Economia Política

Belluzzo: a saída vai na linha dos mecanismos do pós-guerra

 

27/01/2021 12:46

 

 
Riqueza abstrata

O que seria um sistema de acumulação de riqueza abstrata, monetária? Quando o professor Belluzzo usou a expressão, lembrei-me dos mais velhos, quando eu era adolescente, que preferiam ter suas economias em bens de raiz, imóveis, ou bois, máquinas, ouro ou outros bens bem concretos. Claro que isso acontecia com a ínfima minoria que conseguia se sustentar e ainda ter economias. Não confiavam muito em coisas que tem um valor meio fluido, meio abstrato, como dinheiro, papel moeda ou dinheiro em bancos, ou mesmo títulos e outros papéis. Essa desconfiança, aliada ao espírito daquele tempo, fazia com que o movimento central das economias capitalistas fosse a busca de riqueza concreta, real.

“Eu vivi um período que tinha José Mindlin, Antônio Ermírio de Moraes [que eram empresários donos, respectivamente, da Metal Leve e da Votorantim], mas isso foi o ambiente social do desenvolvimento brasileiro que criou esse pessoal. ‘Fabricar os fabricantes’, não era o que dizia Gramsci? Eles eram atores sociais.” Belluzzo nos lembrou ainda do Documento dos Oito

quando em 1978, em meio à ditadura militar, esses dois e mais seis empresários publicaram sua “concepção sobre os rumos do desenvolvimento econômico, fundado na justiça social e amparado por instituições políticas democráticas, convencidos de que estes são, no essencial, os anseios mais gerais da sociedade brasileira”. A postura dessas lideranças empresariais, com todas as ressalvas que cabem, representa um fosso de distância com a maioria dos empresários de hoje.

“As economias cresciam, bancos criavam empréstimos, dívidas, para as empresas e as famílias, ao mesmo tempo em que a renda crescia na mesma proporção ou até mais”, prossegue Belluzzo. “A financeirização é inerente ao capitalismo, mas era um sistema financeiro disciplinado.”

Quando o processo de acumulação de riqueza se deslocou para o lado abstrato, monetário, estava estabelecida a disfunção: “a dívida se descolou do emprego e da renda”. Ao contrário de ser lastreada em atividade real e bens reais, “a criação de crédito é, sobretudo, para valorizar ativos financeiros, em todas as partes do mundo.”

Belluzzo ressalta a dificuldade em se falar do mundo do trabalho sem caracterizar essa complexidade, sem caracterizar o capitalismo presente como “um sistema de acumulação de riqueza abstrata ou monetária”. Um sistema em que “quem tem poder de decisão tem acesso a crédito”. Em que o Federal Reserve, banco central dos EUA, inchou seu balanço para perto de “9 trilhões de dólares para sustentar os preços dos ativos”, ações e títulos financeiros. “A etiologia [o germe] desse capitalismo é extremamente danosa para o investimento produtivo, para o gasto produtivo e para o mercado de trabalho”, conclui ele.

A conclusão, portanto, dessa primeira para da exposição do professor Belluzzo, na mesa do Fórum Social Mundial virtual de 2021, promovida pelo Fórum 21 e pela Carta Maior, é que a transformação, de um capitalismo centrado na produção e no desenvolvimento para um capitalismo em que a acumulação de riqueza abstrata, dinheiro, ocupa o centro, é talvez a causa principal do dano no nível e na qualidade do emprego.

“Não é por acaso que temos um quantidade absurda de trabalho precário nos EUA. As pessoas não falam isso. Elas medem o emprego de uma maneira imperfeita, mas se olharmos a fundo é 40% da população que está ou em trabalho parcial ou em trabalho precário. Nós estamos assistindo esse fenômeno. No Brasil é pior ainda, pois atinge uma população pauperizada e muito maltratada”, acrescenta Belluzzo.

Progresso tecnológico

O que acontecerá se, à essa feição do capitalismo, juntarmos inteligência artificial, robótica etc.? Se juntarmos avanço tecnológico com dominância financeira? A destruição de postos de trabalho se alia à queda no investimento global. Ademais, “para um mesmo volume de investimento, você perdeu capacidade de criação de empregos e isso vai tornando a situação disruptiva”.

“O capitalismo está dissolvendo a relação salarial. Vejam os empregos que estão surgindo, nas várias plataformas. O trabalhador não tem vínculo trabalhista. (…) Sem regulação as pessoas vão trabalhar e não têm nenhuma garantia, aposentadoria, seguro saúde, seguro desemprego”, salienta o professor.

Ele nos ensina que o próprio comitê de política monetária do Federal Reserve (FOMC) alertou, em uma de suas últimas atas, para a necessidade de “dirigir recursos para as atividades produtivas, para as atividades que possam sustentar o maior número de norte-americanos, que possam estimular o gasto, estimular a recuperação da economia”.

Sobre o trabalho, Belluzzo cita Marx e Keynes: “Marx está falando que a forma adquirida pelo trabalho, na economia capitalista, vai ser dissolvida pelo seu movimento [da própria economia], pelas suas contradições. (…) Keynes achava que se o avanço fosse bem construído, socialmente e politicamente, ele seria muito benéfico para as pessoas”.

Explicitando sua crença pessoal, Belluzzo afirma que “Marx era um libertário, que pensa todo o tempo nessa questão da liberdade. (...) Sou impregnado por esse sentimento de que é possível combinar liberdade com igualdade e a boa vida, como dizia Keynes.”

A China

“Não estou fazendo adesão ao modelo chinês. Estou dizendo que eles construíram uma forma de relação entre o Estado e o mercado, formaram um ecossistema. Porque eles têm relações de propriedade das grandes empresas estatais que penetram nas empresas privadas, transformando isso numa forma coletiva de organização do trabalho e da economia”, expõe ele

Não há saída, a não ser seguir em direção semelhante, argumenta. “Precisamos de um modelo de socialização que respeite a liberdade, mas que inclua a responsabilidade social das pessoas que gozam dessa liberdade. (…) As pessoas dizem que a China é uma ditadura, de fato, é uma coisa autoritária do PC. Mas os chineses têm esse compromisso com a comunidade deles. Eles não têm esse individualismo detestável que vivemos aqui”.

A agenda

Belluzzo sobre o tom ao falar sobre o caminho pelo qual estamos sendo conduzidos: “temos que nos organizar para enfrentar essa desorganização que está sendo produzida na economia brasileira, por um projeto que não tem nenhuma viabilidade, eu digo a vocês, nenhuma viabilidade. (…) Para o empresário individual é bom reduzir salários, mas se reduzir de todos a economia não anda, porque não tem demanda para aquilo que está sendo produzido. Henry Ford percebeu isso lá atrás. É um princípio da demanda efetiva. Se você não tem o poder de compra dos trabalhadores como você vai [vender sua produção]?

O que fazer? Por onde começar a reconstrução? Belluzzo propõe dois eixos principais. “A agenda começa com um controle muito rigoroso, como foi feito no pós-guerra, sobre o setor financeiro, que é ele que é o ‘ephor’. [Éforo era um magistrado espartano, eleito para representar a aristocracia e contrabalançar o poder dos reis e do senado, segundo o dicionário Houaiss] Schumpeter criou a expressão ‘ephor’ que era quem comandava as decisões reais. E esse é o mercado financeiro. É o ‘ephor’. É quem manda abstratamente na vida da economia e da sociedade”.

O segundo eixo, a ser perseguido simultânea e paralelamente, é “cuidar das disrupções do mundo do trabalho, porque elas vão exigir que se tenha uma renda básica, que se tenha uma proteção ao pequeno negócio, para que as pessoas tenham capacidade de empreender. Fazer o que fizeram na Europa no pós-guerra”. Encerrando sua exposição, Belluzzo relembra o filme A Classe Operária vai ao Paraíso [La classe operaia va in paradiso], de 1971. Um dos maiores nomes do cinema político italiano, Elio Petri conta a história de um operário que sofre um acidente de trabalho na fábrica.

“Quem assistiu?” Encerra ele sua conferência Capitalismo, desigualdades, relações sociais e mundo do trabalho.



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