Economia Política

A crise econômica e as falácias do posto Ipiranga*

 

16/03/2020 16:50

 

 
No dia 04.03.2020 o IBGE divulgou o PIB do país relativo ao ano de 2019, cuja taxa de crescimento era prevista ao redor de 2,5% para tal período[1]. Além disso, em audiência na Câmara dos Deputados durante os debates sobre a reforma da previdência ainda no primeiro semestre de 2019, o Ministro da Economia afirmou categoricamente que: “se for feita uma reforma forte da previdência, os investimentos serão disparados imediatamente e o crescimento do PIB atingirá 3%”. Pois bem, a tal reforma foi feita, não houve disparo imediato dos investimentos e o crescimento do PIB em 2019 foi de 1,1%, percentual inferior inclusive ao ano de 2018, que foi da ordem de 1,3%[2].

Diante desse fracasso, o aloprado ministro se saiu com a seguinte pérola: O que eu havia dito no início do ano? Que iríamos crescer 1%. O resultado mostra que o governo se saiu bem e que tudo está dentro do previsto. Para o ano de 2020, com prosseguimento das reformas, vamos crescer acima de 2%[3]. Isto porque “O Brasil não é uma folha ao vento, a sabor das ondas internacionais, pois tem uma dinâmica própria de crescimento (sic)”. E ainda há quem acredite que esse sujeito tenha algum conhecimento mais profundo sobre a realidade da economia brasileira, cuja dependência da dinâmica econômica mundial existe há muito tempo e está devidamente registrada. Além disso, o ministro declarou-se surpreso com algumas colocações de analistas e de jornalistas, uma vez que não estava entendendo a comoção decorrente dos resultados divulgados.

Já o ignóbil presidente, diante do pífio desempenho do PIB em seu primeiro ano de governo, afirmou que recomendou a sua equipe econômica que faça previsões mais modestas para se evitar questionamentos. Textualmente assim se expressou diante da pergunta de um jornalista que queria saber se o presidente esperava que o PIB melhorasse nos períodos seguintes: “expectativa, eu sempre falo...bota o mais baixo possível para eu não ter esse tipo de pergunta”. Para tanto, protagonizou uma cena dantesca no dia da divulgação dos resultados (04.03.20), ao sair do Palácio da Alvorada acompanhado de um humorista vestido com a faixa presidencial que distribuía bananas aos jornalistas que insistem em permanecer no “cercadinho” em frente ao Palácio da Alvorada.

Em 11.03.20 o aloprado ministro afirmou que o Brasil precisa aproveitar a crise e convertê-la em reformas. Assim, ao se reunir com os presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, apresentou uma lista de propostas de reformas que contemplam, na essência, a fracassada cartilha neoliberal diante de crises econômicas globais, cartilha esta que vai ao sentido oposto das ações que estão sendo adotadas em muitos países. Os EUA, por exemplo, acabaram de destinar US$ 50 bilhões para apoiar setores econômicos diretamente afetados pela epidemia do coronavírus, ao mesmo tempo em que o Banco Central Inglês reduziu as taxas de juros de 0,75% para 0,25%, como forma de ampliar o crédito produtivo e de consumo.

Diante do cenário de crise econômica global, Blanchard, por exemplo, sugeriu que os países atuem em duas direções: por um lado, implementem medidas urgentes no sentido de controlar o avanço do coronavírus e, por outro, adotem medidas fiscais, especialmente de aumento do gasto governamental, visando manter e estimular as atividades econômicas e, consequentemente, a demanda agregada. Portanto, neste momento seria mais prudente que o aloprado ministro brasileiro cessasse a ladainha das reformas e adotasse medidas concretas que fossem capazes de incentivar os investimentos públicos e privados, como forma de retomar o crescimento econômico.

Todavia, em 12.03.2003, surgiram novas pérolas diretamente do Posto Ipiranga: “nós estávamos em pleno voo, começando a decolar (sic), quando fomos atingidos por essa onda. Enquanto a economia mundial está descendo, nós estávamos entrando na rota de 2% para este ano. Mas temos capacidade e velocidade de escape para mantermos nossa decolagem”. Sinceramente, ao ouvir tais falas veio-me a pergunta: em que planeta esse sujeito vive? Isto porque os dados divulgados no início do mês mostraram exatamente o contrário, ou seja, que o comportamento do PIB, além de ter se reduzido em relação ao desempenho do ano anterior, encontra-se no mesmo patamar de 2013. Por um lado, o consumo do governo foi negativo; as exportações de bens e serviços caíram 2,5%, enquanto a taxa de investimentos continua num patamar bastante baixo (15% do PIB), comparativamente ao seu ápice verificado nos anos anteriores à crise (21% do PIB). Por outro, o pequeno crescimento divulgado está fortemente atrelado à expansão do consumo das famílias, indicador importante, porém com sérias limitações para se garantir taxas sustentáveis de crescimento, especialmente em situações em que perdurem taxas de desempregos elevadas devido à retração das atividades econômicas.

Na verdade, essas falas do ministro pretendem nos colocar diante da falsa ideia de que a economia brasileira está descolada da economia mundial, portanto imune aos efeitos expressivos que irão impactar os sistemas econômicos globais diante dos dois fatores conjunturais atuais: a epidemia do coronavírus e o choque dos preços do petróleo. No primeiro caso, são inegáveis os impactos econômicos negativos sobre diversas cadeias produtivas globais, especialmente nas áreas de transportes, comércio e serviços. Tanto é assim que diversos países já divulgaram medidas estruturais para enfrentar essa nova turbulência da economia mundial. Apenas como exemplo, destacamos o pacote de medidas anunciadas pela França em 12.03.20: proteger as empresas e os empregos; acolher os desempregados; adiar o recolhimento de impostos e prioridade absoluta para os segmentos pobres e mais vulneráveis. Em sua mensagem, o presidente Macron afirmou que o Estado Francês fará de tudo para evitar maiores danos do coronavírus sobre a economia do país. Ou seja, políticas mais austeras estão sendo flexibilizadas em diversos países para fazer frente à crise atual.

No Brasil, o grupo do Ministério da Economia responsável pelo gerenciamento da crise divulgou, com pompa, em 12.03.20 algumas de suas principais decisões, com destaque para: antecipação de junho para abril do pagamento de 50% da parcela do décimo terceiro dos aposentados e pensionistas do INSS; suspensão da prova de vida dos beneficiários do INSS por 120 dias (sic); definição a posteriori de uma lista de produtos médicos que terão preferência tarifária nas importações; redução do teto dos juros dos empréstimos consignados do INSS. E obviamente que o foco continuou sendo as reformas, com ênfase na reforma administrativa e tributária, cujas propostas o governo sequer as enviou ao Congresso Nacional até o presente momento.

No dia 13.03.20, ao responder as críticas do presidente da Câmara Federal que cobrou medidas efetivas de curto prazo por parte do governo, o ministro assim se manifestou: “soltamos ontem medidas; hoje vamos soltar mais e na segunda vamos soltar mais. A resposta à crise está vindo”. As medidas já anunciada, além de paliativas, terão efeitos a passos de tartaruga, quando muito. Na verdade, o ministro fez todo esse enredo para voltar a defender a cantilena das reformas neoliberais, enfatizando seu desejo de privatizar a Eletrobrás, ao mesmo tempo em que rejeitou novamente qualquer aumento de gastos públicos nesse momento para estimular o crescimento da economia.

O fato concreto é que estamos a caminho de um processo expressivo de desaceleração da economia mundial que certamente afetará a economia brasileira, uma vez que os problemas decorrentes do coronavírus poderão se estender ao longo de todo o ano de 2020. Neste caso, não seria nenhuma surpresa se a taxa de crescimento do PIB para esse ano voltasse a apresentar resultados negativos. Some-se a isso o fato de que as tão propaladas reformas deverão ter maiores dificuldades para serem aprovadas no Congresso Nacional devido ao fato que em breve o país entrará em um período eleitoral.

Por tudo o que se viu até aqui, muitos analistas estão afirmando que o vulgar ministro não tem a menor noção da gravidade da situação para a economia do país, uma vez que seu radar está focado em uma única direção: evitar qualquer ação preponderante do Estado para reativar setores essenciais da economia. Além disso, as medidas anunciadas nos dois últimos dias são a prova cabal dessa estratégia, uma vez que são meros paliativos com baixa capacidade para reverter um ciclo recessivo que se avizinha na esfera global.

Neste sentido, o artigo de Ferdinando Giugliano “How to push back against fake economics”, escrito em 2018, recomenda que os economistas deveriam explicar melhor o funcionamento da economia com base na Teoria Econômica e parar de dar facadas no escuro. Como estamos na era das fake news – e parafraseando John Hicks – declaro a partir de hoje que o Ministro Posto Ipiranga morreu e em seu lugar surgiu o Ministro Fake Economics, um sujeito oriundo da galáctica das finanças e que aprendeu a tocar música de uma única nota: reformas!!!

*Essa analogia é recorrentemente feita pelo ignóbil presidente do país quando se refere ao seu Ministro da Economia

Lauro Mattei é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC e membro permanente do Programa de Pós-Graduação da mesma Universidade. Pesquisador do OPPA-CPDA-UFRRJ. Email: l.mattei@ufsc.br Artigo escrito em 14.03.2020.

[1] -Alguns economistas neoliberais e bolsonaristas chegaram ao ponto de afirmar que sem a reforma da previdência a economia cresceria 2% em 2019, mas caso a reforma fosse feita seu crescimento atingiria 4%. São os verdadeiros cabeças de planilhas que adentraram ao clube do Chutômetro. Chantagistas da XP Investimentos chegaram ao ponto de afirmar que, sem a reforma da previdência, o dólar atingiria R$ 5.

[2] Registre-se que a Taxa de Investimento teve um crescimento de apenas 2,2% em 2019, comparativamente à taxa de 3,9% em 2018.

[3] Na verdade, a estimativa de crescimento do PIB no início de 2020 era de 2,4%. Imediatamente após a divulgação do resultado de 2019, tal estimativa foi revista para 2,1%. Vale lembrar que mesmo antes da divulgação dos resultados do PIB em 04.03.20, agências externas, como a Goldman & Sachs e a Capital Economics, já haviam reduzido a previsão de crescimento do PIB do Brasil em 2020 para 1,3%.

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