Economia Política

A economia está cantando pneus, e prestes a levantar voo

 

31/05/2021 13:30

(Landon Nordeman/Trunk Archive)

Créditos da foto: (Landon Nordeman/Trunk Archive)

 
Você está se dirigindo a uma reunião, mas está atrasado e para no sinal vermelho. Sendo um cidadão respeitador das leis, você não vai avançar o sinal, mas aperta fundo no acelerador assim que ele abre.

E por um arrepiante momento – talvez porque o asfalto estivesse um pouco molhado – os pneus derrapam inutilmente antes de ganhar tração e de seu carro seguir em frente.

Você diz que isso nunca aconteceu com você? Tudo bem. De qualquer forma, é um fenômeno comum os pneus derraparem, normalmente sem maiores consequências. Poucos minutos depois de sua ousada arrancada você está dirigindo normalmente, tendo esquecido o incidente.

Isso me traz ao estado atual da economia dos EUA. As notícias econômicas nestes dias estão cheias de ansiedade. O preço das matérias primas está disparando! Os empresários não conseguem contratar trabalhadores! De volta à década de 1970!

Relaxem todos! No geral, estamos apenas experimentando o equivalente econômico a um momento de derrapagem.

Tudo bem, existem questões importantes envolvendo os eventos atuais que precisam ser discutidas – e algumas das discussões em curso envolvem debates sérios entre pessoas sérias. Quanto as escolas fechadas e a falta de creches têm levado mães a ficarem fora da força de trabalho paga? Estaria o reforçado seguro desemprego fazendo com que os trabalhadores relutem em aceitar um emprego de baixo salário?

E existem legítimos questionamentos sobre onde estaremos no ano que vem. Pode a economia começar a superaquecer, forçando o Fed (Banco Central dos EUA) a pisar no freio para evitar uma inflação de longo prazo? Não acredito que isso seja o mais provável, mas com certeza existe a possibilidade.

Entretanto, a maioria das assustadoras manchetes de agora reflete apenas o que você esperaria ver numa economia que tenta ir de 0 a 100 em segundos.

No começo do ano, os Estados Unidos ainda estavam nas profundezas da pandemia. O número de mortes diárias era mais alto do que nunca, com a Covid-19 ceifando mais de 3.500 vidas todo dia. Setores da economia que exigem contato físico estavam quase congelados. Segundo o aplicativo OpenTable.com, caiu em 60% o número de consumidores em restaurantes comparado com o período pré-pandemia.

Então surgiu a extraordinariamente bem sucedida campanha de vacinação. As mortes caíram mais de 85% e continuam a cair. Ao mesmo tempo em que o medo diminui, a economia se reanima, no que tende a ser a mais rápida recuperação já vista. Por exemplo, reservas em restaurantes voltaram quase ao normal.

Como alguém iria imaginar que seríamos capazes de atingir tal nível de aceleração sem deixar marcas de derrapagem, e mesmo sem queimar alguma borracha?

Então, sim os operadores de serrarias, que esperavam uma queda mais longa, foram pegos desprevenidos, fazendo com que o preço da lenha subisse aos céus. Empresas de aluguel de carros, que venderam grande parte de sua frota no ano passado, estão desesperadas para comprar veículos novamente, ajudando a aumentar enormemente o preço dos carros. E assim vai.

E essas notícias sobre falta de mão de obra? Em parte isso é o que sempre acontece depois de um período de alto desemprego. Empresários ficam acostumados a ter uma fila de pessoas buscando emprego na sua porta, e ficam mal-humorados quando o mercado deixa de ser comprador. Pequenos negócios pesquisados no começo de 2015 relataram uma forte carência de trabalhadores qualificados; estranho dizer, o boom de empregos que teve início em 2010 ainda tinha outros cinco anos para correr.

E, vamos assumir, é difícil derramar lágrimas para empresários que reclamam que pretendentes a emprego perguntam: “Quanto você paga?”

Ainda assim, existe clara evidência, como número de criação de vagas, que empregadores estão tendo problemas para contratarem trabalhadores com rapidez suficiente para atender a crescente demanda. E questões como cuidados com as crianças provavelmente estão tendo peso. Pode também estar havendo algum “pegue esse emprego e...” – alguns trabalhadores, especialmente aqueles perto da aposentadoria, podem apenas não estarem querendo voltar para os empregos desagradáveis, mal pagos que tinham antes.

Entretanto, o que vemos são apenas problemas que devemos esperar quando a economia tenta acelerar saindo da inércia, o que significa que estamos pedindo aos fornecedores para aumentar fortemente a produção e esperando que os empregadores atraiam rapidamente um grande número de novos empregados. Esses problemas são reais, mas irão se resolver por si só em poucos meses.

Então, o que esses problemas provavelmente temporários dizem sobre o longo prazo, e em particular sobre o plano econômico do presidente Biden? Isso é fácil: nada. Os opositores de Biden apresentam cada notícia negativa como prova de que toda sua agenda está fadada ao fracasso. É política, nenhum deles deve ser levado a sério.

Sim, problemas de oferta de trabalho podem ter segurado o aumento do emprego em abril, apesar de dados recentes mostrarem uma provável retomada. O crescimento da inflação em abril surpreendeu negativamente, principalmente pelos preços dos carros usados. Nada disso deveria nos preocupar sobre um superaquecimento, para não falar sobre quanto mais deveríamos gastar em infraestrutura e apoio às famílias (resposta: muito) ou sobre quem deveria pagar por essas iniciativas (resposta: imposto sobre corporações e os ricos).

Como eu disse, relaxa. Existem algumas notícias ruins, mas a maior parte delas é um subproduto temporário de notícias extraordinariamente boas. O vírus este perdendo, e a economia está ganhando.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Carlos Alberto Pavam

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