Economia Política

As elites do financismo: mudanças ou jogo de cena?

 

01/09/2021 11:13

(Reprodução/Outras Palavras)

Créditos da foto: (Reprodução/Outras Palavras)

 
O isolamento político de Bolsonaro segue firme a cada novo dia que amanhece. No início, eram “apenas” as pesquisas de opinião que começavam a apontar para uma piora nos índices de avaliação de seu governo. O primeiro ano ainda era objeto de muita expectativa por parte da maior parte de nossas elites empresariais, que haviam prestado todo o seu decisivo apoio para que o ex-capitão saísse vencedor no segundo turno das eleições presidenciais em outubro de 2018.

A presença de Paulo Guedes no coração da campanha, na condição de assessor todo poderoso para assuntos de economia, foi a desculpa para a profunda irresponsabilidade de jogar mundos e fundos com vistas a levar o defensor da pena de morte e da tortura a ocupar o Palácio do Planalto. Em retribuição aos bons serviços prestados ao candidato, depois da vitória eleitoral o banqueiro foi guindado a superministro da economia, com uma concentração de poderes jamais vista na História do País.

O discurso conservador ancorado na ortodoxia monetarista só falava em privatizar todas as empresas estatais, em liberalizar ao máximo a economia, em destruir as instituições da administração do Estado e em desmontar as políticas públicas. Esse era o modo de traduzir em ações concretas o sonho utópico das lideranças das classes dominantes tupiniquins. Com quarenta anos de atraso, depois que a maior parte das direções das diversas frações da burguesia nos países desenvolvidos já havia desistido de levar à frente o projeto suicida de Estado mínimo de Milton Friedman, eis que Paulo Guedes surge brandindo sua baba raivosa por aqui.

A crise de 2008/9 havia provocado uma grande transformação no diagnóstico hegemônico a respeito das alternativas de política econômica, em especial no que diz refere à política fiscal. No próprio interior do “establishment” financeiro e dos organismos multilaterais deu-se a percepção de que, sem a recuperação em algum grau do protagonismo do Estado, não haveria condições de ser superada a crise que atingia o mundo desenvolvido à época. Assim, a política de austeridade extrema foi flexibilizada para fazer face às dificuldades econômicas enfrentadas por boa parte dos países.

Austericídio e pandemia: popularidade em queda.

Mas os representantes do financismo em nossas terras não incorporaram tais mudanças em sua análise. O Brasil seguiu fiel à tradição do austericídio e os sucessivos governos mantiveram a obsessão com metas de superávit primário e de contenção de despesas orçamentárias como regra geral de conduta para a política econômica. Paulo Guedes levou esse programa maximalista ao seu limite e os resultados apontaram para aumento do desemprego e para a dificuldade em recuperar a rota do crescimento da economia - o que dizer então de opções de desenvolvimento.

As repercussões políticas de tal estratégia passaram a se manifestar nas pesquisas de opinião. À medida que evoluía a conjuntura, a popularidade do governo enfrentava maiores dificuldades, como pode ser identificado no gráfico abaixo. A gestão genocida da pandemia, a partir de primeiro trimestre de 2020, só logrou um breve período de melhoria quando a oposição conseguiu aprovar um valor de R$ 600 para o auxílio emergencial, contra a orientação do comando econômico do governo. Mas a volta da pobreza e da miséria, somadas às mais de 580 mil mortes pela irresponsabilidade do governo frente à pandemia, fizeram explodir as avaliações de “ruim e péssimo” nas pesquisas.



Em março de 2021, o processo político ganha uma inflexão de peso. O Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente reconheceu as inúmeras ilegalidades cometidas pelo ex-juiz Sérgio Moro nos processos por ele conduzidos na chamada República de Curitiba e que culminaram na condenação de Lula. Com a recuperação de seus direitos políticos, o ex-presidente voltou a ser identificado como o único candidato capaz de derrotar de forma segura o defensor da tortura e das milícias em seus intentos de reeleição. A partir de então, as pesquisas de intenção de voto passam a oferecer uma alternativa de superação da tragédia representada pelo governo Bolsonaro.

O gráfico abaixo apresenta os resultados apresentados pelas pesquisas realizadas pelo XP/Ipespe entre janeiro de 2020 e agosto de 2021. O aprofundamento da crise econômico-social e a consolidação do discurso golpista de Bolsonaro acompanham o chamado efeito “boca de jacaré”, com a queda das intenções do atual Presidente e a elevação das intenções de voto em Lula.



Bolsonaro percebeu as dificuldades crescentes e buscou rapidamente se aliar ao fisiologismo do Centrão no interior do legislativo. Além disso, entregou a representantes desse grupo amorfo uma parcela ponderável de seu governo. Fez uma campanha ostensiva para facilitar a eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara dos Deputados e de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para o comando do Senado Federal. O primeiro segue sendo estratégico para impedir a aceitação de qualquer um dos inúmeros pedidos de impeachment já protocolados e as novas solicitações que devem se somar nos próximos meses. Já no Senado, a presidência pode facilitar a vida do governo na dinâmica parlamentar. Não foi por outra razão que o chefe de governo, um tanto acuado, resolveu praticar um novo estelionato eleitoral e entregou o coração de sua equipe ministerial a Ciro Nogueira (PP-PI), senador com grande influência sobre o baixo clero no Congresso Nacional.

Bolsonaro nos braços do Centrão.

Esse xadrez todo está sendo montado na tentativa desesperada de reverter o quadro atual de desgaste político e tronar a candidatura à reeleição de Bolsonaro minimamente competitiva. Para tanto, ele precisa apresentar algum resultado à população, uma vez que o saldo até o momento de sua gestão se resume ao desemprego recorde, à baixa atividade da economia, ao genocídio na pandemia, à revelação crescente de casos de corrupção e à conversão do Brasil em um pária no cenário internacional. Isso deve significar a reversão da política de austeridade fiscal, tal como vinha sendo implementada por Paulo Guedes até o momento. Ou seja, junta-se a fome do fisiologismo por cargos e verbas públicas com a necessidade de um programa de despesas governamentais para a conhecida fase de “inauguração de obras”, que antecede normalmente as eleições no País.

Bolsonaro busca manter acesa a opção do golpe militar ou institucional para permanecer no poder. Suas declarações e atitudes dirigidas a esses setores da extrema direita têm a intenção de manter a sua tropa com sangue nos olhos e disposta a defender o líder sob qualquer circunstância. Mas esse caminho implica em acelerar a destruição da institucionalidade estabelecida na Constituição federal. A crise econômica e social se amplia para as dimensões da política institucional. Todos os dias Bolsonaro fustiga o STF, a Justiça de forma geral, o Congresso Nacional, os meios de comunicação e se isola ainda mais.

Esse processo tem provocado a ampliação do arco de descontentamento de seu governo no interior da sociedade. Para além das entidades, partidos e setores da oposição democrática, cada vez mais manifestações de associações e lideranças políticas vinculadas ao capital também são articuladas e divulgadas. O movimento mais recente envolve um manifesto que conta com a adesão de entidades de peso do mundo empresarial, do agronegócio e até mesmo do sistema financeiro. Ao longo da semana, siglas como a Febraban e Fiesp foram objeto de polêmica a esse respeito. As direções da federação dos bancos e federação das indústrias paulistas pretendiam assinar o documento, mas o governo fez um enorme esforço para evitar que o ato se consumasse.

A gota d’água para que as entidades tornassem pública sua posição contra o governo foi a insistência de Bolsonaro em romper a convivência nas regras democráticas e estimular a aventura golpista que pretende se fortalecer a partir das manifestações convocadas pela extrema direita para o feriado de 7 de setembro. A revelação de tal descontentamento tardio de parcela das classes dominantes nada tem a ver com qualquer tradição sincera de defesa da democracia ou da ordem constitucional. Talvez a melhor explicação esteja associada ao andamento doss seus negócios, como sempre. A frustração com parte das promessas de Paulo Guedes e a dificuldade em ver um horizonte de retomada estável da atividade econômica parecem ter contribuído para isso.

Manifesto das elites: compromisso para valer?

Tanto que os termos dos manifestos e documentos que circulam nos corredores do andar de cima estão a quilômetros de distância daqueles que vêm sendo veiculados, há muito tempo, pelos partidos de oposição e entidades do campo democrático e popular. Enquanto as centrais sindicais, por exemplo, denunciam o desemprego, a volta da inflação e o desmonte das políticas públicas, as associações do empresariado reclamam que Guedes teria abandonado a sua opção de privatização e seu compromisso com a austeridade extremada. Enquanto as primeiras exigem a retomada de programas de despesas públicas, como o Auxílio Emergencial, as outras discordam daquilo que seria uma retomada da “gastança irresponsável” e o estouro do déficit nas contas governamentais.

Apesar de tais diferenças, o que é relevante para o momento é a ampliação do arco de alianças contra o governo. A chamada oposição a “geometria variável” implica a participação de grupos de interesse e setores sociais com propostas distintas quanto ao desenho do futuro de um Brasil pós Bolsonaro. No entanto, fica cada vez mais cristalina a falta de alternativas confiáveis caso o chefe da familícia nãos seja substituído o mais rapidamente possível. Que seja pala via do impeachment ou pela derrota nas urnas, o importante é que o seu governo entre para ao anais da História como um exemplo a ser evitado a todo custo.

Por outro lado, pouco importa se o uso que o governo fez da chantagem do Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal para frear a adesão da Febraban ou as pressões de integrantes do governo sobre a direção da Fiesp para um recuo tenham surtido o efeito desejado. O fato é que as manifestações estão na imprensa. A sociedade tem a consciência e a informação a respeito do isolamento crescente de Bolsonaro e que suas tentações golpistas são repudiadas por amplos setores do próprio empresariado.

A dúvida que permanece ainda sem resposta diz respeito desse envolvimento de setores do financismo na denúncia de Guedes e Bolsonaro. Seria uma mudança de postura de fato ou apenas mais um jogo de cena sem qualquer compromisso mais sério em levar essa posição até que a situação do Brasil se resolva? Até onde iria a disposição desse pessoal em evitar a aventura golpista e assumir de forma plena a defesa de um novo caminho para o País?

Talvez a resposta esteja, mais uma vez, na capacidade de mobilização dos setores da oposição. O isolamento do governo precisa ser visualizado e sentido nas manifestações políticas e nas ruas. Aí sim, as placas tectônicas talvez se movam e os setores do conservadorismo no Congresso Nacional compreendam que a continuidade do apoio a Bolsonaro tem apenas o significado de um abraço de afogado.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal



Conteúdo Relacionado