Os mais poderosos do mundo aprisionam Julian Assange por suas virtudes, não por seus vícios

O fundador do WikiLeaks expôs a verdade inúmeras vezes até que não houvesse dúvidas sobre a ilegalidade, corrupção e mentira endêmicas que definem a elite global. E, por essas verdades, eles foram atrás dele, como foram atrás de todos que ousaram rasgar o véu do poder

15/06/2021 13:28

Assange mostra um exemplar do 'The Guardian' enquanto fala aos repórteres em frente a uma fotografia de Don McCullin da guerra do Vietnã no The Front Line Club em 26 de julho de 2010 em Londres, Inglaterra (Peter Macdiarmid/Getty Images)

Créditos da foto: Assange mostra um exemplar do 'The Guardian' enquanto fala aos repórteres em frente a uma fotografia de Don McCullin da guerra do Vietnã no The Front Line Club em 26 de julho de 2010 em Londres, Inglaterra (Peter Macdiarmid/Getty Images)

 
Nota: o seguinte texto é baseado em um discurso realizado em uma manifestação na quinta à noite, 10 de junho, na cidade de Nova Iorque, em apoio a Julian Assange, atualmente detido na Prisão Belmarsh no Reino Unido e sob ameaça de possível extradição aos EUA. John e Gabriel Shipton, o pai e irmão de Julian, também falaram no evento, que aconteceu no “People’s Forum”.

Uma sociedade que proíbe a capacidade de falar a verdade extingue a capacidade de viver em justiça.

É por isso que estamos aqui hoje. Sim, todos nós que conhecemos e admiramos Julian condenamos seu sofrimento prolongado e o sofrimento de sua família. Sim, exigimos que os muitos erros e injustiças que foram aplicados sobre ele, terminem. Sim, o honramos por sua coragem e sua integridade. Mas a batalha pela liberdade de Julian sempre foi muito mais que uma perseguição a uma pessoa que publicou documentos. É a batalha mais importante para a liberdade de imprensa da nossa época. E se perdermos essa batalha, será devastador, não somente para Julian e sua família, mas para nós também.

A longa campanha contra Julian e o WikiLeaks é uma janela para o colapso do estado de direito, a ascensão do que o filósofo político Sheldon Wolin chama de totalitarismo invertido, uma forma de totalitarismo que mantém as ficções da velha democracia capitalista, incluindo suas instituições, iconografia, símbolos patrióticos e retórica, mas que internamente entregou totalmente o controle aos mandos das corporações globais.

As tiranias invertem o estado de direito. Elas transformam a lei em um instrumento de injustiça. Escondem seus crimes sob falsas legalidades. Usam normas jurídicas dos tribunais e julgamentos, para mascarar sua criminalidade. Aqueles, como Julian, que expuseram essa criminalidade ao público são perigosos, porque sem o pretexto da legitimidade, a tirania perde credibilidade e não sobra nada em seu arsenal, exceto o medo, a coerção e a violência.

Eu estava no tribunal em Londres quando Julian estava sendo julgado pela juíza Vanessa Baraitser, uma versão atualizada da Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas, exigindo a sentença antes de pronunciar o veredito. Foi uma farsa judicial. Não tinha base legal para deter Julian. Não tinha base legal para julgá-lo, um cidadão australiano, de acordo com a lei de Espionagem dos EUA. A CIA espionou Julian na embaixada por meio de sua empresa espanhola, UC Global, contratada para fornecer segurança à embaixada. Essa espionagem incluiu a gravação de conversas privilegiadas entre Julian e seus advogados enquanto discutiam sua defesa. Somente esse fato invalidou o julgamento. Julian está detido em uma prisão de segurança máxima para que o estado possa, como testemunhou Nils Melzer, Relator Especial da ONU sobre Tortura, continuar com os abusos e torturas que ele espera levar à desintegração psicológica e, talvez, até física de Assange.

O governo dos EUA orientou, como documentou Craig Murray, o promotor londrino James Lewis. Lewis apresentou essas diretrizes para Baraitser. Ela então as adotou como sua decisão legal. Foi uma mímica judicial. Lewis e a juíza insistiram que não estavam tentando criminalizar jornalistas e amordaçar a imprensa enquanto estabeleciam a estrutura legal para criminalizar jornalistas e amordaçar a imprensa. E é por isso que o tribunal trabalhou tão duro para esconder os procedimentos do público, limitando acesso ao tribunal para somente alguns observadores e tornando difícil, às vezes impossível, para acessar o julgamento online. Foi um julgamento midiático de mau gosto, não um exemplo do melhor da jurisprudência inglesa.

Agora, eu sei que muitos de nós hoje gostariam de se considerar como radicais, talvez até revolucionários. Mas o que estamos exigindo no espectro político é, na realidade, conservador, é a restauração do estado de direito. É simples e básico. Não deveria ser incendiário, em uma democracia em pleno funcionamento. Mas viver a verdade em um sistema déspota é o ato supremo de rebeldia. Essa verdade aterroriza os que estão no poder.

Os arquitetos do imperialismo, os mestres da guerra, o legislativo controlado pelas corporações, os braços executivos e judiciários do governo e seus aduladores membros da corte na imprensa, são ilegítimos. Diga essa mera verdade e você será banido, como muitos de nós foram, para as margens da paisagem midiática. Prove essa mentira, como Julian, Chelsea Manning, Jeremy Hammond e Edward Snowden fizeram, nos permitindo espiar dentro do maquinário do poder, e você será caçado e perseguido.

Logo após o WikiLeaks divulgar os documentos da Guerra do Iraque em outubro de 2010, que documentaram diversos crimes de guerra estadunidenses – incluindo vídeos do assassinato de dois jornalistas da Reuters e outros 10 civis desarmados no vídeo Assassinato Colateral, a rotina de tortura dos prisioneiros iraquianos, o encobrimento de milhares de mortes de civis e a morte de quase 700 civis que haviam se aproximado demais de postos de controle dos EUA – os advogados de direitos civis Len Weinglass e meu bom amigo Michael Ratner, quem eu, mais tarde, acompanhei em uma visita à Julian na embaixada equatoriana, se encontraram com Julian em um apartamento no centro de Londres. Os cartões bancários de Julian haviam sido bloqueados. Três laptops criptografados com documentos detalhando crimes de guerra estadunidenses haviam desaparecido de sua mala no trajeto para Londres. A polícia sueca estava fabricando um caso contra ele em uma ação, como alertou Ratner, que era sobre extraditar Julian para os EUA.

“O WikiLeaks e você estão pessoalmente enfrentando uma batalha que é legal e política”, Weinglass disse a Assange. “Como vimos no caso dos “Pentagon Papers”, o governo dos EUA não gosta que a verdade venha à tona. E não gosta de ser humilhado. Não importa se for com Nixon, Bush, Obama, Republicano ou Democrata na Casa Branca. O governo dos EUA tentará te impedir de publicar seus segredos horrendos. E se eles têm que destruir você e os direitos da Primeira Emenda e os direitos dos editores, estão dispostos a fazê-lo. Nós acreditamos que eles irão atrás de você, Julian, como a pessoa que publicou tudo e atrás do WikiLeaks.”

“Virão atrás de mim porque?” perguntou Julian.

“Espionagem”, continuou Weinglass. “Eles vão acusar Bradley Manning de traição sob a lei de Espionagem de 1917. Não achamos que se aplica a ele porque ele é um denunciante, não um espião. E, também, não achamos que se aplica a você porque você é quem publicou. Mas eles vão tentar forçar Manning a te implicar como colaborador.”

“Virão atrás de mim porque?”

Essa é a pergunta.

Eles vieram atrás de Julian não por causa dos seus vícios, mas sim por suas virtudes.

Vieram atrás de Julian porque ele expôs as mais de 15.000 mortes não reportadas de civis iraquianos; porque expôs a tortura e abuso de cerca de 800 homens e meninos, entre 14 e 89 anos, em Guantanamo; porque expôs que Hillary Clinton em 2009 ordenou que diplomatas estadunidenses espionassem o Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, e outros representantes da ONU da China, França, Rússia e do Reino Unido, espionagem que incluiu a obtenção de DNA, escaneamento de íris, digitais e senhas pessoais, parte do longo padrão de vigilância ilegal que incluía a espionagem do Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, semanas antes da invasão do Iraque em 2003, liderada pelos EUA; porque expôs que Barack Obama, Hillary Clinton e a CIA orquestraram o golpe militar de junho de 2009 em Honduras que derrubou o democraticamente eleito presidente Manuel Zelaya, o substituindo por um regime militar corrupto e assassino; porque expôs que George W. Bush, Barack Obama e o general David Petraeus perseguiram uma guerra no Iraque que, de acordo com leis pós-Nuremberg, é tida como uma guerra criminosa de agressão, um crime de guerra, na qual autorizaram centenas de assassinatos selecionados, incluindo os de cidadãos estadunidenses no Iêmen, e na qual eles secretamente lançaram ataques com míssil, bombas e drones no Iêmen, matando muitos civis; porque ele expôs que a Goldman Sachs pagou 657.000 dólares para Hillary Clinton conceder palestras, uma quantia tão grande que só pode ser considerada propina, e que ela assegurou a líderes corporativos que aprovaria suas licitações enquanto prometia regulações e reformas financeiras públicas; porque ele expôs a campanha interna para descreditar e destruir Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico, por membros do seu próprio partido; porque ele expôs como as ferramentas de hackeamento usadas pela CIA e pela Agência Nacional de Segurança permitem a vigilância governamental das nossas televisões, computadores, celulares e softwares anti-virus, permitindo que o governo grave e guarde nossas conversas, imagens e mensagens pessoais, mesmo em aplicativos criptografados.

Julian expôs a verdade inúmeras vezes até que não houvesse dúvidas sobre a ilegalidade, corrupção e mentira endêmicas que definem a elite global. E, por essas verdades, eles foram atrás dele, como foram atrás de todos que ousaram rasgar o véu do poder. “A Rosa vermelha agora foi extinguida também...” escreveu Bertolt Brecht após o assassinato da socialista alemã Rosa Luxemburgo. “Ela contou aos pobres como é a vida. Então os ricos a mataram.”

Nós passamos por um golpe corporativo, no qual os pobres e trabalhadores foram reduzidos ao desemprego e a fome, no qual a guerra, a especulação financeira e a vigilância interna são os únicos negócios verdadeiras do estado, no qual até mesmo o habeas corpus não existe mais, no qual nós, enquanto cidadãos, não somos mais do que commodities para os sistemas corporativos de poder, pessoas que podem ser usadas, depenadas e descartadas. Carregar a marca de Caim é se recusar a contra-atacar, a ajudar os fracos, os oprimidos e os que sofrem, a salvar o planeta do ecocídio, a condenar os crimes nacionais e internacionais da classe dominante, a exigir justiça, a viver com a verdade. Aqueles no poder devem sentir nossa ira, e isso significa atos constantes de desobediência civil em massa, significa atos constantes de perturbação social e política, porque o poder organizado vindo de baixo é o único poder que nos salvará e que libertará Julian. A política é o jogo do medo. É o nosso dever cívico e moral amedrontar os que estão no poder.

A classe dominante criminosa nos mantém presos em seu domínio mortal. Não pode ser reformada. Aboliu o estado de direito. Falsifica e obscurece a verdade. Busca a consolidação dos seus obscenos poder e riqueza. E, por isso, parafraseando a Rainha de Copas, metaforicamente, eu digo, “que arranquem as cabeças”.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

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