Economia Política

BC admite que seria melhor mudar perfil de pesquisa de 'mercado'

05/07/2011 00:00

André Barrocal

BRASÍLIA – O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, admitiu nesta terça-feira (05/07) que seria “melhor” mudar o perfil da pesquisa semanal do BC sobre inflação e juros feita com entidades tidas como representativas do “mercado”. O levantamento, conhecido como Focus, é dominado pelo sistema financeiro e tem grande poder de influenciar as decisões do BC sobre juros. “Mais diversidade seria melhor”, disse Tombini, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Na pesquisa Focus, o BC entrevista de 90 a 100 instituições uma vez por semana. Dois terços pertencem ao sistema financeiro. São bancos e fundos administradores de dinheiro alheio. A economia real – entidades industriais ou comerciais, por exemplo – responde pelo outro terço. O resultado é divulgado toda segunda-feira, na internet.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), representantes da “economia real”, estão unidas na crítica à pesquisa e na defesa de uma reformulação dela.

Tombini disse que o BC tenta incorporar outros participantes à pesquisa e que, se dependesse só do banco, haveria mais diversidade. O problema, afirmou, é que entidades interessadas em entrar no Focus às vezes não conseguem atender condições que o banco acha necessárias. Faltaria estrutura permanente de produção de análises econômicas, por exemplo.

Tombini foi provocado tocar no assunto, durante a audiência pública, pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Para o senador, a pesquisa tem um problema básico: por que os entrevistados fariam previsões otimistas, se lucram sendo pessimistas e influenciado o BC na hora de fixar os juros?

No dia 29 de junho, ao divulgar outro relatório trimestral de inflação, o documento público mais extenso contendo análises do Banco Central, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, reconheceu que as opiniões do “mercado” pesam. “A visão do mercado é uma visão importante”, afirmara na ocasião.

Na audiência no Senado, Tombini discordou da afirmação de Lindbergh Farias de que os bancos teriam predileção por cenários pessimistas. Os bancos, disse, também ganhariam com juros mais baixos. Poderiam emprestar mais, ganhando com o aumento das operações de crédito.

De 2002 até agora, o total de empréstimos feitos no país, quando medido pelo tamanho da economia, praticamente dobrou desde 2002. O mesmo aconteceu com o número de correntistas dos bancos.

De fato, o relatório trimestral de inflação do BC mostra que, hoje, o segmento do “mercado” mais “pessimista”, naquilo que já está em disputa, que é a inflação do ano que vem, não são os bancos, mas os fundos gestores de recursos dos outros. Este grupo, sim, depende mais do lucro de investir em títulos públicos em troca de juros altos. Não tem como trabalhar com empréstimos. Pelo relatório, os bancos apostam numa inflação de 5% do ano que vem e os chamados asset managements, em 5,4%.

A meta oficial é de 4,5%, e o BC diz que, desde agora, já está trabalhando – e portanto calibrando o juro – para que o alvo seja atingido no ano que vem. Em 2011, o governo decidiu aceitar uma inflação maior, mas ainda dentro do limite máximo de 6,5%, para não ser obrigado a sacrificar o crescimento do país.

A previsão do “mercado” de que a inflação no ano que vem estará acima da meta e sua capacidade de fazer dela uma profecia autorealizável pressionam o Banco Central a manter a taxa de juros em patamar elevado. E, sobretudo, a retardar um movimento que, segundo Tombini, será inevitável, restando dúvida sobre quando começa: a redução do juro brasileiro para níveis comuns vistos pelo mundo.

“Em algum momento lá na frente, será possível iniciar esse processo”, disse o presidente do BC. “No futuro, nós vamos começar a testar essa convergência [do juro para patamar internacional].”

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