Economia Política

“Bancos torcem para que juros despenquem no Brasil”

08/03/2009 00:00

BRASÍLIA – “Os bancos têm o maior interesse que os juros básicos sejam os menores possíveis. No Brasil, os melhores resultados dos bancos ocorreram justamente em períodos aonde a taxa de juros básica era mais baixa. No passado, isso pode ter sido diferente, mas, no momento que o Brasil atravessa nos últimos anos, isso já foi superado largamente. O sistema bancário brasileiro torce para que os juros básicos despenquem no país, pois isso traduz uma economia mais vibrante e com menos riscos”.

Impensável há alguns anos, a declaração acima foi feita pelo economista-chefe de um dos maiores bancos privados brasileiros, Octávio de Barros, do Bradesco, durante o seminário internacional do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), realizado nos dias 5 e 6 de março em Brasília para discutir a crise econômica global. As palavras de Barros, que também defendeu a redução do spread bancário e o aumento dos investimentos para enfrentar a crise, mostram que, ao menos no discurso, os grandes bancos parecem mais dispostos a privilegiar o crescimento do país em lugar de se preocupar apenas em fazer crescer cada vez mais seus lucros astronômicos.

Barros sugeriu apoio à redução do spread bancário, apontado por muitos como símbolo maior da ganância dos banqueiros: “Como intelectual e pesquisador, eu dou a maior força para que nós avancemos de forma acelerada nessa discussão sobre o spread bancário. O comportamento que observamos no spread e na taxa de juros no Brasil revela uma deterioração da percepção de risco num sentido amplo. É muito possível supor que, no momento em que se destensione a economia mundial, o spread se reduza. Isso é plausível, assim como a redução da taxa de juros”, disse.

O economista, no entanto, pediu a seus interlocutores para não “demonizar” os bancos privados nessa questão do spread: “A parte de lucro que cabe aos bancos é apenas uma fração do spread bancário. Algo como um quinto, segundo a Febraban, ou um quarto, segundo o Banco Central. O spread tem outros componentes, como o risco de inadimplência, a tributação, os compulsórios e os custos de observância dos riscos que os bancos correm por força da inflação”.

O Brasil, segundo Barros, terá mesmo que apertar o cinto em 2009: “O investimento total público e privado terá queda de 3,4% no país, que sofrerá também uma queda de 2,5% do PIB. Por maior e mais relevante que seja o esforço público, ele não compensa a queda do investimento privado. A economia vai operar de forma ociosa durante um ano e meio, temos de nos preparar para isso”, disse.

Esse cenário, no entanto, “não deve ser motivo de preocupação para os brasileiros”, afirma o economista, pois existe a expectativa de sua reversão: “O crescimento projetado para o Brasil em 2010 é de 3,5% e, mesmo em 2009, o investimento aqui vai cair menos do que em outros países emergentes. O processo de desenvolvimento deflagrado no Brasil não vai parar, pois o custo da desmobilização total do desenvolvimento seria muito alto. O país vai voltar a crescer de forma mais acentuada já em 2010”.

Papel dos emergentes

De acordo com a projeção realizada pelos bancos privados, o Brasil deve se colocar em 2009, graças aos efeitos da crise sobre os países desenvolvidos, como o país com o quarto maior crescimento do mundo: “O Brasil deve crescer 0,6%, atrás somente da China (6,5%), da Índia (5,5%) e da Indonésia (2%). Haverá uma mudança grande de paradigma na economia mundial. O mundo, nos próximos cinco anos, vai crescer bem abaixo da média histórica, mas o Brasil está na contramão do mundo”, disse Barros.

O executivo do Bradesco ressalta a importância do papel dos países emergentes na busca por soluções para a crise econômica: “Haverá uma queda de 0,5% no crescimento global, mas, se levarmos em conta somente os países ricos, essa queda é de 6%. A crise não fez os emergentes mais dinâmicos mudarem de rumo, por isso o peso desses países aumenta ainda mais. Em meados de 2014, os países emergentes superarão o PIB dos países desenvolvidos. Existirão novas locomotivas da economia mundial nos próximos 10 ou 20 anos. A China alcançará os Estados Unidos, e o Brasil, cada vez mais reconhecido internacionalmente como um país maduro, pode também ter papel de destaque”.

Duas propostas

Instigado pelos demais conselheiros do CDES a apresentar duas propostas do sistema bancário que seriam levadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Octávio de Barros afirmou que sugeriria ao governo “acabar com a tributação sobre a intermediação financeira e reduzir o depósito compulsório”, que, segundo ele, é um dos maiores do planeta: “O Brasil é o único país que tributa a operação de crédito e a intermediação financeira, o que não faz o menor sentido. Tenho a impressão de que o ministro Guido Mantega e toda a área econômica do governo estão sensíveis a isso, pois é uma distorção”.

Barros defendeu sua segunda proposta: “Nós temos uma avenida de possibilidades para reduzir o depósito compulsório, e o Brasil caminha nessa direção. Quanto mais a crise internacional se agrava, maior o espaço pra isso. Não existe nenhum outro país que tenha em seu banco central um estoque tão grande de dinheiro retido dos bancos, dinheiro que poderia estar circulando”, disse.

Na esteira da redução do compulsório, Barros afirma que o Brasil tem que “perseguir mecanismos que mitiguem o risco de inadimplência, que representa 35% do spread bancário”. Segundo o economista “existem no momento discussões entre os bancos e o governo sobre como enfrentar esse problema através da criação de um seguro ou um fundo”.

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