Economia Política

''O mercado de ações está se iludindo''

O proeminente economista americano Nouriel Roubini não acredita que a economia global se recupere rapidamente. Ele acha que a terrível situação produzirá um verão de protestos nos EUA e anos de dificuldades na Europa também

15/06/2020 15:33

Pessoas aguardam em um banco de alimentos, em Mineapolis: ''Receio que a década de 2020 seja marcada por desgraças e desastres'', diz Roubini (Kerem Yucel/AFP)

Créditos da foto: Pessoas aguardam em um banco de alimentos, em Mineapolis: ''Receio que a década de 2020 seja marcada por desgraças e desastres'', diz Roubini (Kerem Yucel/AFP)

 

Der Spiegel: Sr. Roubini, a pandemia colocou a economia global de joelhos e milhões de pessoas perderam o emprego. A crise é tão grave quanto a Grande Depressão da década de 1930?

Roubini: O crash é ainda maior do que foi naquela época. Levou anos, desde 1929, até que toda a extensão da crise se tornasse visível. Comparado a hoje, aquela crise foi como um acidente de trem em câmera lenta. Agora, a economia mundial entrou em colapso em semanas e nos EUA, sozinho, mais de 40 milhões de pessoas estão desempregadas. Muitos acreditam que a economia se recuperará novamente com a mesma rapidez, mas isso é uma falácia.

Nouriel Roubini, 62 anos, é um dos economistas mais conhecidos do mundo. Professor da Stern School of Business, em Nova York, ele é um dos poucos que previram o estouro da bolha imobiliária, nos EUA, e a crise financeira resultante em 2008. Ele também estava entre os que alertaram desde o início que a COVID-19 causaria um enorme estrago na economia.

Der Spiegel: Você não acredita em uma recuperação em forma de V, apesar dos enormes pacotes de estímulo econômico? Afinal, 2,5 milhões de novos empregos foram recriados nos EUA. em maio.

Roubini: Obviamente, veremos uma subida na segunda metade do ano. Mas não será real, será uma ilusão. A economia caiu tão acentuadamente que é praticamente inevitável que se recupere novamente em algum momento. Mas isso, de forma alguma, compensará o crash. Mesmo no final de 2021, a economia dos EUA ainda estará abaixo do nível do início de 2020; muita coisa foi destruída. E a taxa de desemprego se estabilizará em 16 ou 17% - durante a crise financeira [de 2008] foi de apenas 10%. A criação de empregos em maio foi de apenas 2,4 milhões, depois que 42 milhões perderam seus empregos nos últimos meses. E a taxa real de desemprego é muito maior do que a medida oficialmente.

Der Spiegel: O mercado de ações obviamente vê as coisas de maneira diferente, com as ações já sendo negociadas no mesmo nível que no início do ano.

Roubini: O mercado de ações está se iludindo. Os investidores estão apostando que haverá mais pacotes de estímulo econômico e uma recuperação em forma de V dos lucros. Mas para as pessoas aqui nos EUA, isso não significa nada.

Der Spiegel: Desde quando os americanos não se importam com o mercado de ações?

Roubini: Em Wall Street, são as grandes corporações que dão o tom, bancos e empresas de tecnologia em particular. Elas sobreviverão à crise porque o Estado nunca as deixará quebrar. Elas chutarão as pessoas para fora, cortarão custos e, no final, terão ainda mais poder de mercado do que antes. Mas o que aqui chamamos de Main Street [economia real], pequenas e médias empresas, não conseguem fazer isso. Eles simplesmente vão falir. Estimo que um em cada dois restaurantes na cidade de Nova York terá que fechar, mas o McDonald's sobreviverá. Mas isso não é tudo.

Der Spiegel: O que mais?

Roubini: Os 10% mais ricos dos americanos detêm 80% da riqueza do mercado de ações, enquanto 75% não possuem ações. Existe um estudo do Federal Reserve, segundo o qual 40% dos americanos não têm US$ 400 em dinheiro para estarem preparados para emergências. Estamos enfrentando essa emergência agora. O sistema está doente e as pessoas estão indo às ruas por causa disso.

Der Spiegel: Você quer dizer que os protestos após o assassinato de George Floyd pela polícia também têm um componente social?

Roubini: Claro! Na área em que moro, no Bowery, Lower Manhattan, três quartos dos manifestantes são brancos. Muitos deles são jovens e pertencem ao "precariado" urbano, a nova subclasse que substituiu a classe trabalhadora tradicional, o "proletariado", nas economias avançadas em serviços. O precariado é formado por trabalhadores temporários, freelancers, pessoas que trabalham por hora, trabalhadores de aplicativos e de bicos - mesmo que tenham, com frequência, diploma universitário - aqueles que não trabalham regularmente em período integral não recebem mais transferências do estado após três meses. Não poderão mais pagar aluguel e contas de telefone, a eletricidade e água serão cortadas Será um verão longo e quente.

Der Spiegel: Isso reduzirá significativamente as chances de Donald Trump na reeleição, não é?

Roubini: Você está certo. Mas Joe Biden terá que vencer por uma margem muito grande para Donald Trump deixar Washington por conta própria. Mas não é isso que acho que vai acontecer. Ou Trump se manterá no cargo com pequena margem, embora o apoio da classe trabalhadora branca que o colocou no cargo esteja diminuindo. Ou ele perderá por uma margem estreita, mas não aceitará os resultados.

Der Spiegel: Você acredita mesmo que ele se entrincheiraria na Casa Branca?

Roubini: Claro. Trump não vai à Suprema Corte como Al Gore solicitar uma recontagem dos votos, se os resultados das eleições forem próximos em alguns distritos. Ele culpará a China, a Rússia, os negros ou os imigrantes e atuará como ditador de uma república de bananas. Ele chamará seus seguidores às armas - há fascistas brancos armados suficientes correndo por aí. Ele, com frequência suficiente, os lembra da Segunda Emenda, que permite aos americanos possuir armas.

Der Spiegel: Um cenário desalentador. Trump também deve culpar o Federal Reserve pelos desenvolvimentos econômicos. Ele quer que o Fed reduza ainda mais as taxas de juros.

Roubini: O Fed já fez todo tipo de coisa que não precisava fazer. Ele salvou bancos, investidores financeiros, fundos de investimentos e gestores de ativos inundando os mercados com liquidez. Foi a coisa certa a fazer no curto prazo para evitar a deflação. Mas a dívida pública é tão alta que governos e empresas só podem se refinanciar se as taxas de juros permanecerem ultra baixas. O Fed precisa garantir isso comprando títulos e, assim, aumentando seus preços e deprimindo as taxas de juros. A longo prazo, não conseguirá deixar de exercer esse papel. O Fed está na mesma situação que todos os principais bancos centrais do mundo.

Der Spiegel: Você quer dizer que os bancos centrais perderam sua independência?

Roubini: Com certeza. Veja: Em dezembro de 2018, o presidente do Fed, Jerome Powell, anunciou que aumentaria as taxas de juros e reduziria o balanço do banco central, interrompendo as compras de títulos. O resultado foi que o mercado acionário caiu 20%. Powell recuou rapidamente e hoje o balanço do Fed é duas vezes maior do que era na época. A longo prazo, isso levará à inflação.

Der Spiegel: Como isso pode acontecer quando tantas pessoas estão desempregadas e a economia não consegue sair do chão?

Roubini: Porque sofreremos um choque negativo no lado da oferta. Pode parecer técnico, mas é facilmente explicado.

Der Spiegel: Vá em frente.

Roubini: A globalização tem mantido baixos os custos de mão de obra e de produção há anos, apenas por conta dos 2,5 bilhões de trabalhadores baratos da Índia e da China. Mas a globalização já havia atingido seu pico após a crise financeira [2008], e a pandemia intensificou essa tendência. Estamos testemunhando a renacionalização, a desintegração das cadeias de suprimentos, um conflito comercial entre a China e os EUA.

Der Spiegel: Então você acha que os preços aumentarão de maneira geral?

Roubini: Tomemos o exemplo da tecnologia 5G: Nokia e Ericsson são 30% mais caras e 20% menos eficazes que a Huawei. Portanto, se um país decidir contra a expansão 5G da Huawei, e há boas razões para isso por política de segurança, os preços de todos os tipos de produtos finais, de serviços 5G a torradeiras e micro-ondas com chips 5G, subirão automaticamente. E isso acabará levando à inflação.

Der Spiegel: Mas, nesse caso, as taxas de juros teriam que subir.

Roubini: De acordo com o livro texto, sim, mas isso não vai acontecer. Os Estados e as empresas explodiriam, levando seus orçamentos e balanços a cacos.

Der Spiegel: Você ficou surpreso com quanto dinheiro os europeus estão subitamente mobilizando para estabilizar suas economias?

Roubini: Na verdade não. Afinal, trata-se de manter a Zona Euro unida. Sem um ato de solidariedade, a Itália em particular entraria em colapso e deixaria a zona de moeda comum. Então tudo acabaria.

Der Spiegel: Com relação ao pacote de ajuda de 500 bilhões de euros que Alemanha e França esperam reunir, o ministro das Finanças alemão Olaf Scholz falou do ‘momento Hamilton’ na Europa, uma referência ao primeiro secretário do Tesouro dos EUA, Alexander Hamilton, que lançou a base financeira para os EUA como uma nação. Scholz está exagerando?

Roubini: Claro, ele está exagerando. O pacote está ótimo, mas faltam dois pré-requisitos cruciais para um estado federal europeu: primeiro, que os passivos sejam comunalizados - a dívida da Itália ainda é a dívida da Itália. Em segundo lugar, falta um orçamento comum de tamanho significativo, ou seja, de 20 ou 30% do produto interno bruto e não, como agora, apenas 2%.

Der Spiegel: Pelos padrões alemães, as decisões do governo alemão são revolucionárias.

Roubini: Você nem sempre pode dizer não a tudo! Berlim não pode ser contra o fato de que o orçamento da UE está crescendo e que o BCE está desempenhando um papel maior e, ao mesmo tempo, se surpreender quando tudo der errado. Então a Europa estaria morta! Felizmente, a chanceler Angela Merkel percebeu a tempo o que estava em jogo. E ela é tão popular no momento que pode levar essas coisas adiante. Duvido que isso ainda seja possível sob seu sucessor, não importa quem se torne o líder de seu partido e chanceler.

Der Spiegel: Mas a próxima crise já está à espreita ao virar da esquina: Brexit. Os britânicos solicitarão novamente uma prorrogação do período de transição?

Roubini: Eu falo regularmente com representantes do governo britânico e tenho a impressão de que eles estão claramente indo para um Brexit duro. Londres não quer um acordo de livre comércio como aquele entre a UE e o Canadá, o governo realmente quer um corte claro. É claro que isso é loucura. Os caminhões se amontoarão na fronteira da alfândega, as bolsas de valores da Europa cairão acentuadamente, a economia britânica também e a economia europeia também cairá, embora não no mesmo grau.

Der Spiegel: Existe algo que lhe dê esperança?

Roubini: Esperança? Eu teria que pensar. Foi bom que os governos reagiram tão rápida e massivamente à pandemia e suas consequências. Mas caso contrário? Receio que a década de 2020 seja marcada por desgraças e desastres. Talvez a economia global se torne mais sustentável depois. Mas, por enquanto, será sombrio.

*Publicado originalmente em 'Der Spiegel' | Tradução de César Locatelli

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