Economia Política

A crise pós-pandêmica: o que acontecerá a seguir?

O fracasso na tomada de decisões estratégicas multilaterais nestes tempos de Covid foi liderado pela administração Trump e seus ataques bizarros às instituições internacionais

26/10/2020 13:28

(Reprodução/Financial Times)

Créditos da foto: (Reprodução/Financial Times)

 
A pandemia de coronavírus produziu um grande desdobramento. Para neutralizar seus efeitos, será necessária grande determinação em 2021, 2022 e adiante.

O planejamento para esse futuro global desafiador precisa começar agora mesmo - embora ainda não saibamos o grau total da dor que os cidadãos do mundo e suas economias terão que suportar no período imediato à frente.

O que o Banco Mundial e o FMI dizem

O presidente do Banco Mundial, David Malpass, estima que até 150 milhões de pessoas estão sendo jogadas na pobreza extrema este ano, elevando o total global para bem acima de 800 milhões. No final de 2021, o total pode ser muito maior.

O FMI, em uma declaração ousadamente sonhadora, prevê que a economia mundial se recuperará significativamente em 2021 de seus níveis de quase depressão de 2020.

A bola de cristal do Fundo indica que a recuperação econômica será devida ao fim do vírus e à abundância de vacinas e tratamentos eficazes.

Esse otimismo surge em meio a evidências crescentes de um segundo surto das infecções que força novos bloqueios e novas dificuldades econômicas em muitos países.

Quem pode dizer com confiança, neste momento, que um terceiro surto, no próximo ano, pode ser descartado?

Falha multilateral

O grande desdobramento da pandemia envolve o fracasso na tomada de decisões estratégicas multilaterais nos níveis mais altos.

O governo Trump liderou o ataque como o grande desestabilizador - atacando a Organização Mundial da Saúde, ridicularizando a Organização Mundial do Comércio e deixando de liderar as respostas financeiras multilaterais.

Grande contraste com a resposta em 2008

O início da crise financeira global em setembro de 2008 assistiu a convocação, em menos de dois meses, de uma reunião de cúpula do Grupo dos 20 para determinar a ação internacional coletiva.

Este ano, o Grupo dos Sete está escondido. Os ministros das finanças do G20 só se reuniram para tomar medidas mínimas para empurrar com a barriga. Tudo o que fizeram foi pedir adiamentos de curto prazo no pagamento da dívida dos países mais pobres do mundo.

Banqueiros centrais relaxados, aposentados em dificuldades

Os déficits nos gastos públicos estão atingindo níveis recordes em muitos países. No entanto, como as taxas de juros estão perto de mínimos históricos, os bancos centrais tendem a ficar relaxados quanto a isso.

Eles também observam que os pagamentos do serviço da dívida nacional são bastante baixos em relação aos gastos gerais do orçamento do governo. Tudo pode estar bem nesta frente fiscal se as taxas permanecerem tão baixas.

No entanto, dezenas de milhões de aposentados que dependem dos rendimentos de seus investimentos em renda fixa provavelmente enfrentarão dificuldades financeiras.

Nem um único governo tratou da crise financeira dos idosos em países de alta renda. Este é um problema gigantesco que pode cobrar seu preço nos próximos anos.

Desastres financeiros

Enquanto isso, em muitos países de renda média e baixa, a miséria, o número crescente de refugiados, o aumento da desigualdade de renda e a deterioração das condições de saúde estão entre as consequências da Covid-19.

Esses países estão na iminência de ter que enfrentar um desastre financeiro internacional.

A resposta multilateral imediata a esta crise foi rápida: programas de empréstimos gigantescos lançados pelo Fundo Monetário Internacional e empréstimos e subsídios de desembolso rápido do Banco Mundial. A dívida está se acumulando em todo o universo.

Uma bonança de empréstimos em andamento

Veja a Zâmbia como exemplo. Em 2012, com o incentivo de instituições financeiras internacionais, o país ingressou no mercado de títulos comerciais pela primeira vez.

Muitos outros países africanos e de mercados emergentes seguiram o mesmo caminho.

Ao mesmo tempo, muitos países tomaram emprestado grandes somas da China. A Zâmbia enfrenta agora o calote da dívida - muitas outras nações a seguirão.

Segredo da China

Com certeza, com a pandemia destruindo economias, os países emergentes precisam desesperadamente de mais dinheiro para pagar suas dívidas pendentes.

A China, por sua vez, está renegociando algumas de suas operações - mas mantendo todos os detalhes em segredo. Os 75 países de renda mais baixa estão sendo autorizados pelo G20 a adiar o serviço da dívida até junho de 2021. Em contraste, os credores comerciais desses países não estão sendo generosos.

Inevitavelmente, os empréstimos do FMI estão sendo reciclados pelos países beneficiários para pagar os credores chineses e comerciais. Enquanto isso, os cidadãos dos países mutuários estão recebendo pouco alívio em suas dificuldades da pandemia.

Ameaças de corrupção

Além disso, há tanto dinheiro espalhado que, sem dúvida, alguns governos dirigidos por cleptocratas estão usando os fundos para aumentar a riqueza pessoal dos políticos.

Ou então, estão recebendo ajuda estrangeira destinada a necessidades emergenciais de saúde e redirecionando-a para projetos do setor público que rendem recompensas substanciais a altos funcionários.

Ademais, o fornecimento de medicamentos e equipamentos médicos necessários agora para combater o vírus em muitos países é alvo de grandes fraudes e corrupção.

O G20, o FMI e o Banco Mundial em nível global, assim como as autoridades da UE e dos EUA em nível regional e nacional, estão despejando quantias sem precedentes de dinheiro no desafio imediato da COVID 19, esperando que, de alguma forma, nunca venha a existir um dia de acerto de contas.

Essas respostas de emergência não são apenas compreensíveis, mas louváveis. Não existem alternativas.

Planejando a resistência

Chegou a hora de deixar de lado as bolas de cristal e as tentativas de racionalização de sonhos. As principais autoridades nacionais e internacionais têm de forjar sistemas de resistência aos pós-choques das estratégias atuais.

Por causa dos efeitos do Coronavírus, será necessário um aumento maciço da ajuda externa.

Para que esta ajuda não seja roubada, os doadores de ajuda terão de trabalhar em estreita colaboração com a sociedade civil em todo o mundo em desenvolvimento e usar os cidadãos do país para monitorar a implementação eficaz da ajuda.

O que o FMI e o G7 devem fazer

Os recursos financeiros do FMI precisarão ser amplamente expandidos. A instituição tem de desenvolver sistemas que permitam aos países esticar o serviço oficial da dívida em troca de estarem dispostos a estar abertos ao monitoramento forçado do FMI de como exatamente os fundos de ajuda são usados.

O G7, por sua vez, precisa realizar uma reunião especial para encontrar maneiras de convencer a China a fazer parte do “Clube de Paris” internacional de credores oficiais e concordar em tornar transparentes seus acordos de empréstimo com dezenas de países.

Conclusão

E o trabalho nas estratégias de grande resistência para os próximos anos, que deve começar agora, precisa abordar explicitamente as perspectivas surpreendentes de insegurança de renda em todo o mundo, desde os idosos nos países ocidentais até as fileiras crescentes dos pobres em todo o planeta.

*Publicado originalmente em 'The Globalist' | Tradução de César Locatelli



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