Economia Política

''Nós contra Eles'': Participantes Interativos de um Sistema Financeiro Complexo

Essa é uma velha ''caça à bruxa''. A usura é uma bruxa condenada desde o século XIII, quando a difusão do crédito passou a ameaçar os milenares valores cristãos.

10/05/2019 11:19

 

 

A tomada de posição contra O Banqueiro, pelo discurso recorrente dos companheiros de esquerda, parece arregimentar força política para alguma ação coletiva. O fato de ter “um inimigo do povo” identificável, supostamente, daria não apenas a possibilidade de articular e demonstrar nossa fé ideológica, mas também de nos unirmos aos nossos irmãos-camaradas de credo.

Essa é uma velha “caça à bruxa”. A usura é uma bruxa condenada desde o século XIII, quando a difusão do crédito passou a ameaçar os milenares valores cristãos. Antônio, “o mercador de Veneza”, na peça representativa de William Shakespeare, pediu por livre vontade um empréstimo ao judeu Shylock, para satisfazer seu caso amoroso, Passâmio, de modo este oferecer um dote para se casar com uma rica herdeira.

Antônio tinha diversificado seu risco, enviando cada um de seus navios a destinos distintos, mas foi acometido por uma calamidade sistêmica: todos naufragaram. Sua fortuna foi por água abaixo. No entanto, o tribunal decidiu: Skylock não poderia tirar nenhuma gota de sangue do seu devedor para cumprir o contrato. Pior, por atentar contra a vida de um cristão, para não ser morto, foi obrigado a passar seus bens para o Estado e a converter-se ao cristianismo. O amigo de fé, seu irmão camarada, não é o mais certo das horas incertas… Cristãos se endividavam, mas caloteavam a dívida.

O judaísmo, assim como as demais religiões, era mantenedor daquele dualismo universal primitivo entre “moral de grupo” e “moral com referência a estranhos”. Permitia receber juros de outros crentes, porém não dos irmãos de religião.

A religião islâmica também condena os lucros gerados, exclusivamente, pelas finanças. O Islã advoga a distribuição equitativa de riscos e benefícios entre parceiros de associações econômicas em lugar da relação entre credores e devedores.

Dada essa longa tradição religiosa, a estratégia ideológica tipo “nós contra eles” atrairia seguidores, estimularia controvérsia, criaria lealdade e faria todos lutar contra O Sistema. Ledo engano. Somos desiguais, mas todos somos partes do sistema financeiro.

É fácil e cômoda a redução sistemática de um domínio do conhecimento, no caso, a análise econômica do sistema bancário, a um outro mais particular, a luta de classes binária, tida como politicamente mais fundamental. Mas isso é um reducionismo simplório, por decompor esse todo caracterizado como um fenômeno complexo a seus termos mais caricatos e considerá-los mais fundamentais se comparado ao próprio fenômeno sistêmico. Senão vejamos.

“Eles”, Os Banqueiros, são tão diversos como “nós”, os clientes. Compare o atual ministro da Economia, um ex-banqueiro de negócios, com os dirigentes profissionais de bancos de varejo. Durante a sanguinolenta ditadura militar chilena, aceitou uma cadeira de docência na Universidade do Chile, para presenciar e se tornar adepto do casamento do oportunismo de Chicago’s Boys com militares ávidos por implantar à força um regime militar. Se não dá para isso, pelo menos um regime de capitalização em lugar da Previdência Social. A bolha de ações resultante enriqueceu tanto a casta dos mercadores quanto a casta dos militares. Depois, muitos empobrecidos aposentados se suicidaram.

Quando voltou para o Brasil, ele se sentiu marginalizado. Não lhe deram nem as posições acadêmicas nem os cargos no governo para os quais ele se sentia merecedor. Ruminou por décadas sua vingança e a “volta por cima” com ideólogos e/ou militares. Na década de 1980, atuou por 16 anos no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC). Em 1983, foi um dos fundadores do Banco Pactual. Ao deixa-lo, montou uma gestora de recursos para especulação com o Fundo JGP Hedge. Depois, foi sócio fundador do grupo financeiro BR Investimentos e virou banqueiro de negócios no Bozano Investimentos.

Deslanchou sua verve ideológica quando foi um dos fundadores do Instituto Millenium, um think tank neoliberal brasileiro. Promove o direito de propriedade, a economia de mercado e colocar limites institucionais à ação do governo para incentivar a privatização geradora de good business. Valores e princípios liberais em defesa de uma sociedade democrática representativa, como liberdade individual e Estado de Direito, em especial, direitos de minoria, ficam em segundo plano. Quando muito aparecem como mera retórica “liberal” a camuflar a aliança com a extrema-direita brasileira.

Mas Os Banqueiros não se dividem apenas entre dirigentes de corporações gigantescas varejistas e atacadistas de “agência aérea”, isto é, em andares altos de prédios de luxo para gestão da própria fortuna – e dos “parceiros”. Sem agências nas ruas, os pobres clientes, ou melhor, os clientes pobres são defenestrados se aparecem por lá.

Existem cerca de 1.400 instituições no sistema financeiro nacional. Cooperativas de crédito são 1.004 (72%) e concedem R$ 97 bilhões de crédito (3% do total). As 262 financeiras e outras instituições do mercado de capitais (19%) concedem apenas R$ 31 bilhões (1%). Bancos privados se dividem em dois: os 59 nacionais (4%) concedem R$ 1,111 trilhão (32%); os 63 estrangeiros (4%) concedem R$ 442 bilhões (13%). Em contrapartida, os 13 bancos públicos (5 federais e 8 regionais/estaduais) concedem R$ 1,730 trilhão (51%), conforme disse o presidente da FEBRABAN em palestra (abr/2018).

O mais relevante é o chamado “big six” (BNDES, BB, Bradesco, Itaú, Caixa e Santander) se incluir o banco de desenvolvimento entre os bancos comerciais, senão “big five”. Aliás, concentração bancária existe na China e em praticamente todos os sistemas bancários nacionais de países grandes. Aqui, esse agrupamento dos seis maiores bancos em ativos soma 80% do crédito total e 81% do total de captações. Em dezembro de 2018, o Market-share de cada um no crédito total ia de 8% do Santander, 9% do BNDES e 11% do Bradesco até 15% do Itaú, 18% do Banco do Brasil e 19% da Caixa.

Isto apesar dos bancos públicos terem perdido posições desde o governo golpista. No fim de 2017, já possuíam 45% dos ativos, 51% do crédito e 48% das captações. Um ano após essas participações caíram, respectivamente, para 42%, 48% e 45%.

Cada um dos maiores bancos possui seu nicho de mercado, onde é dominante. Quanto à principal modalidade de crédito à Pessoa Física por parte de cada um deles, o financiamento habitacional representa ¾ da carteira de crédito da Caixa, tendo além disso só alguma expressão o empréstimo com consignação em folha de pagamento. O Banco do Brasil, assim como o Itaú e o Bradesco, também se dedicam bem a esse empréstimo com baixo risco. Mas seu negócio preferencial é o crédito rural e agroindustrial, constituindo quase metade de sua carteira. Para o Itaú, mais de ¼ de seu crédito é concedido via cartões. Quase ¼ do crédito do Santander é financiamento de veículos, enquanto o Votorantim com 4/5 se dedica quase exclusivamente a esse negócio bancário. Por sua vez, o BTG-Pactual concentra quase toda sua atividade de crédito a Pessoa Física no exterior. “Os Banqueiros” são bem diferentes, não?

Mas, além do financiamento, nas duas outras funções básicas dos bancos – uma, viabilizar um sistema de pagamentos, outra, captar ou oferecer oportunidades de investimentos financeiros aos seus clientes – há também distinções no tratamento do público-alvo.

Hoje, o pagamento feito pelos canais bancários é por meio de débito em conta corrente via TED ou DOC. O valor chega ao destinatário no mesmo dia, se feito no horário definido pelos bancos, das 6h30 às 17h, em dias úteis. Pode levar de 5 a 30 minutos. A transferência custa ao cliente uma tarifa definida por banco ou por transação, ou, ainda, em pacotes oferecidos de acordo com o perfil de cada cliente.

O preço de cada transação deverá ser reduzido para centavos, talvez a partir do segundo semestre do próximo ano, porque o sistema de pagamentos instantâneos permitirá redução de custos fixos e o custo marginal digital é quase zero. A operação será completada em até 10 segundos. Poderá ser feita 24 horas por dia, sete dias por semana, durante o ano todo. Substituirá os pagamentos em espécie feito pessoa a pessoa. Uma informa a opção de pagamento e o valor da compra em seu celular, outra seleciona no seu smartphone o cartão a ser utilizado e a forma de pagamento (débito ou crédito). Aproxima o celular do outro e digita a senha do seu cartão. Pagamento já realizado!

Em 2017, 42% das transações com movimentação financeira era feita por canais como agências, ATMs, correspondentes e contact center, 37% por POS e 21% por Internet e mobile banking. Em 2011, era respectivamente, 52%, 31% e 16%. A tendência é digital.

Impacto da revolução tecnológica sobre o emprego bancário: em 1989, eram 821 mil bancários no país, esse total caiu 52% ate%u001 2001, para o patamar de 393 mil vagas. De 2002 a 2011, por dez anos consecutivos, o total de empregos em bancos apresentou um crescimento contínuo, atingindo 508 mil vagas. O setor bancário encerrou 2018 com aproximadamente 465 mil funcionários diretos, sendo 78% com nível superior.

Todos nós, trabalhadores ativos e inativos, somos clientes desse sistema. Dependemos dele para substituir a renda do trabalho pelos rendimentos do capital financeiro na aposentadoria. Não corresponde à realidade o lema “nós contra eles”. É reducionista. “Nós” somos 144 milhões depositantes de poupança com média de R$ 5 mil; em fundos e TVM 8 milhões pessoas em classe média baixa (per capita de R$ 41,5 mil), 4 milhões em classe média alta (R$ 242 mil) e 121 mil ricaços com R$ 9,2 milhões per capita. Só.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018)

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