Um “Hijo” assume a Secretaria de Direitos Humanos da Argentina

15/05/2012 00:00

Laura Vales - Página/12

Buenos Aires - Martín Fresneda assume nesta tarde como secretário de Direitos Humanos. Filho de desaparecidos, o novo titular da secretaria foi, quando criança junto com seu irmão, testemunha do sequestro de seus pais durante a chamada “Noite das Gravatas”. É advogado e, na província onde se instalou – Córdoba – foi denunciante em vários dos processos pelos crimes cometidos pelo terrorismo de Estado.

A presidenta Cristina Kirchner o empossa hoje para substituir o falecido Eduardo Luis Duhalde. O novo secretário já era parte da administração kirchnerista em sua província, onde estava encarregado da Administração Nacional de Seguridade Social (ANSES) local. Nas eleições do ano passado havia sido também parte da camada de jovens que ingressaram nas listas de deputados da Frente para a Vitória. Em seu caso, como a liderança mais conhecida em nível cordobês da agrupação juvenil La Jauretche. Seu nome ocupou o quinto lugar na lista de legisladores nacionais do FpV.

Fresneda foi um dos fundadores da agrupação H.I.J.O.S. em Córdoba, e vem de uma história política que em sua origem não teve que ver tanto com o peronismo, mas principalmente com os movimentos e organizações sociais dos anos 90, com os conflitos que tocou viver à sua geração. Hoje tem 37 anos. Estava fazendo o ensino médio em Catamarca quando mataram María Soledad Morales, que tinha sua idade. Assim fez suas primeiras atividades militantes nas marchas do silêncio. Ao terminar o colégio se mudou para Córdoba para estudar Direito. Na Universidade se somou à Coordenadora Antirrepressiva Unidos. Depois foi parte da Universidade Trashumante, uma experiência de inspiração zapatista que durante a crise de 2001 recorreu o país com um ônibus, fazendo educação popular.

Fresneda já havia participado da criação da H.I.J.O.S./Córdoba quando foram revogadas as leis de Obediência Devida e Ponto Final. Como advogado, se dedicou à reabertura dos processos por delitos de lesa humanidade. Foi denunciante nos três primeiros que foram reabertos na província e nos quais foram condenados Luciano Benjamím Menéndez e Jorge Rafael Videla. Nesse caminho foi que aderiu organicamente ao kirchnerismo, depois de conhecer Néstor Kirchner ao fazer uma gestão ante o então presidente para pedir equipamentos destinados ao reconhecimento de restos de desaparecidos. No ano passado, em Mar del Plata, finalmente chegaria a possibilidade de levar a julgamento o caso envolvendo o desaparecimento de seus pais.

Tomás Fresneda e sua esposa, María de las Mercedes Argañaraz, foram sequestrados em julho de 1977, durante a chamada “Noite das Gravatas”, uma série de operações com as quais a ditadura fez desaparecer um grupo de advogados trabalhistas de Mar del Plata. Ele havia militado na Juventude Peronista, mas havia se tornado um incômodo por representar trabalhadores e comissões sindicais.

Os Fresneda tinham dois filhos, Ramiro e Martín. María de las Mercedes esperava o terceiro: no momento do sequestro estava no quinto mês de gravidez.

As crianças, que tinham quatro e dois anos, nessa noite presenciaram a operação. Foram tirados de casa junto com sua mãe e, como na verdade quem procuravam era o pai, levaram todos ao escritório jurídico, onde Fresneda se apresentou e se entregou desarmado, sabendo que eles tinham a sua família. Pelo testemunho de sobreviventes, anos mais tarde se soube que o casal foi levado à La Cueva, o centro clandestino de detenção que funcionou na Base Aérea de Mar del Plata. O filho de María de las Mercedes ainda não foi restituído.

Os meninos ficaram com seus avós e depois foram criados por uma tia, em Catamarca. Os dois estudaram Direito. Na semana passada foram chamados para depor como testemunhas no julgamento que prossegue em Mar del Plata pela desaparição – entre outros casos – de seus pais, e no qual são acusados 16 policiais e militares que atuaram nos centros clandestinos de Mar del Plata e Necochea. Ramiro, que é o maior, disse que nunca se esqueceu da imagem de sua mãe agarrando-se ao marco de uma porta para que não a levassem. Martín, que tinha dois anos e meio, fez um relato segundo a reconstrução que puderam fazer nos anos seguintes.

A gestão de Eduardo Luis Duhalde frente à Secretaria de Direitos Humanos teve como um de seus eixos centrais dar o apoio do Estado ao desenvolvimento dos processos contra os repressores. A secretaria conseguiu, para isto, habilitação para apresentar-se como parte denunciante nos processos, um ponto especialmente importante para que, nos lugares com pouca organização local, os processos não fossem freados por falta de impulso. Agora, junto com a continuidade dessa linha, a intenção seria reforçar as políticas de restituição de identidade e de restituição dos restos dos desaparecidos, como um modo de ir completando os objetivos de reparação possíveis aos crimes da ditadura.

A nomeação do sucessor de Duhalde levou mais de um mês. Após aceitar a designação, Fresneda manteve-se discreto e preferiu não fazer declarações públicas. Fará o juramento na tarde desta terça-feira, depois das 17h30min, com o acompanhamento dos organismos de direitos humanos.

Tradução: Libório Junior

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