais não deveriam ser ouvidos de forma alguma. Devem apenas ser apresentados por escrito, talvez uma semana após as testemunhas finais. Baraitser parecia ansiosa para concordar com isso. A decisão é esperada para hoje [quinta, 24]. Permitam-me acrescentar que há dois dias percebi que a defesa realmente perdera um momento importante para enfrentar a juíza, quando sua pressa em condenar, sem as considerações devidas, ficou evidente. Parece que devido ao terreno que a defesa já cedeu naquela fase, Noam Chomsky é uma das testemunhas que agora não ouviremos.

Lamento, mas não vou apresentar-lhe um relato substancial das testemunhas de quarta-feira. Decidi que os detalhes íntimos da história médica e da condição de Julian não devem ser objeto de mais curiosidade pública. Eu sei que não posso excluir o que outros publicaram - e o tribunal vai considerar os pedidos da imprensa para acesso a todos os registros médicos anteriores a ele. Mas tenho que fazer o que acredito ser certo.

Direi que para a defesa testemunhou o Dr. Quinton Deeley. O Dr. Deeley é professor sênior em Comportamento Social e Neurodesenvolvimento no Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência (IOPPN) do King's College London e Neuropsiquiatra Consultor na Unidade Nacional de Autismo. Ele é co-autor do Relatório do Royal College sobre o Manejo do Autismo.

O Dr. Deeley, após supervisionar o teste padrão e extensa consulta com Julian Assange e rastreamento da história, fez um diagnóstico claro que abrangia a Síndrome de Asperger. Ele descreveu Julian como um autista de alto funcionamento. Seguiu-se a habitual exibição vergonhosa de James Lewis QC, tentando separar o diagnóstico traço por traço, e empregando táticas como “bem, você não está olhando nos meus olhos, isso o torna autista?”. Ele realmente fez isso. Eu não estou inventando.

Devo dizer mais sobre Lewis, que é um personagem estranho. Privadamente muito afável, ele adota uma agressividade rude e de mau gosto no interrogatório que parece muito incomum. Ele adota posturas peculiares. Depois de fazer perguntas agressivas, ele faz poses de pugilismo teatral. Por exemplo, ele coloca os braços nos quadris, empurra o queixo para fora e pula sobre os pés a ponto de seus calcanhares realmente saírem do chão, enquanto olha ao redor do tribunal em aparente triunfo, seu olhar pausando para fixar, ocasionalmente, na juíza. Esses gestos quase sempre envolvem jogar para trás uma ou ambas as partes frontais de seu paletó.

Acho que isso é algum tipo de sinalização inconsciente de macho alfa em andamento, e todos esses psiquiatras ao redor podem relacionar isso à sua falta de altura. É um comportamento de exibição, mas não muito bem-sucedido. Lewis deixou a barba crescer durante o confinamento e ele ficou surpreendentemente parecido com um personagem de uma ópera cômica.

Grande parte de mim deseja fornecer detalhes sobre o interrogatório, porque Deeley lidou com Lewis de maneira soberba, dando respostas calmas e fundamentadas, sem conceder nada às tentativas desajeitadas de Lewis de desmontar seu diagnóstico. Lewis argumentou efetivamente que as conquistas de Julian seriam impossíveis com autismo, enquanto Deeley discordava. Mas não há como recontá-lo sem entrar na discussão dos detalhes médicos que não desejo desvelar aqui. No entanto, direi que o pai de Julian, John, me disse que Julian sabe há muito tempo que tem Asperger e o dirá com alegria.

O segundo psiquiatra na quarta-feira, o Dr. Seena Fazel, Professor de Psiquiatria Forense na Universidade de Oxford, foi a primeira testemunha de acusação que ouvimos. Ele me pareceu um homem honesto e consciencioso e fez observações razoáveis, também. Havia muitos pontos em comum entre o professor Fazel e os psiquiatras de defesa, e acho que é justo dizer que seu ponto principal era que o futuro estado médico de Julian dependeria muito das condições em que ele fosse mantido em relação ao isolamento, e na esperança ou desespero dependendo de suas perspectivas futuras.

Aqui, Lewis fez questão de pintar um quadro elísio. Como sempre, ele recorreu ao depoimento do advogado assistente dos EUA, Gordon Kromberg, que descreveu o campo de férias que é a prisão de segurança máxima ADX em Florence, Colorado, onde a promotoria diz que Julian provavelmente será encarcerado se for condenado (...)

Você deve se lembrar que esta é a prisão que foi descrita como um “inferno em vida” e um “destino pior que a morte” por seu próprio administrador. Lewis convidou o prof. Fazel a concordar que esse regime não causaria problemas médicos para Julian, e para seu crédito o prof. Fazel, apesar de ser uma testemunha de acusação, recusou ser usado dessa forma pela acusação, dizendo que seria necessário descobrir o quanto das alegações de Kromberg era verdadeiro na prática, e qual era a qualidade desta disposição. Fazel não quis acreditar nas mentiras sobre essa notória instalação prisional.

Lewis foi ardiloso porque ele sabe, e a acusação admitiu, que se for condenado, Julian provavelmente será mantido no bloco H no ADX sob "Medidas Administrativas Especiais". Se ele tivesse lido alguns parágrafos do depoimento de Kromberg, ele teria chegado ao regime sob o qual Julian será realmente mantido se condenado (...)

Esclareçamos a questão. William Barr decide quem está sujeito a este regime e quando as regras podem ser melhoradas. Durante pelo menos os primeiros doze meses, você fica em confinamento solitário, trancado em sua cela, e pode sair apenas três vezes por semana, somente para tomar banho. Você não tem permissão para visitas e duas ligações por mês. Depois de doze meses, isso pode ser melhorado - e ouviremos evidências de que isso raramente ocorre - para permitir três ligações por mês e uma breve liberação da cela, cinco vezes por semana, para exercícios, ainda em isolamento absoluto. Ouvimos evidências de que o período de exercícios costuma ser por volta das 3 da manhã. Depois de um número indeterminado de anos, você pode, ou não, ter permissão para encontrar outro ser humano.

Por trás do desdém frio de Baraitser, por trás das posturas teatrais de Lewis, esse inferno na Terra é o que essas pessoas planejam para Julian. Eles estão calmamente discutindo como isso definitivamente o matará, com pleno conhecimento de que é a morte em vida de qualquer maneira. Sento-me na galeria pública, empoleirado dois metros e meio acima de todos eles, observando a interação dos personagens neste baile de máscaras, enquanto os advogados empilham seus maços de papéis ou olham fixamente para seus laptops, enquanto Lewis e Fitzgerald trocam gentilezas, enquanto os simpáticos funcionários tentam fazer os sistemas de TI funcionarem, e minha mente flutua em uma descrença horrorizada. Eles estão decidindo um destino para meu amigo tão horrível quanto o dos milhares, que durante mais de 500 anos, foram arrastados exatamente deste mesmo local e enforcados do lado de fora. Eles estão todos conversando e trabalhando como se fôssemos uma parte normal de uma sociedade civilizada.

Então eu volto para o meu quarto de hotel, datilografo tudo e publico. Os governos que estão destruindo Julian, por meio de suas agências, pressionaram as enormes corporações que agora controlam os principais passagens de tráfego da Internet, para garantir que minha conta sofrida e enlutada seja vista por poucos. Meus gritos de dor e horror são amortecidos por grossas paredes acolchoadas. Estamos todos trancafiados.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli



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