Pegasus ataca novamente: Grupo NSO, software de espionagem e direitos humanos

 

28/07/2021 17:18

(Don Relyea)

Créditos da foto: (Don Relyea)

 
Eles insistem que não fazem. Mas empresas como o grupo israelense NSO são vendedores globais de ferramentas de vigilância, de qualquer cor ou forma, para regimes espionarem as pessoas que julgam serem de interesse. As revelações de 2013 feitas por Edward Snowden que expuseram o mundo da vigilância em massa conduzida por entidades como a Agência Nacional de Segurança dos EUA e a GCHQ do Reino Unido, causaram uma corrida global em direção à criptografia. Governos, deixados a tatear no escuro, buscaram fornecedores privados de aparelhos de vigilância em um mercado não regulamentado. Eles não somente conseguiram softwares eficazes; também conseguiram por preços acessíveis.

O Grupo NSO foi um dos fornecedores. Analisa que sua missão foi algo nobre, se vendendo como criador da “tecnologia que ajuda agências de governos a prevenir e investigar terrorismo e crimes para salvar milhares de vidas ao redor do mundo”.

A empresa também enfatiza sua missão de buscar por aqueles “terroristas” e “criminosos” que sumiram. “Os criminosos mais perigosos do mundo se comunicam usando tecnologias produzidas para blindar suas comunicações, enquanto a inteligência dos governos e as forças de segurança lutam para coletar evidências e inteligência sobre suas atividades”. O grupo insiste que seus “produtos ajudam agências de inteligência governamentais e forças de segurança a usarem tecnologias para alcançar os desafios da criptografia para prevenir e investigar o terror e o crime”.

A rede “Forbidden Stories”, uma rede de jornalistas com a missão de “proteger, perseguir e publicar o trabalho de outros jornalistas que lidam com ameaças, prisão ou assassinato”, vê as coisas de modo diferente. Um dos tópicos mais predominantes é o projeto Pegasus, uma iniciativa coletiva de jornalismo de proporções globais coordenada pelo Forbidden Stories e pelo Laboratório de Segurança da Anistia Internacional. Seu principal propósito: expor as depredações do software de espionagem Pegasus, o filho de ouro do Grupo NSO.

O Pegasus é uma coisa um tanto cruel, permitindo àqueles que o utilizam acesso a conteúdos de celulares e remotamente acessar funções de microfone e câmera, transformando o aparelho em um de vigilância. Recebeu um pouco de notoriedade quando, em 2018, foi revelado que o dissidente saudita, Omar Abdulaziz, havia sido uma das vítimas. Abdulaziz alegou que a comunicação com o jornalista Jamal Khashoggi, esquartejado por um grupo de assassinos sauditas em Istambul em outubro de 2018, foi interceptada pelas autoridades sauditas por causa do software. Seus advogados argumentaram que o hackeamento “contribuiu de um modo significativo para a decisão de assassinar o Sr. Khashoggi”.

Em 18 de julho, Phineas Rueckert da Forbidden Stories revelou que cerca de 180 jornalistas haviam sido selecionados como alvos por 10 clientes do NSO em 20 países. Ele começa com a jornalista investigativa do Azerbaijão, Khadija Ismayilova, cujo celular foi “regularmente infectado com o Pegasus” por quase três anos. Ismayilova ficou chocada em saber como a segurança do celular dela havia sido comprometida. “Me sinto culpada pelas mensagens que enviei. Me sinto culpada pelas fontes que me enviaram informações pensando que alguns jeitos criptografados de enviar mensagens são seguros e eles não sabiam que meu celular estava infectado.”

Os detalhes então foram fornecidos. Tanto a rede “Forbidden Stories” quanto a Anistia Internacional receberam acesso a um vazamento de mais de 50.000 gravações de números de celulares selecionados por clientes do NSO por motivos de vigilância. Os clientes são variados, desde os autocratas – no Barém, Marrocos e Arábia Saudita – até os mais democráticos, como na Índia e no México. O Grupo NSO, em uma carta para a rede, alegou que não podia “confirmar ou negar a identidades dos nossos clientes governamentais” por “considerações contratuais e de segurança nacional”. Rueckert admite que identificar momentos nos quais o número específico foi comprometido seria difícil, ao invés de analisar o aparelho. Mas com a assistência do Laboratório Internacional de Segurança da Anistia Internacional, “a análise forense dos celulares de mais de uma dúzia desses jornalistas – e 67 telefones no total – revelaram infecções exitosas através de uma falha de segurança em iPhones nesse mês mesmo”.

O projeto Pegasus é significativo para revelar a escala da espionagem. O The Guardian, um veículo de imprensa colaborador, promete revelar mais detalhes sobre alvos que “incluem advogados, defensores de direitos humanos, figuras religiosas, acadêmicos, homens e mulheres de negócios, diplomatas, oficiais governamentais sênior e chefes de Estado”. No momento da escrita desse texto, um detalhe importante veio à tona: o Marrocos supostamente utilizou o Pegasus para espionar o presidente francês Emmanuel Macron.

O relatório da rede “Forbidden Stories” foi arrogantemente desconsiderado pelo grupo NSO. O motivo foi “a quantidade de presunções erradas e teorias não embasadas que levantam sérias dúvidas sobre a confiabilidade e interesses das fontes”. A empresa se esquiva do assunto sugerindo que a informação reunida sobre os indivíduos em questão poderia ter sido obtida por meio de outros serviços. “As alegações de que os dados foram vazados dos nossos servidores, é uma mentira completa e ridícula já que tais dados nunca existiram em nossos servidores.”

Em relação ao assassinato de Khashoggi, defesas antigas ressurgem. “Podemos confirmar que nossa tecnologia não foi usada para ouvir, monitorar, rastrear, ou coletar informações sobre ele ou seus familiares mencionados no inquérito. Já investigamos essa alegação, que, novamente, está sendo feita sem validação.”

Para uma empresa como o Grupo NSO, tais refutações provaram ser insignificantes. Processos contra o NSO apresentados em Israel e no Chipre por um cidadão do Qatar e por jornalistas mexicanos em 2018 revelaram evidências extensivas sobre a cumplicidade da empresa com a vigilância ilegal. O NSO também não conseguiu descartar o processo de Abdulaziz, e foi ordenado a pagar seus custos legais, com o juiz Guy Hyman chamando o caso de “amplo, especialmente no tocante às raízes dos valores constitucionais e direitos fundamentais”. Em 2019, o WhatsApp iniciou uma ação contra a empresa, alegando que o Pegasus teria selecionado 1.400 usuários como alvos. Para Will Cathcart, chefe do WhatsApp, o relatório do projeto Pegasus revelou “o que nós e outros viemos dizendo há anos; o software de espionagem perigoso do NSO é usado para cometer terríveis violações aos direitos humanos em todo o mundo e deve ser parado”.

O projeto Pegasus iluminou mais ainda a revolta do governo contra a criptografia, facilitada por empresas privadas. Sem regulamentação, o Grupo NSO e seus competidores podem operar com desdenho e competência imoral. David Kaye, ex relator especial da ONU sobre a promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e expressão, sabiamente pediu um moratório na venda do software, descrevendo uma indústria “fora de controle, sem responsabilidade e sem limites no fornecimento aos governos de acesso relativamente barato ao tipo de ferramentas de espionagem que somente os serviços de inteligência mais avançados tinham anteriormente a permissão para usar”. Controle, responsabilidade e limites nunca estiveram presentes nos manuais de operação do Grupo NSO.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares





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