Economia Política

#FORAGUEDES

 

18/09/2020 19:26

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Em 29 de agosto, oito professores, economistas e outros profissionais se juntaram para escrever e publicar um artigo na Folha de São Paulo, intitulado “O Prosador de Promessas”, com o subtítulo “Como ministro, Guedes é bom contador de causos”. Nele, listam algumas de suas tantas juras que nesse mais de um ano e meio de governo, fizeram Guedes cair em total descrença, seja por seus opositores, seja por aqueles que lhe deram um voto de confiança.

Dentre suas diversas promessas, destacam sofismas como a garantia de zerar o déficit de R$ 130 bilhões no primeiro ano de governo, a privatização de estatais, que proporcionaria uma arrecadação de R$ 2 trilhões (cerca de 30% do PIB), as reformas tributária e administrativa, a geração de quase 4 milhões de empregos com a MP da Liberdade Econômica e outros 4 milhões com a Carteira Verde e Amarela, os investimentos de R$ 800 bilhões com o novo marco do saneamento e R$ 630 bilhões com o marco do gás. Vãs promessas, sem cumprir sequer uma até o final de agosto desse ano.

Se fosse um gestor de uma empresa privada, teria sido sumariamente demitido, pois não duraria tanto tempo apresentando diversos projetos sem concluir nenhum. Mas como seu chefe é leigo em Economia, não tem experiência como gestor nem de uma bodega, tampouco na gestão pública (que exige qualidades e experiência bem diversas do setor privado), vem tolerando até o momento a sina dos três “is” do desenvolvimento, mencionada pela economista Esther Duflo, Prêmio Nobel em 2019 (e citada no artigo dos autores): inércia, ideologia e ignorância. As três se aplicam muito bem à “gestão” de Guedes na pasta da Economia (estende-se também para Bolsonaro e seus ministros asseclas). Em meu artigo na Carta Maior, Recessão Extrema de Direita, de 04 de setembro, propus mais um: “inépcia para conduzir a pasta de Economia para uma retomada econômica”.

Um problema muito bem apontado pelos autores é a falta de um contraponto no governo, pois ao reunir no Ministério da Economia as atribuições dos extintos ministérios da Fazenda e do Planejamento, Guedes não possui uma voz na esfera governamental que possa divergir e discutir a sua política econômica. Na nossa história, tivemos alguns ministros que travaram alguns embates, como Mario Henrique Simonsen (Fazenda) e João Paulo dos Reis Velloso (Planejamento) no governo Geisel e o mesmo Simonsen (Planejamento) e Delfim Netto (Agricultura) no governo Figueiredo. Guedes fica a mercê de sua equipe econômica, dependendo da opinião de economistas que estão subordinados a suas ordens.

Alguns se mostram bastante leais a Guedes, vide Samuel Kinoshita, assessor especial do ministro, que publicou na mesma Folha de São Paulo uma réplica ao artigo que expôs a ineficiência da gestão de seu chefe, levando 18 dias para dar uma resposta (parece que a lentidão não é uma característica restrita ao titular do ministério da Economia). O título não poderia ser mais sugestivo, Apreciando a Recuperação Brasileira. Resta saber que recuperação o assessor vislumbra e o quão satisfeito ele se mostra com o desempenho de uma economia que cresceu 1,1% ano passado e com queda de -2,5% e de -9,7% no 1º e 2º trimestres desse ano, respectivamente. O subtítulo do artigo, que tem o intuito de defender o ministro, talvez explique o porquê do seu insucesso: “Liderança de Paulo Guedes consiste no estabelecimento de metas arrojadas”. Guedes define metas que acabam se mostrando “arrojadas” porque não são construídas com base no funcionamento do setor público ou das relações com outros poderes, o que as tornam utópicas e inviáveis. Seu despreparo para atuar na esfera pública, com experiência mais restrita a acompanhar governos ditatoriais - do General Pinochet, no Chile – indicam a sua inaptidão para conduzir uma pasta tão complexa e que reúne tantas responsabilidades como a Economia.

O assessor de Guedes faz algumas críticas pontuais ao texto dos oito autores. Aponta, infundadamente, que seu chefe imediato não garantiu zerar o déficit primário no primeiro ano. Fê-lo em pelo menos duas oportunidades, em final de outubro, quando afirmou que era “factível” zerar o déficit em 2019 com “controle de gastos” e “privatizações”, e em janeiro de 2019, em Davos, quando deu a seguinte declaração: “Mais da metade do déficit vamos eliminar com a reforma da Previdência. Temos muitas concessões de petróleo. A outra metade disso, vamos eliminar neste ano com concessões de petróleo e uma lista imensa de privatizações. Então, em termos de dinheiro, vamos zerar o déficit este ano. Vamos trabalhar como as grandes companhias privadas, com metas ousadas”. Boa parte dessa manifestação foi analisada pelos autores que teceram críticas à gestão de Paulo Guedes, pois como é possível facilmente perceber, o ministro é “ousado” nas suas metas e pífio nos seus resultados.

O autor da réplica ainda defende uma interpretação mais condescendente dos resultados da Reforma da Previdência, que sofreu importantes modificações em relação a sua versão inicial encaminhada ao Congresso. Se a Reforma tivesse sido encaminhada depois de um bom debate entre especialistas de diferentes visões, e Guedes tivesse adotado uma postura menos truculenta e petulante quando foi defendê-la na sessão da Comissão Especial da Câmara em 08/05/2019, quando ofendeu os deputados: “Depois de seis horas, a baixaria começa. É o padrão da Casa: ofensa, ataque”, quem sabe não tivesse recebido melhor aceitação. Postura bem divergente da advogada pelo assessor de Guedes quando se refere ao seu superior: “Um ministro que tenha força, convicções corretas e grande capacidade de comunicação certamente oferece ao país um serviço de grande valia intertemporal”. Certamente, são aptidões que faltam ao atual ministro da Economia. Será que cabem nessa assertiva algumas declarações de Guedes da reunião do dia 22 de abril, como “tem que vender essa porra logo”, referindo-se ao secular Banco do Brasil, ou quando receitou “ganhar dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias” e que o governo perderia “dinheiro salvando empresas pequeninhas”?

Pergunta Kinoshita aos autores do texto crítico a Guedes: “Qual a métrica dos autores (...)? Eles possuem alguma evidência de que se confundiu a sociedade, e que isto, consequentemente, causou danos à economia?” Podemos, por exemplo, verificar os índices de confiança no Brasil, como fez a InfoMoney nessa matéria de abril/2020. Ainda que o foco seja apontar para a abissal queda dos índices em abril desse ano (tombos superiores a 20 pontos), é possível perceber que raramente os indicadores de confiança de empresários e consumidores estiveram em patamar acima de 100 pontos (quando indica otimismo) desde janeiro de 2019. Ou seja, parece que a liderança de Guedes não tem surtido o efeito ensejado sobre o mercado, estimulando consumo e investimento, o que explica por exemplo o ligeiro crescimento de 1,1% do PIB no ano passado.

Buscando refutar a acusação de morosidade na condução da agenda liberal do governo, o autor apela até para a confusão de datas. A aprovação do novo marco legal do gás, por exemplo, foi em 01/09, enquanto a Reforma Administrativa foi apresentada oficialmente pelo governo em 03/09, dois e quatro dias, respectivamente, depois da publicação do artigo dos autores (o que talvez explique a demora do autor ter levado 18 dias para publicar a sua réplica).

Kinoshita também é bastante vago nas suas argumentações: “O Brasil reagiu com muito vigor ao desafio econômico súbito imposto pelo vírus. Após uma pancada severa, e ainda que sob notável heterogeneidade, diversos indicadores econômicos retratam uma recuperação muito mais contundente do que os economistas projetaram inicialmente”. Quais indicadores, assessor? Nas suas palavras, qual a “métrica”? Como defender a retomada em “V” sem apresentar dados e informações com fontes confiáveis?

O autor encerra seu artigo preconizando a importância do Teto dos Gastos e a “aceleração da agenda reformista brasileira”, que vem sendo gerida por seu superior imediato. Contudo, essa agenda, que na verdade tem início em meados de 2016, quando Temer assumiu a presidência após o impeachment da presidente Dilma, resultou até o momento em um crescimento acumulado de 3,8% do PIB no período 2017-2019, mal recuperando o tombo no PIB em 2015 (-3,6%), o que dirá a recessão de 2015-2016 (queda acumulada de -6,7%). Mesmo antes da crise da pandemia, o PIB do último trimestre de 2019 era equivalente ao do mesmo período de 2012. Com a atual recessão do primeiro semestre de 2020, o PIB caiu para o mesmo patamar do 3º trimestre de 2009, o que representa a aniquilação de todo o pouco crescimento que tivemos na última década. É com essa agenda que até o momento deu parcos resultados que Guedes e sua equipe esperam retomar a atividade econômica, pelo menos, ao seu maior nível de produção obtido no primeiro trimestre de 2014? Certamente, não há nada para “apreciar” nessa “recuperação” apregoada pelos economistas do governo.

Cabe lembrar que o artigo, que suscitou essa tímida resposta que chegou a passos rastejantes do membro do atual governo, foi escrito por oito autores de diferentes matizes ideológicas, o que aponta para uma insatisfação tanto daqueles que se opõem à agenda liberal de Guedes, como também de quem esperava que tivesse sido conduzida com maior celeridade e surtisse melhores resultados. Em suma, Guedes consegue a proeza de desagradar gregos e troianos, além de ser merecedor da alcunha de “Prosador de Promessas”. Portanto, não é exagero afirmar que o ministro é inepto para garantir uma recuperação em plena recessão na pandemia, pois tampouco obteve bom desempenho em tempos de bonança. Defender a sua demissão não é uma ideia estapafúrdia, e quiçá poderia gerar consenso entre desenvolvimentistas/progressistas e liberais. Quem sabe fora do governo, Guedes possa agradar mais contando seus “causos” em palestras e seminários direcionados ao mercado financeiro, na companhia de seus antigos assessores.

Christian Velloso Kuhn, Economista e Professor Universitário, Doutor em Economia pela UFRGS , Instituto Profecom

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