Economia Política

Aí vem a grande ameaça de deflação

 

09/04/2020 12:22

Uma pessoa aponta para uma placa em frente ao Departamento do Trabalho do Estado de Nova York, que está fechado, em 25 de março na cidade de Nova York. (Angela Weiss/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Uma pessoa aponta para uma placa em frente ao Departamento do Trabalho do Estado de Nova York, que está fechado, em 25 de março na cidade de Nova York. (Angela Weiss/AFP/Getty Images)

 

Que tipo de crise econômica será essa? É muito cedo para saber, mas não é muito cedo para especular. Fiz uma pesquisa totalmente não científica das previsões econômicas. Eu mesmo solicitei algumas, outras vieram pelos e-mails que regularmente recebo. O que se segue é um resumo rápido do que encontrei, que não tenta prever o pico do desemprego ou o impacto nas eleições presidenciais. Meu objetivo é mais modesto: esclarecer o que sabemos e o que não sabemos.

Você vai se lembrar do contexto. O coronavírus se transformou em uma máquina de matar empregos. As empresas fecharam às milhares quando perderam clientes e os governos invocaram as quarentenas. Empregos, lucros e mercado de ações caíram drasticamente. A próxima grande preocupação pode ser a deflação, uma queda geral dos preços. Já está ocorrendo no petróleo, onde a demanda global diária caiu de cerca de 100 milhões de barris para 80 milhões. Os preços desenharam uma espiral para baixo.

Já existe um número enorme de trabalhadores desempregados. Os pedidos de seguro-desemprego do governo aumentaram em 3,3 milhões e 6,6 milhões nas últimas duas semanas, respectivamente. O total de quase 10 milhões é provavelmente o aumento mais rápido do desemprego desde a Grande Depressão. Se esses 10 milhões fossem adicionados ao desemprego preexistente, a taxa de desemprego (3,5% em fevereiro) saltaria para mais de 10%, estima uma publicação no blog do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO).

Isso ainda não aconteceu. Quando o Bureau of Labor Statistics (BLS) divulgou os últimos números de desemprego em 3 de abril, a taxa oficial de desemprego tinha subido para apenas 4,4% em março. A diferença entre os 4% e os 10% tem muitas causas, disse o BLS: (1) Grande parte da pesquisa de emprego ocorreu no início de março, antes que o impacto total das demissões por coronavírus fosse sentido; (2) alguns trabalhadores em dispensa temporária foram classificados incorretamente como empregados; (3) algumas entrevistas “foram suspensas. . . para a segurança dos entrevistadores e entrevistados ".

A confusão também envolve o produto interno bruto (PIB), a produção da economia. Alguns economistas acreditam que o PIB sofrerá um declínio de dois dígitos no segundo trimestre. O CBO prevê uma queda de 28%. Uau! Mas este é um acaso estatístico. A CBO realmente espera que o PIB caia 7% durante o segundo trimestre. No entanto, os dados são apresentados em formato anual. Portanto, os 7% devem ser multiplicados por quatro. Presto: 28%.

Muitos analistas esperam que a economia se recupere no verão. A pandemia diminuirá e muitas pessoas poderão voltar ao trabalho. Os economistas Nariman Behravesh e Elisabeth Waelbroeck-Rocha, da IHS Markit, empresa de previsões, esperam que o PIB dos EUA caia 5,4% em 2020.

A Capital Economics, uma empresa de consultoria, acredita que a pandemia no final do ano estará “sob controle em grande parte do mundo , incluindo os EUA. E achamos que isso preparará o terreno para uma recuperação mais duradoura.” As ações europeias podem avançar de 20% a 30% no mesmo período. O Goldman Sachs espera que o PIB sofra um grande golpe no segundo trimestre, mas depois salte 19% no terceiro trimestre, resultando em uma queda de 6,2% no ano como um todo.

Mas os pessimistas abundam. Não há dúvida de que a queda será severa. Muitos economistas identificaram excedentes de pessoas e produtos. Desmond Lachman, do American Enterprise Institute, teme o pior. "A epidemia de coronavírus está desencadeando outras crises econômicas", escreve ele. Entre essas crises está “o estouro de uma bolha global de preços de ativos. . . uma crise de crédito global e uma grande reversão dos fluxos de capital para as economias dos mercados emergentes".

O economista Mark Zandi, da Moody's Analytics, também é pessimista. As famílias enfrentam perda de renda e riqueza, escreve ele. “Cerca de US$ 10 trilhões em patrimônio dos acionistas (dependendo do dia e da hora) evaporaram nas últimas semanas. Um poderoso efeito patrimonial - a relação entre a riqueza das famílias e seus gastos - logo ocorrerá. Estimamos que o efeito riqueza em um mercado de ações em baixa seja de 4,5 centavos por cada dólar de declínio no patrimônio de ações; os gastos do consumo cairão quase 5 centavos em menos de um ano”, diz ele. Se for um processo continuado, isso "esmagará os gastos dos consumidores e a economia".

A deflação é uma queda generalizada nos preços, assim como a inflação é um aumento generalizado nos preços. Em teoria, uma deflação modesta poderia ajudar a uma recuperação econômica, tornando os bens e serviços mais baratos. Mas a rápida deflação pode ser autodestrutiva. As empresas se tornam ainda menos rentáveis e os consumidores adiam as compras porque os preços ainda cairão mais.

A Grande Depressão fornece evidências dos efeitos perniciosos da deflação. Os preços agrícolas entraram em colapso, dificultando o pagamento das dívidas pelos agricultores. Os atrasos no pagamento das hipotecas aconteciam aos milhares. Os preços caíram mais do que os salários, aumentando os custos trabalhistas e frustrando os esforços das empresas para retomar a produção. Trabalhadores ociosos e máquinas ociosas reduziram os preços, atrasando a recuperação. Não podemos deixar que isso aconteça novamente.

*Publicado originalmente em 'The Washington Post' | Tradução de César Locatelli

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