Economia Política

A pandemia de incerteza

A tarefa mais importante dos formuladores de políticas é tentar reduzir a enorme incerteza persistente em relação à COVID-19, e, ao mesmo tempo, continuar a fornecer ajuda de emergência aos indivíduos e setores econômicos mais afetados. Mas a insegurança alimentada pela pandemia provavelmente pesará na economia global por longo tempo depois que o pior já tiver passado

07/09/2020 15:28

(dowell/Getty Images)

Créditos da foto: (dowell/Getty Images)

 
CAMBRIDGE - Os próximos meses nos dirão muito sobre o formato que terá a recuperação global que se aproxima. Apesar dos mercados de ações estarem efervescentes, a incerteza sobre a COVID-19 permanece generalizada. Independentemente do curso da pandemia, portanto, a luta mundial contra o vírus até agora provavelmente afetará o crescimento, o emprego e a política por um muito tempo.

Vamos começar com as possíveis boas notícias. Em um cenário otimista, os reguladores terão aprovado pelo menos duas vacinas COVID-19 de primeira geração até o final deste ano. Graças ao extraordinário apoio regulatório e financeiro do governo, essas vacinas entrarão em produção antes mesmo da conclusão dos testes clínicos em humanos. Supondo que sejam eficazes, as empresas de biotecnologia já terão cerca de 200 milhões de doses disponíveis até o final de 2020 e estarão a caminho de produzir bilhões a mais. Distribuí-los será um grande empreendimento por si só, em parte porque o público precisará ser convencido de que uma vacina acelerada é segura.

Com sorte, os cidadãos de países ricos que desejam a vacina a terão recebido até o final de 2021. Na China, praticamente todos terão sido vacinados até lá. Alguns anos depois disso, o mesmo acontecerá com a maior parte da população mundial, incluindo aqueles que vivem em economias emergentes e em desenvolvimento.

Esse cenário é verossímil, mas concretizá-lo está longe de ser garantido. O coronavírus pode ser mais teimoso do que o esperado, e as vacinas de primeira geração podem ser eficazes apenas por um curto período ou ter efeitos colaterais piores do que o previsto.

Mesmo nesse caso, protocolos de teste aprimorados, o desenvolvimento de tratamentos antivirais mais eficazes e melhor adesão por parte do público e (espera-se) dos políticos às diretrizes comportamentais levariam à normalização gradativa das condições econômicas. Vale a pena lembrar que a horrível pandemia de influenza de 1918-20, que matou pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo - muitas em uma segunda onda mortal do tipo da que atualmente tememos hoje com COVID-19 - no final enfraqueceu e desapareceu sem qualquer vacina.

Mas em um cenário mais pessimista, outras crises - um aumento acentuado nos atritos comerciais EUA-China, um ataque ciberterrorista ou ciberguerra, uma catástrofe natural relacionada ao clima ou um grande terremoto - podem ocorrer antes que esta termine. Além disso, mesmo o cenário otimista não implica necessariamente um rápido retorno aos níveis de renda do final de 2019. A expansão pós-pandemia - se houver - pode levar anos para atender à definição moderna de recuperação (um retorno à renda per capita inicial) após uma recessão profunda.

Embora a pandemia tenha enfatizado o enorme problema da desigualdade nas economias avançadas, os países pobres estão sofrendo muito mais. Muitos mercados emergentes e economias em desenvolvimento provavelmente terão dificuldades com a COVID-19 nos próximos anos e enfrentarão a possibilidade real de uma década perdida de desenvolvimento. Afinal, poucos governos têm a capacidade de fornecer apoio fiscal emergencial na escala que os Estados Unidos, Europa e Japão estão fazendo. Recessões prolongadas em países de baixa renda provavelmente levarão a uma epidemia de crises de dívida e inflação.

Mas a crise da COVID-19 também pode deixar cicatrizes profundas e duradouras nas economias avançadas. As empresas podem estar mais receosas de investir e contratar, devido a preocupações com uma recaída na saúde pública ou outra pandemia, sem mencionar a enorme volatilidade política que a crise amplificou.

Embora possa haver um aumento inicial de “recuperação” dos gastos do consumidor nas economias avançadas, no longo prazo, os consumidores provavelmente economizarão mais. Em um artigo interessante apresentado no recente simpósio anual de Jackson Hole, Julian Kozlowski, Laura Veldkamp e Venky Venkateswaran argumentam que os custos cumulativos de longo prazo da pandemia para a economia dos Estados Unidos são provavelmente uma ordem de magnitude maior do que os efeitos de curto prazo, em parte por causa de uma sensação intensificada e duradoura de mal-estar entre o público.

A análise deles, que discuti no simpósio, é especialmente convincente no que diz respeito aos consumidores. Qualquer pessoa com pai ou avô que viveu a Grande Depressão dos anos 1930 sabe que essa experiência marcante afetou seu comportamento ao longo da vida.

Além de seu impacto direto no investimento e no emprego, a COVID-19 imporá custos de produtividade de longo prazo. Quando a pandemia acabar, uma geração de crianças, especialmente as de famílias de baixa renda, terá de fato perdido um ano de escolaridade. Jovens adultos que lutam para encontrar seu primeiro emprego em um mercado de trabalho ainda moribundo podem esperar ganhar menos no futuro do que ganhariam de outra forma.

Existem alguns pontos positivos. Embora a pandemia tenha desencadeado um colapso no valor dos imóveis comerciais em muitas cidades, ela pode levar a uma grande onda de novas construções e investimentos em áreas suburbanas, bem como em pequenas e médias cidades sofridas. Em geral, as empresas que não permitiam o teletrabalho agora estão reconhecendo que ele pode funcionar bem e ter muitos benefícios. E embora não devamos ficar muito ansiosos, a pandemia pode estimular os legisladores a encontrar maneiras de fornecer Internet de banda larga universal e dar às crianças menos privilegiadas um acesso muito melhor a computadores pessoais.

A economia global está agora em uma bifurcação. A tarefa mais importante dos formuladores de políticas é tentar reduzir a enorme incerteza persistente em relação à COVID-19, e, ao mesmo tempo, continuar a fornecer ajuda de emergência aos indivíduos e setores econômicos mais afetados. Mas a insegurança alimentada pela pandemia provavelmente pesará na economia global por longo tempo depois que o pior já tiver passado.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli



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