Um ano sem Marielle Franco: quem mandou matá-la?

Neste 14 de março, o Rio de Janeiro recorda o aniversário da morte por assassinato da vereadora feminista, uma das líderes do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e ativista pelos direitos humanos. O delito já conta com duas detenções, mas a pergunta sobre quem ordenou o crime continua sem resposta.

14/03/2019 09:24

 

 
“ Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. (…) Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

Isso foi o que escreveu Marielle Franco em sua conta de twitter na noite de 13 de março de 2018. Menos de 24 horas depois, o carro onde estavam ela, sua assessora e seu motorista foi interceptado por outro veículo, de onde saíram 13 disparos que terminaram com sua vida e a de Anderson Gomes.

Neste 14 de março, o Rio de Janeiro recorda o aniversário da morte por assassinato da vereadora feminista, uma das líderes do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e ativista pelos direitos humanos. É curioso que justo nesta semana aconteça a prisão das primeiras pessoas formalmente denunciadas por sua participação no crime: se trata de Ronnie Lessa e Élcio de Queiróz, ambos ex-sargentos da Polícia Militar (a mesma que foi criticada em um dos últimos tuítes de Marielle) que também são acusados de ligação com o grupo paramilitar “Escritório do Crime”, que poderia ter realizado o assassinato por ordem de terceiros.

Saber se o grupo paramilitar atuou por seus próprios interesses ou se foi contratado para assassinar a vereadora (e se é correta a segunda hipótese, saber quem os contratou e que interesses tinhas em sua morte), é a principal dúvida que resta para terminar de entender o caso que levou o Brasil a perder uma de suas políticas com maior futuro.

As investigações

O El Desconcierto conversou com a assessora Fernanda Chaves, que vive até hoje os efeitos daquele atentado. Ela não revela detalhes de sua vida atual por questões pessoais, mas afirma que, de longe, não tem sido fácil escutar todos os meses que a verdade está cada vez mais próxima, e já se passou um ano sem que saibamos ainda quem são os principais responsáveis”.

Chaves também lamenta que sua situação a tenha impedido de entregar seu último adeus a quem foi sua chefa e amiga. “O mais doloroso foi não poder participar do velório, das missas, das homenagens. Tive que viver esse luto de longe, o que torna mais duro enfrentar a perda, sem poder dar meu abraço nos pais da Marielle, e na Ágata (viúva de Anderson Gomes)”.

Se passaram muitos meses desde o assassinato, até que em janeiro deste ano surgiram as primeiras respostas relacionadas com o crime, após a prisão de cinco membros da milícia conhecida como “Escritório do Crime”. Essa primeira detenção ocorreu poucos meses depois que as investigações passaram às mãos das promotoras Letícia Emile e Simone Sibílio, o que ocorreu após as queixas de familiares das vítimas pela falta de avanços na solução do caso.

Dos cinco detidos em janeiro surgiram os primeiros nomes de suspeitos de participar no crime. Um deles seria Adriano Magalhães da Nóbrega, um ex-capitão da polícia e supostamente um dos cabeças do “Escritório do Crime”. Seria um dos que planejou como seria a execução, mas não necessariamente quem a ordenou, e continua foragido. Seu nome também gerou polêmica porque sua mãe e esposa estão registradas como funcionárias do gabinete de Flávio Bolsonaro, filho maior do presidente e atual senador da República. Supostamente, as duas mulheres teriam trabalhado para ele quando era deputado estadual, embora exista a suspeita de que eram parte de um esquema de lavagem de dinheiro através da apropriação dos salários de alguns assessores, caso que está sob investigação do Ministério Público.

Recentemente, com a prisão dos ex-sargentos Ronnie Lessa e Élcio de Queiróz, existe a sensação de que o caso pode se aproximar de um desfecho, mas ainda falta responder as perguntas mais importantes.

Lessa, apontado como o autor dos disparos, foi detido em sua casa, que fica no mesmo condomínio residencial onde a família Bolsonaro possui uma casa, onde vivia Jair Bolsonaro até que foi eleito presidente do Brasil e teve que se mudar ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Por sua parte, Queiróz é acusado de ser o motorista do carro usado no atentado.

O Ministério Público do Rio de Janeiro afirma que o assassinato tem motivações políticas, razão pela qual saber quem foi Marielle Franco talvez ajude a entender o caso e aonde pode chegar o final desta história.

A história de Marielle

Marielle Franco era uma mulher 38 anos. Negra e lésbica. Nasceu e cresceu nas favelas do Rio de Janeiro. Ativista pelos Direitos Humanos, estava casada e era mãe de uma menina. Para os eleitores da Cidade Maravilhosa, essas não razões suficientes para eleger alguém. Entretanto, em sua primeira disputa eleitoral para a Câmara Municipal, em 2016, ela alcançou surpreendentes 46 mil votos e foi uma das cinco maiores votações, entre um total de 51 eleitos, e a mais votada dos seis vereadores do PSOL.

Sua vitória assombrou muitos, porque até então era somente uma mulher que trabalhava como assessora do deputado estadual Marcelo Freixo (hoje deputado federal).

Em 2008, Freixo iniciou a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, para investigar os grupos paramilitares que atuam na cidade. Sua principal assessora, Marielle Franco, tinha a função de coordenar algumas investigações e fazer o acompanhamento de casos de vítimas e testemunhas diversas, pessoas que vivem em favelas e bairros pobres do Rio de Janeiro. Muitas delas foram ajudadas pela ativista naquele então. Se tratava, basicamente, de ex-policiais que confessavam as vinculações de altos membros dessa corporação com as milícias ou com grupos narcotraficantes.

Foi dessa maneira que Marielle Franco se fez mais conhecida por diferentes comunidades, favelas e periferias da cidade, regiões acossadas por três frentes armados: as grandes quadrilhas narcotraficantes, os grupos paramilitares e uma abusiva Polícia Militar.

Após ser eleita vereadora, o foco do seu trabalho continuou sendo o mesmo: temas relacionados com os Direitos Humanos. Ademais, nunca deixou de destacar sua luta por “uma democracia feminista” e pelo aumento do espaço dos negros e dos moradores das favelas nos espaços políticos. Seu lema pessoal, “eu sou porque nós somos” (inspirado na corrente filosófica africana Ubuntu), se tornou consigna dos movimentos sociais cariocas.

Fernanda Chaves, que era sua assessora, a descreve como “uma potência política” e assegura que não exagera ao dizer que era alguém que caminhava para ser, em pouco tempo, uma das figuras políticas mais destacadas em todo o Brasil: “Marielle era uma figura muito poderosa, porque representava as mulheres, os negros, as comunidades das favelas e das periferias, a comunidade LGBTI. Seu discurso incluía todos os que são descartados pelo sistema capitalista, e ela era vista por essas pessoas como uma luz de esperança”.

O sucesso do seu tralho junto com a população mais pobre a levou a ser considerada como possível candidata a deputada federal para as eleições de outubro de 2018, por ser uma das figuras políticas do PSOL com mais apoio nas regiões mais carentes do Rio de Janeiro (seu partido costuma ser criticado por ser o preferido de uma esquerda “académica”, com mais votos entre universitários e alguns setores da classe média, sem tanta capacidade de diálogo com os mais pobres).

Um mês antes do seu assassinato, ela ganhou um novo inimigo para sua causa: uma quarta força bélica apareceu no cenário carioca, após o decreto do então presidente Michel Temer impondo uma intervenção militar nas favelas. Marielle Franco manteve uma feroz crítica à atuação dos militares durantes as três semanas em que pode acompanhar os acontecimentos, até que ocorreu o atentado que terminaria com sua vida.

O assassinato

Em 14 de março de 2018, Marielle Franco foi a uma das favelas do Rio de Janeiro para participar de uma conversa com um grupo de mulheres negras. O evento tinha o sugestivo nome de “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, e ela falou justamente da importância da participação da mulher negra na política.

Em sua participação, Marielle contou sua experiência, também recordou sua inspiração em Angela Davis, a ativista estadunidense destacada por seu trabalho junto com os Panteras Negras; e em Lélia Gonzalez, uma educadora brasileira que também trabalhou na formação política de pessoas das favelas brasileiras. Duas mulheres negras que a motivaram e que ela esperava que pudessem motivar também as suas expectadoras.

Ao sair do encontro, Marielle e sua assessora, Fernanda Chaves, abordaram o carro de Anderson Gomes, um Chevrolet Agile de cor branca. O veículo também era usado pelo motorista para trabalhar como uber nos tempos livres.

Fernanda e Anderson se sentaram nos bancos da frente. Marielle se ficou atrás do motorista. Deixaram a favela após as 21h, com um carro em sua perseguição, mas o trio não percebeu a situação. Ao entrar numa estreita rua próxima aos Arcos da Lapa, um dos pontos turísticos mais conhecidos do centro da cidade, o carro recebeu uma série de disparos.

Foram 13 no total. Cinco atingiram a vereadora. O chofer recebeu outros quatro. Ambos faleceram no local. Fernanda Chaves sobreviveu, apesar de ser ferida pelos estilhaços dos vidros que se quebraram.

Apesar de muitos valorizarem as recentes detenções, o clima entre os familiares e partidários da vereadora ainda é de expectativa com o que consideram a pergunta mais importante a respeito do caso. “Ainda falta descobrir a verdade mais urgente e necessária: quem mandou matá-la?”, enfatizou a arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco.

Por parte do PSOL (seu partido, que programou uma série de eventos em sua homenagem para esta semana), também surgiram diversas reações no mesmo sentido. O deputado David Miranda afirmou um Brasília que “os que executaram a Marielle o fizeram por encomenda, é preciso saber de quem. As detenções são um avance que tardou, mas que são importantes. Entretanto, este tema só estará solucionado quando saibamos quem a mandou matar. Somente então haverá justiça para Marielle e Anderson, e nossa luta não descansará até lá”.

*Publicado originalmente em eldesconcierto.cl | Tradução do autor





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