Testemunho de um tempo de mudanças, Fronteiras do Pensamento 2019 propõe reflexão sobre 'sentido da vida'

Ciclo de conferências iniciado em Porto Alegre em 2007 chega a sua 13ª edição com atividades na capital gaúcha e em São Paulo. Abertura acontece em 13 de maio, quando a ativista moçambicana Graça Machel sobe ao palco do Salão de Atos da Ufrgs

26/04/2019 10:53

 

 
O ano era 2007, a rede social era o Orkut, o iPhone estava sendo inventado e Lula começava seu segundo mandato como presidente do Brasil. Em Porto Alegre, a cidadania se mobilizava contra um projeto imobiliário chamado Pontal do Estaleiro, que prescindia de uma mudança nas regras construtivas da cidade para erguer espigões às margens do rio Guaíba - hoje, na iminência de serem construídos.

Naquele ano, a Copesul - Companhia Petroquímica do Sul, que viria a ser incorporada pela Braskem - tinha à sua frente um entusiasta das artes chamado Luiz Fernando Cirne Lima. Um homem que justificava os frequentes aportes ao setor cultural dizendo que num ambiente esclarecido, se faziam melhores negócios.

Foi assim que nasceu o Fronteiras do Pensamento: em uma cidade pulsante que abraçou o evento, num país interessado em debater a si mesmo e em se integrar ao mundo.

Naquele primeiro ano, as rodadas de conferências aconteciam todas as semanas, por isso, ao todo 38 intelectuais do mais alto prestígio e de todos os cantos do planeta falaram à população, que se sentia à vontade para perguntar ao final das palestras e até interpelar algum participante pelos corredores do Salão de Atos da Ufrgs.

Entre 20 de março e 4 de dezembro, todas as noites de terça-feira se estendiam até mais tarde porque a conversa não terminava quando o público deixava suas cadeiras: muitas vezes havia sessões de autógrafos no hall do teatro, e as provocações acumuladas durante as conferências seguiam com os participantes nas mesas de bar, voltando na semana seguinte, quando seriam então atravessadas pelas falas que estavam por vir.

Com a aquisição da Copesul pela Braskem, concretizada ao longo daquele primeiro ano de Fronteiras, o evento chegou a estar ameaçado. Mas embora tenha sido enxugado - em 2019 serão oito palestrantes apenas - houve o inegável mérito de ter se espalhado para outras cidades brasileiras. Salvador chegou a receber conferências em algumas edições e hoje a capital gaúcha divide a sede oficial do evento com São Paulo. O Fronteiras em sua versão atual faz menos barulho que aquele inicial, mas mantém Porto Alegre interessada - prova disso é que em mais de uma ocasião, no ano passado, as conferências tiveram lotação esgotada.

Na temporada 2019, que se inicia em 13 de maio, a proposta é bem intimista: debater “os sentidos da vida”, uma ideia que partiu da provocação do filósofo italiano (atualmente morando no Brasil) Contardo Calligaris, que disse em entrevista: “não quero ser feliz, quero é ter uma vida interessante”.

O próprio Calligaris virá a Porto Alegre, pela primeira vez dentro do Fronteiras, para explicar melhor sua proposição. Ele já participou do evento em 2013, em uma das poucas edições que ocorreram em Salvador, mas fará sua estreia na capital gaúcha e berço do ciclo de conferências.

A primeira convidada do evento em 2019, entretanto, será a ativista moçambicana Graça Machel. Ela é usualmente apresentada como a viúva de Nelson Mandela, mas sua participação no Fronteiras tem o compromisso de apresentar sua trajetória pessoal, incluindo a convivência com o líder sul-africano, mas indo além dela. “Ela tem uma história interessantíssima”, assegura o curador do Fronteiras, Fernando Schüller. Foi ministra da educação em Moçambique e na África do Sul e hoje está à frente de uma fundação dedicada a desenvolver o empreendedorismo feminino no continente africano.

A outra mulher convidada desta edição é a astrofísica norteamericana Janna Levin, definida por Schüller como “uma popularizadora da ciência”. Ela vai falar sobre seus temas de estudo, os buracos negros - recentemente, pesquisadores conseguiram divulgar a primeira fotografia do fenômeno, considerada um grande passo na história da ciência. De Levin, salienta o curador do Fronteiras, podemos esperar uma abordagem sobre “a obstinação pela busca verdade” e uma reflexão sobre que classe de satisfação isso traz ao indivíduo contemporâneo.

As artes estarão representadas no palco do Fronteiras do Pensamento por dois nomes que dispensam apresentações: o escritor norteamericano Paul Auster, autor de best sellers mundiais, e o cineasta alemão Werner Herzog, cuja obra mais lembrada é Nosferatu.

O médico congolês Denis Mukwege retorna à capital gaúcha nove anos depois de sua conferência sobre direitos humanos, em 2010. NO ano passado, recebeu o Prêmio Nobel da Paz pela obra que irá apresentar no ciclo: um hospital para mulheres mutiladas pela guerra. “Ele é um herói contemporâneo, que tem muito a nos dizer porque sofre de todos os dramas que sofremos mesmo tendo essa vida heroica”, observa Schüller.

Já o inglês Roger Scruton, apresentado pelo próprio evento como um polemista, deverá provocar bons debates na plateia com seu ponto de vista conservador sobre a filosofia, a política e a estética.

A palestra que encerra a edição 2019 será, coincidentemente, daquele a quem coube a honrosa tarefa de inaugurar o ciclo do Fronteiras, 13 anos atrás. O ex-ministro da educação da França, Luc Ferry, que em 2007 defendeu veementemente a filosofia como uma alternativa à religião como solução para uma vida plena. Segundo o francês, ambas tem uma matriz em comum, que é a busca de soluções aos problemas da humanidade. “O problema é que no caso da religião, nada é demonstrável, somos obrigados a confiar em uma promessa e não a buscar, pela razão, uma saída”, ele disse, na época, defendendo uma “espiritualidade laica”, tema que deverá retomar este ano.

A Carta Maior vai acompanhar o ciclo de palestras, com cobertura de todas as conferências em Porto Alegre. Para quem quiser conferir ao vivo, os pacotes de ingressos que dão direito a acompanhar as oito noites custam R$ 1880 (inteira) e podem ser adquiridos através do site www.fronteiras.com ou nos pontos de venda, na capital gaúcha e em São Paulo. O interesse até o momento é alto: quase 70% dos passes já foram vendidos.

Datas e convidados

GRAÇA MACHEL (Moçambique, 1945) - Política e ativista pelos direitos humanos moçambicana
Em territórios pobres e carentes de investimentos e de direitos humanos, Graça Machel defende ações pela educação das crianças e pelo empreendedorismo de mulheres. Viúva de Nelson Mandela, Machel se espelha na própria trajetória para mudar outras vidas no continente africano.
Porto Alegre: 13 de maio
São Paulo: 15 de maio

PAUL AUSTER (Estados Unidos, 1947) - Escritor norte-americano
Nova York é o cenário dos livros de Paul Auster. A grande metrópole, com seus habitantes e dramas, está nos romances que trazem reflexões existenciais, paradoxos e coincidências. Best-seller e consagrado ficcionista norte-americano, Auster é um escritor para ser lido e celebrado.
Porto Alegre: 17 de junho
São Paulo: 19 de junho

ROGER SCRUTON (Reino Unido, 1944) - Filósofo britânico
Intelectual que analisa as grandes correntes do pensamento ocidental, Roger Scruton é autor de obras sobre filosofia, política e estética. Professor na Inglaterra e nos Estados Unidos, Scruton é um dos expoentes do pensamento conservador contemporâneo e grande polemista.
Porto Alegre: 01 de julho
São Paulo: 03 de julho

DENIS MUKWEGE (Congo, 1955) - Médico congolês
No Congo, país marcado por conflitos e desigualdade, o médico Denis Mukwege criou o Hospital de Panzi e passou a atuar em nome da saúde e da dignidade de mulheres vítimas de violência sexual. Prêmio Nobel da Paz de 2018, Mukwege tem uma trajetória que emociona e inspira.
Porto Alegre: 19 de agosto
São Paulo: 21 de agosto

JANNA LEVIN (Estados Unidos, 1967) - Física teórica e astrônoma norte-americana
Com os olhos voltados para o vasto espaço acima de nós, o trabalho de Janna Levin busca compreender os buracos negros e as ondas gravitacionais no espaço-tempo. Professora de física e astronomia, Levin escreve sobre a obstinação do homem em desvendar os mistérios do universo.
Porto Alegre: 02 de setembro
São Paulo: 04 de setembro

WERNER HERZOG (Alemanha, 1942) - Cineasta alemão
Um dos principais nomes do movimento cinematográfico na Alemanha do pós-guerra, o cineasta Werner Herzog tem uma obra densa e controversa. Com filmes e documentários, como Aguirre, Fitzcarraldo, Nosferatu e O homem-urso, Herzog é um diretor que retrata o misticismo, o desconhecido e a tragédia no mundo.
Porto Alegre: 23 de setembro
São Paulo: 25 de setembro

CONTARDO CALLIGARIS (Milão, 1948) - Psicanalista e escritor italiano
A trajetória de Contardo Calligaris é marcada pela reflexão sobre a existência humana. No consultório de psicanálise ou em seus textos e livros, Calligaris aborda as questões da adolescência e as angústias provocadas pelos desafios contemporâneos.
Porto Alegre: 21 de outubro
São Paulo: 23 de outubro

LUC FERRY (França, 1951) - Filósofo francês
Na Europa das migrações e do multiculturalismo, Luc Ferry é um defensor do humanismo secular e da espiritualidade laica. Escritor, professor e ex-ministro da Educação na França, Ferry trouxe a filosofia de volta ao cotidiano, com linguagem e abordagem mais acessíveis.
Porto Alegre: 11 de novembro
São Paulo: 13 de novembro



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