Economia Política

A desigualdade e seus descontentamentos

O ex-presidente dos EUA John F. Kennedy proclamou que ''uma maré alta levanta todos os barcos''. Em uma economia em crescimento, o bem estar absoluto daqueles próximos do topo e da base estão positivamente correlacionados, então as políticas mais importantes a serem seguidas são aquelas que promovem um crescimento econômico forte e o pleno emprego.

27/10/2020 13:31

(Spencer Platt/Getty Images)

Créditos da foto: (Spencer Platt/Getty Images)

 
STANFORD – A desigualdade vem confiscando cada vez mais a atenção do público nos últimos anos, refletida em todos os lugares desde encíclicas papais e tomos econômicos de socialistas franceses até debates acadêmicos técnicos e linguagens demóticas de políticos e intelectuais. Os efeitos salutares e econômicos da pandemia de covid-19 elevaram ainda mais essas preocupações.

Mas com qual aspecto da desigualdade nós deveríamos nos preocupar? Existem as desigualdades de oportunidade e de renda; tem a desigualdade geral, e a desigualdade nos ramos da distribuição. Deveríamos nos preocupar mais sobre posições absolutas ou relativas – mobilidade ou estabilidade? O que realmente é mais importante, a distribuição da torta econômica ou o nível e crescimento dos padrões de vida?

Na China nas últimas quatro décadas, a desigualdade aumentou, mesmo enquanto centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. Hoje nos EUA, o PIB per capita está 50% mais alto do que nas menos desiguais Dinamarca e Suécia, onde impostos mais altos financiam imensos sistemas de assistência social. Entre os estados dos EUA, a Califórnia possui a maior taxa de pobreza depois de considerar 15% de um maior custo de vida e 20% de um tamanho maior dos lares médios.

Além disso, o consumo e a renda disponível são consideravelmente menos desiguais do que valores de rendimento de mercado frequentemente citados. Medidas comuns tomadas a longo prazo tendem a mostrar menos desigualdade, refletindo o fato de que muitas pessoas são ricas ou pobres somente temporariamente. Muitos dos meus alunos universitários atualmente possuem baixa renda, mas certamente se sairão melhor com o tempo. Não é de se surpreender que perfis de rendimentos por idade e medidas de acumulação de riqueza durante o ciclo de vida mostrariam uma desigualdade considerável em algum momento. Todas as fontes de dados têm seus pontos fortes e limitações, frequência, tamanho da amostra, grau de cobertura, ou equiparação (especialmente relevante no caso de dados internacionais).

Abordando esses fatores do melhor jeito que posso, compilei o seguinte sumário de grandes tendências da desigualdade dos EUA nas últimas décadas. Desde cerca de 1980, a remuneração salarial com base nas qualificações cresceu substancialmente, ao passo que remunerações salariais com base em menores qualificações (ajustadas à inflação) cresceram mais lentamente (não confundir com um declínio). Isso reflete o viés da tecnologia em relação ao trabalho qualificado, aos efeitos negativos da globalização nos assalariados menos qualificados, e na composição da oferta e procura de trabalhos qualificados.

Durante esse período, a desigualdade geral cresceu em quase todas as economias avançadas (embora alguns acreditem que isso irá reverter), sugerindo que políticas internas não foram as causas principais. Similarmente, depois de um longo período de estabilidade, a porção da renda nacional pertencente à mão-de-obra caiu em todas as grandes economias.

Enquanto isso, embora a mobilidade social tenha se mantido em níveis consideráveis, possivelmente caiu, incluindo intergeracionalmente. Mudanças na distribuição salarial se concentraram em sua maioria no topo, e embora tenha ocorrido um aumento relativo de riqueza no topo, é menor do que alguns analistas afirmam.

De fato, houve um grande aumento em pagamentos por transferência em espécie e dinheiro vivo. Um sexto da renda dos EUA vem de tais pagamentos, e a taxa nos estados com proteção social na Europa ocidental é até maior. As obrigações não financiadas dos EUA cresceram em muitas vezes a já alta dívida nacional.

Enquanto a desigualdade na renda disponível (e até mesmo mais no consumo) permanece substancial, é bem menor do que a desigualdade nos rendimentos de mercado. Depois de adicionar transferências e subtrair impostos, vê-se que a renda do 1% nos EUA cai em um terço, enquanto a renda da base triplica em 20%.

Finalmente, até recentemente, somente um progresso limitado era feito no combate à pobreza, mesmo com a proliferação de diversos programas custando $1.2 trilhões de dólares ao ano. Nos três anos anteriores à crise de covid-19, no entanto, a aceleração do crescimento econômico foi acompanhada por uma redução da pobreza ao seu nível mais baixo já visto. Rendimentos médios cresceram bem mais do que nos oito anos anteriores, e os salários cresceram mais rápido na base da pirâmide. A diferença de renda entre aqueles com ensino superior e aqueles sem ficou mais estreita, assim como a lacuna entre brancos e minorias.

Onde essas tendências gerais nos deixam? O ex-presidente dos EUA John F. Kennedy proclamou que “uma maré alta levanta todos os barcos”. (Detalhadamente, uma maré alta levanta a maioria dos barcos e deixa poucos ancorados ou naufragados.) Em uma economia em crescimento, o bem estar absoluto daqueles próximos do topo e da base estão positivamente correlacionados, então as políticas mais importantes a serem seguidas são aquelas que promovem um crescimento econômico forte e o pleno emprego.

Nesse contexto, não há muito espaço para uma grande expansão do estado de bem estar social sem prejudicar seriamente o crescimento econômico e, com isso, a igualdade intergeracional. Qualquer expansão é limitada pelas cada vez maiores obrigações não financiadas da Previdência Social, Medicare, e seus similares estaduais e locais, bem como pelos efeitos negativos de impostos explícitos e implícitos maiores (refletindo a proporção com a qual os recipientes perdem benefícios com o crescimento dos rendimentos).

Ao consolidar, modernizar, e melhor direcionar programas existentes, os EUA poderiam liberar recursos para onde mais precisam. O governo federal não precisa de 47 programas de treinamento para o mercado de trabalho em nove agências, custando cerca de $20 milhões de dólares por ano e gerando resultados deficientes. Do mesmo modo, desacelerar o crescimento do gasto com Previdência Social com aqueles que já possuem outros recursos consideráveis poderia reduzir a necessidade de impostos futuros maiores e ajudar a alcançar o objetivo original do Presidente Franklin D. Roosevelt de fornecer um “grau de proteção ... contra a velhice repleta de pobreza”.

Além disso, reformas educacionais, como programas de “escolha escolar” e “pagamento por mérito”, podem aprimorar oportunidades para crianças desfavorecidas. E taxar uma base mais ampla de atividades econômicas e pessoas pode manter tarifas as mais baixas possíveis enquanto ainda financia adequadamente as funções necessárias do governo.

Enquanto alguns na esquerda e na direita libertária insistem por uma renda básica universal, seria bem mais simples subsidiar salários baixos para aqueles que podem trabalhar. Isso aumentaria rendas, forneceria incentivos de trabalho mais fortes, e colocaria mais pessoas na escada econômica do que fariam as determinações salariais que tiram as pessoas do mercado e criam uma dependência assistencialista. E enquanto os custos diretos dos subsídios salarias seriam substanciais, seriam compensados pela redução dos pagamentos de programas existentes.

É tempo de começar a aproveitar o poder do mercado ao invés do poder do governo. É assim que vamos substituir a dependência por oportunidades e mobilidade ascendente.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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