Economia Política

Bolsonaro afunda e a economia patina

 

13/07/2021 16:44

(EPA / BBC News Brasil)

Créditos da foto: (EPA / BBC News Brasil)

 
Os grandes meios de comunicação continuam insistindo na estratégia de Ricardo Salles, o ex ministro do Meio Ambiente. Sim, aquele mesmo que confessou em reunião fechada do governo - que ele não sabia estar sendo gravada - que Bolsonaro deveria aproveitar o momento em que a maioria da sociedade estava com suas atenções voltadas para a pandemia para “passar a boiada” e aprovar uma série de medidas com o intuito de beneficiar o agronegócio e os agentes do desmatamento ilegal. Ou seja, fazer tudo aquilo que o titular de uma pasta como a dele deveria na verdade evitar.

Passaram-se os meses e os escândalos crescentes evidenciando a prática de favorecimento às atividades irregulares terminaram por levar à sua demissão. Pois agora, a bola da vez está com o superministro Paulo Guedes. Aqueles setores que despejaram seu apoio a Bolsonaro em outubro de 2018 por acreditarem na oportunidade que se abriria com um banqueiro amigo no comando da economia ainda não desistiram de se beneficiar da presença do “old chicago boy” na Esplanada. Seguem na linha do “Bolsonaro é mesmo muito ruim, mas pelo menos o Guedes tenta fazer o seu serviço”, procurando aproveitar o momento para realizar bons negócios e deixar armadas as estruturas para possibilidades de acumulação futura.

A pauta a ser contemplada com a urgência necessária é vasta. Vai desde a privatização e empresas estatais estratégicas (como Eletrobrás e Correios, entre outras) até mudanças constitucionais mais complexas (como a Reforma Administrativa e a Reforma Tributária), passando por propostas do tipo da independência do Banco Central. Ocorre que Paulo Guedes não pode tudo fazer aquilo que deseja, pois afinal ele ainda tem um chefe. E Bolsonaro tem uma obsessão no momento atual de sua vida: permanecer no poder a partir de 2022, seja por meio de um golpe, seja por meio de uma cada vez mais difícil vitória nas eleições.

Popularidade de Bolsonaro despenca.

Para conseguir a hercúlea façanha de reverter o quadro apontado pelas pesquisas de opinião, o ex capitão precisa ter algo de positivo a apresentar para a população ao longo dos próximos meses. Ainda que o pleito esteja a séculos de distância pelo andar emocionante da evolução da conjuntura, o fato é que algum crescimento no ritmo da atividade econômico é essencial para seu projeto de continuidade. Esse dado é condição preliminar para reduzir o desemprego, melhorar as condições de vida da população e também obter alguma folga na rigidez austericida de Guedes com encomendas de despesas orçamentárias mais livres.

Afinal, desde sempre é sabido por essas terras que ano de eleição é ano de se aumentarem os gastos públicos. Com Guedes ou sem Guedes, se não houver golpe, Bolsonaro precisa se agarrar a um anúncio de crescimento do PIB para chegar no segundo turno no pleito do ano que vem. É bem verdade que essa é condição necessária, mas não suficiente. As denúncias e escândalos que se avolumam a cada nova sessão da CPI e de outros circuitos que passam a operar em situações de crise como a atual não facilitam em nada vida do Presidente. As suspeitas se aproximam de seu círculo familiar, envolvendo filhos e as companheiras. Sabe-se que esse tipo de situação tira-o do sério e suas reações passam a ser imponderáveis. A avalanche de informações a respeito do envolvimento de políticos e militares próximos a ele nas práticas ilegais no Ministério da Saúde e nos “affaires” das vacinas consomem a energia do núcleo duro do Palácio do Planalto.

O fato inequívoco é que Bolsonaro afunda na lama da sua própria incompetência e no pântano que criou em seu entorno. Por outro lado, a economia se mostra inquieta, mas com algumas informações de retomada do crescimento no momento atual. As expectativas do mercado financeiro seguem otimistas, sempre que se trata de dar algum apoio à permanência de Guedes no comando da economia. Assim, a pesquisa semanal realizada pelo Banco Central junto à nata do financismo aponta para um crescimento superior a 5% no PIB de 2021. É óbvio que a Relatório Focus, divulgado a cada segunda-feira, incorpora um profundo viés que confunde desejo com realidade. Tanto que a última previsão que saiu aponta para uma elevação do PIB de 5,3% para o presente ano, um número bastante exagerado. Mas o fato é que as atividades se movem em um ritmo mais acelerado há alguns meses, tal como revelam outros indicadores relativos a comércio, indústria, agricultura e similares.

A notícia ruim é que esse crescimento do PIB vem acompanhado de uma elevação também incômoda da taxa de juros e dos índices de inflação, retirando com uma mão o que poderia ser considerado positivo que a outra mão oferece à maioria da população. A precariedade segue firme e solta no mercado de trabalho, com uma enorme dificuldade para ser reduzido o recorde observado nas taxas de desemprego. Com isso, não apenas as condições de vida das famílias da base de nossa pirâmide da desigualdade seguem terríveis, como a própria massa agregada de rendimentos não se revela forte e duradoura o suficiente para estimular um crescimento mais continuado da demanda. Nessas condições é difícil a economia decolar.

A incerteza do PIB frente ao possível “impeachment”.

O verdadeiro inferno astral em que se transformou a vida política de Bolsonaro ao longo das últimas semanas tem recolocado a questão do seu “impeachment” na ordem do dia. Para além das forças mais extremadas do bolsonarismo raiz, parece que apenas o Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, ainda não se convenceu da necessidade da medida. Por isso e pelos impublicáveis acordos que deve ter selado com seu líder, o parlamentar alagoano resiste em abrir sua gaveta e escolher apenas um, dentre os mais de 150 pedidos de impedimento que ali adormecem, para apenas dar início ao andamento processual.

Ora, em uma conjuntura política como essa, marcada por inúmeras incertezas e pelo evidente enfraquecimento do Presidente da República, a dúvida respeito da retomada do crescimento da economia permanece sem aparente solução a curto prazo. Por outro lado, o Centrão vive um paradoxo. Sua força sempre residiu em chefes do Executivo debilitados, para que o desespero por apoio no legislativo tenha seu preço elevado no mercado secundário das chantagens e das negociatas. No entanto, um Bolsonaro muito fraco e derretendo em popularidade também dificulta os acordos visando as eleições de 2022. Ninguém quer foto com candidato com imagem chamuscada e que não decola nas pesquisas. Por mais tentadoras que sejam as promessas de verbas e cargos, abraço de afogado tem limites na lógica dos que pretendem concorrer a qualquer cargo. No limite, esse pessoal pode subitamente desembarcar da nau bolsonarista no último minuto do segundo tempo de jogo.

Esse é apenas um dos aspectos do impasse que vive a cena política brasileira atual. Até mesmo setores do campo conservador passam a abraçar a ideia do impedimento, pois consideram essa alternativa como sendo o único caminho para viabilizar uma eventual candidatura da chamada terceira via. Segundo esse raciocínio, caso seja mantida a atual polarização “Lula x Bolsonaro” até outubro do ano que vem, não se consegue botar uma cunha para que se afirme um nome alternativo com alguma viabilidade eleitoral.

Ocorre que a dinâmica da luta política pode oferecer saídas inesperadas para alguns dos atores envolvidos e surpresas desagradáveis para outros. Por enquanto, o que se sabe com segurança é que Bolsonaro passa por uma fase crítica, mas nada impede que ele consiga superar as dificuldades em um lance mais à frente. Ele pode até sair do lamaçal em que se encontra afundado. Mas as manchas dificilmente serão apagadas no “timing” necessário ao cronograma das eleições. A pecha de corrupção está colada de forma definitiva em sua imagem. A única possibilidade de superar a atual adversidade, para além da tentação golpista, reside na obtenção de algum crescimento expressivo no PIB. Apesar de não ser impossível, esse cenário enfrenta inúmeras dificuldades e a economia apenas patina. Aguardemos, pois, alguns dos próximos capítulos.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal



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