Torturados relatam histórias dramáticas em ato em SP

01/04/2004 00:00

São Paulo – O que havia sido programado como uma homenagem a opositores da ditadura, seguida de debate sobre o golpe de 64, acabou se transformando, na noite deste dia 31, em um testemunho coletivo sobre os horrores da tortura, sobre perdas e sobre a “imortalidade do espírito de luta”. Articulado pelo coletivo de entidades que organiza o Fórum Mundial de Educação de São Paulo – que começou nesta quinta-feira (1º) e segue até domingo (4) –, o ato “40 anos de luta pela democracia: lembrar para aprender” reuniu militantes de base, como o sindicalista Waldemar Rossi e Francisco de Oliveira Prado, o Chicão, coordenador do Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, artistas, como Lélia Abramo, Sergio Mamberti e José Celso Martinez, vários vereadores, deputados estaduais e federais, como Luis Eduardo Greenhalgh, militantes da Igreja, como Frei Betto, e dos movimentos sociais, como Felinto Procópio, o Mineirinho, coordenador do setor de Direitos Humanos do MST.

Primeiro a se pronunciar, o assessor especial da presidência Frei Betto deu um testemunho emocionado sobre a história de Frei Tito, frade dominicano preso e torturado pela Operação Bandeirantes no início dos anos 70. “Ele teve o corpo queimado com cigarro, bateram a cabeça dele na parede, ficou muito tempo na cadeira de dragão (cadeira de ferro utilizada que facilitava a tortura com choques elétricos). Mas ele não falou. Queriam que ele assinasse um documento que dizia que nós [dominicanos] tínhamos participado de assaltos a bancos”. Segundo Betto, as torturas sofridas por Tito acabaram causando um trauma psicológico tão profundo (“morou no Chile, na França, mas sempre esteve obcecado pela idéia de que os torturadores estavam chegando, que [o delegado] Fleury estava em todos os lugares”) que acabou cometendo suicídio. “Tinha dito que preferia morrer a perder a vida”.

Tema renitente durante o ato, a prática da tortura e sua persistência nos dias de hoje foi duramente criticada pelos depoentes. Também vítimas da Operação Bandeirantes, o ex-preso político Chicão afirmou que, além de relembrar, é preciso combater o uso da tortura em instituições públicas de hoje. “É inadmissível que essa prática ainda persista no país. Que governo incompetente é esse que precisa da tortura para arrancar confissões nas cadeias? Sob tortura se fala qualquer coisa, qualquer coisa!”.

Ativo do lado de cá das grades desde 1972 como advogado de presos políticos, Greenhalgh lembrou da importância da atuação de colegas como José Carlos Dias, Iberê Bandeira de Melo, Tales Castelo Branco e outros. Lembrou que, como ele na época da faculdade, grande parte dos advogados não envolvidos diretamente com a resistência não acreditavam nos relatos sobre tortura nos porões da ditadura. “Até que fui defender Wladimir Pomar, Haroldo Lima e Aldo Arantes, sobreviventes da Chacina Casa da Lapa (onde integrantes do PCdoB que se reuniam foram surpreendidos e assassinados por membros da repressão). O Aldo não conseguia sequer sentar. Tinha marcas de cigarro pelo corpo, a orelha queimada... Foi a primeira vez que vi alguém depois de ser torturado. Também tive que contar para o Wladimir que seu pai, Pedro Pomar, estava morto, não tinha sobrevivido à chacina”. Para o atual deputado federal, a ação dos advogados de presos políticos foi parte essencial da história da resistência. “Quando, a partir de 74, iniciamos a campanha pela anistia geral, ampla e irrestrita, o governo começou a ceder ante a pressão popular, mas ainda estava longe daquilo que queríamos. Na época, o relator do projeto de anistia parcial do governo era o senador Teotônio Vilela, e havia uma grande resistência por parte dos parlamentares em anistiar ‘terroristas’. Um dia conseguimos convencer Vilela a visitar os presos, deixamos que ele conversasse sozinho com eles, e quando o senador saiu da cadeia havia se transformado em um dos principais defensores da anistia”, conta Greenhalgh.

Passado e presente
Relacionar passado e presente do processo de resistência ao projeto neoliberal – como é chamada hoje a ofensiva capitalista – é um desafio importante para a militância. “A elite deste país tem uma capacidade incrível para fazer com que nos esqueçamos da história. Lembrar é manter viva a nossa memória”, Afirmou Mineirinho. Para Sergio Mamberti, é importante lembrar da ditadura com repúdio, mas com um olhar atento porque o processo de construção dessa sociedade justa e solidária ainda não se concretizou. “Nas últimas semanas, houve um tentativa clara de desestabilização do governo. Forças que sempre nos impediram de realizar nosso sonho ainda estão aqui, conspirando”, disse Mamberti, numa referência aos recentes desdobramentos do caso Waldomiro Diniz. Já José Celso Martinez, lendário diretor do grupo de teatro Oficina, foi mais radical em sua conclamação. “Os militares fizeram um serviço porco que permitiu a instalação da ditadura e tudo o que veio depois. Hoje vivemos uma democracia, mas não podemos nos fiar apenas em representantes. Eu não acredito em representação nem no teatro, quanto mais na política. Quem faz a política somos nós”.

Juventude indignada
O caráter do ato do dia 31, ocorrido em um dos auditórios menores do Centro de Convenções do Anhembi – complexo grudado ao sambódromo de São Paulo – e pouco divulgado e acorrido, desagradou a alguns grupos de jovens, articulados nas chamadas Organizações Autônomas (ligadas aos movimentos de rádios livres, informação independente, centros culturais do ABC paulista, coletivos de ativismo antiglobalização, moradia etc). “Acho um absurdo que essa data não seja marcada por grandes manifestações de rua, como ocorreu na Argentina, que reuniu mais de 50 mil manifestantes há poucos dias no aniversário do golpe no país. Parece que a ditadura foi esquecida, vimos apenas alguns intelectuais debatendo aspectos específicos, o presidente Lula diz que o golpe é página virada, e o que vemos são antigos presos políticos se confraternizando com figurões da ditadura no governo. Como pode o Zé Dirceu, o próprio Lula, estarem lado a lado com Antonio Carlos Magalhães e Romeu Tuma? A UNE não vai mais às ruas, a desmobilização é total”, desabafa Pablo Ortelado, membro do Centro de Mídia Independente. Para marcar posição e organizar pelo menos uma atividade de rua, as Organizações Autônomas fizeram uma marcha fúnebre no centro de São Paulo neste dia primeiro de abril.



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