Economia Política

CAC 40: o 'mundo de antes' continua a enriquecer chefes e acionistas

 

22/06/2020 19:03

 

 
A Oxfam divulgou nesta segunda-feira (22) a 2ª edição de seu relatório sobre o (não) compartilhamento de riqueza nas empresas do índice CAC 40 [índice da bolsa de Paris composto pelas 40 maiores empresas francesas]: entre 2009 e 2018, os pagamentos aos acionistas aumentaram 70% e a remuneração dos CEOs 60%. Os anos passam, as promessas de redistribuição desaparecem e o pequeno mundo composto por acionistas e diretores de grandes empresas enriquece discretamente, recheado de dividendos e "pacotes" cada vez mais generosos. E a crise sanitária não deve mudar muita coisa, a crise econômica resultante já serve como justificativa para os primeiros pedirem aos assalariados que apertem um pouco mais o cinto, conforme evidenciado pelos "acordos de desempenho coletivo" em forma chantagem de emprego imposta aqui e ali... Com um bom senso de oportunidade, a ONG Oxfam France, portanto, se aproveita do questionamento sobre o “mundo que virá”, e da aspiração por uma remuneração decente de negócios verdadeiramente úteis para comunidade, para publicar nesta segunda-feira a nova edição de um relatório iniciado em 2018 sobre o compartilhamento de riqueza nas empresas do índice CAC 40. Ou melhor, sobre sua ausência.

Convenientemente intitulado "Lucros sem amanhã?" para significar a visão curta de um capitalismo que insulta cada vez mais o futuro, apesar dos alertas climáticos, sociais e agora epidêmicos, este relatório, produzido com o instituto cooperativo de pesquisa Basic (Bureau d’Analyse Sociétale pour une Information Citoyenne), mostra sem surpresa como, desde a crise financeira de 2009, "a riqueza gerada pelas empresas, que compõem o índice CAC 40, não foi distribuída de maneira justa entre aqueles que são remunerados por elas [CEOs, funcionários, acionistas etc.] e não investiram suficientemente na transição ecológica”. Entre 2009 e 2018, “os pagamentos aos acionistas das empresas do CAC 40 aumentaram em 70%, a remuneração dos CEOs em 60%, enquanto o salário médio nessas empresas aumentou em apenas 20% e o salário mínimo em 12% no mesmo período”, aponta Oxfam.

Tomemos os pagamentos aos acionistas na forma de dividendos e recompra de ações: durante todo o período 2009-2018, as empresas do CAC distribuíram a atraente quantia total, média por empresa, de 11,8 bilhões de euros, equivalente a uma taxa de redistribuição de lucro de 71%. E entre essas duas datas, o valor médio pago aos acionistas subiu de 874 milhões de euros [pagos em 2009] para quase 1,5 bilhão [pagos em 2018}. Mas isso é apenas uma média. Algumas das principais figuras da indústria francesa se destacaram pela generosidade indecente em relação aos acionistas: no topo do pódio, a gigante do petróleo Total pagou a eles a quantia monstruosa de 59,6 bilhões de euros no período de 2009 -2018, no segundo posto, encontramos a Sanofi (48,4 bilhões) e no terceiro a Engie (31,6 bilhões). O absurdo desse bônus dado aos acionistas "custe o que custar" reside no fato de que um quarto das empresas estudadas pagou mais dividendos do que todos os seus lucros gerados entre 2009 e 2018. E neste joguinho, destaca-se Engie: o ex-GDF-Suez pagou seis vezes mais dividendos do que gerou de lucro em dez anos, pressionando para endividar-se para cumprir esse dízimo dos acionistas. A STMicroelectronics e a Arcelor pagaram 5,7 e 2,5 vezes o lucro acumulado, respectivamente…

Obviamente, essa orgia redistributiva beneficiou as grandes famílias do capitalismo francês e os fundos anglo-saxões. "Na véspera da crise do coronavírus, as quatro famílias Arnault, Bettencourt, Hermès e Pinault detinham sozinhas mais de 10% do CAC 40, ou seja, quatro vezes mais que o Estado francês" e, no total, o grupo de famílias fundadoras das empresas, possuía quase um sétimo do CAC 40, observa a Oxfam. Em seguida, encontramos os grandes peixes das finanças, como os norte-americanos Blackrock (2,3%), e Vanguard (2,3%) e os franceses Amundi (1,4%).

8,9 milhões para o chefe da Sanofi

Obviamente, os altos executivos que controlam a máquina de dividendos fazem de tudo para satisfazer os acionistas e são generosamente recompensados por seus serviços. “Em 2018, os chefes das empresas do índice CAC 40 do painel ganharam em média 107 vezes mais que o salário médio de seus funcionários" e "um executivo, no dia 2 de janeiro, já havia ganhado o equivalente a um ano de salário mínimo, calcula a Oxfam. Desde a saída de Isabelle Kocher da direção da Engie, as empresas do CAC não tem mais CEOs mulheres em suas fileiras. E no final de 2019, as mulheres representavam, em média, apenas 20% das equipes de gestão, apesar de constituírem metade dos funcionários. Mas a ONG observa que "a participação de mulheres nos conselhos de administração quadruplicou entre 2009 e 2018, passando de 10% para 44%", graças à lei de Copé-Zimmermann aprovada em 2011. Essas mulheres líderes votam por remuneração e dividendos da mesma forma que um homem, isso infelizmente tenderia a provar que a ânsia de ganhar não é uma exclusividade da dominação masculina …

Obviamente, os "salários" dos grandes chefes dão vertigens. Com uma remuneração total de 7,3 milhões de euros em 2018, o CEO do Carrefour, Alexandre Bompard, ganhou 413 vezes o salário médio em sua empresa, campeã das diferenças salariais. No período 2009-2018, a Sanofi foi a mais generosa nos pagamentos aos seus chefes (8,9 milhões), à frente da L'Oréal (8,3 milhões) e da LVMH (7,9 milhões). Como gesto de solidariedade durante a crise de coronavírus, o chefe do grupo de luxo Bernard Arnault concordou em desistir de sua remuneração fixa para os meses de abril e maio de 2020, bem como de qualquer remuneração variável do ano 2020. Isso é bom, observa Oxfam, mas isso não exigiu muito esforço da primeira fortuna francesa (ainda à frente de 68 bilhões de euros após o crash). Especialmente porque o chefe favorito de François Ruffin fica mais rico de ano para ano, coletando dividendos que representaram 1,5 bilhão de euros em 2018.

A Oxfam observa que "mais de 75% das empresas do CAC 40 estudadas implementaram ações pontuais de solidariedade durante a crise (doações de máscaras, gel, provisão de instalações etc.)", mas salienta a o fato de que esses mesmos grupos - quase a metade - fizeram uso do esquema de desemprego parcial, financiado pelo Estado, que custará à comunidade mais de 30 bilhões de euros. Se é para salvar empregos, por que não, mas a procissão de planos que estão começando a escurecer o horizonte com milhares de cortes de empregos, da Renault à Air France, não incentiva um otimismo feliz. Especialmente porque no "mundo de antes", 2020 seria inicialmente mais um ano recorde em termos de enriquecimento de acionistas, com mais de 60 bilhões em dividendos e recompras de ações inicialmente planejadas para o exercício financeiro de 2019. A crise da saúde chegou a impedir esse grande compartilhamento entre amigos. Mas, sob a pressão da opinião pública que aplaudiu, a cada noite, os cuidadores e todos os que estão na linha de frente, os dividendos pagos devem estar entre "apenas" 35 e 41 bilhões de euros, congratula-se com a Oxfam. Assim, pouco menos da metade das empresas do índice CAC decidiu este ano reduzir ou adiar o pagamento dos dividendos e, por ordem de seu estado acionário, certos grupos como Renault e Engie o cancelaram completamente. Mas, ao mesmo tempo, "21 empresas estudadas do CAC 40 pagaram dividendos a seus acionistas durante a crise", os suspeitos usuais são Total, Sanofi, Lafarge, Schneider … o grupo Vivendi de Vincent Bolloré, deu-se ao luxo de aumentá-lo! Por fim, "pelo menos 21 CEOs das empresas CAC 40 estudadas anunciaram um corte em sua remuneração votada em 2020". Mas isso, muitas vezes, realça mais um golpe do que uma virtude: Alexandre Bompard anunciou uma queda de 25% em sua remuneração fixa nos meses de março e abril, uma queda de 62.500 euros, equivalente a 0,2 % do que ele ganha.

Não há de onde tirar esperanças na natureza humana em um ambiente liberal descomedido? Não é bem assim, diz Oxfam, que espera que a conscientização da crise epidêmica permita uma mudança de software. Para contribuir "para que esses grupos que criam riqueza a compartilhem melhor", a ONG faz várias propostas relevantes. Por exemplo, limitar os dividendos a 80% do lucro líquido, o que teria permitido "liberar, em média, quase 7 bilhões de euros por ano desde 2009" para, vamos sonhar, "alocar os montantes economizados em um fundo dedicado à transição social e ecológica ”. A Oxfam também defende a limitação da remuneração dos executivos no modelo do que é feito em empresas públicas (proporção máxima de 1 a 20). Isso aumentaria os salários e compensaria de maneira mais justa toda a cadeia de valor, como os agricultores. Em 2018, a diferença média entre a remuneração dos CEOs do CAC 40 e o salário médio foi de 107 vezes, um aumento de 30% desde 2009.

Mas, como observa Quentin Parrinello, porta-voz da Oxfam France e co-autor do relatório, “as empresas do índice CAC 40 até agora optaram por dedicar uma parcela crescente da riqueza criada para pagar dividendos aos seus acionistas. em vez de reavaliar os baixos salários e financiar a transição ecológica”. E seria necessária vontade política para se contrapor "à pressão dos acionistas majoritários nas escolhas estratégicas das empresas do índice CAC 40 que favorecem uma participação acionária já cômoda e privilegiam o curto prazo". Em seu discurso em 14 de junho, Emmanuel Macron fechou as portas a qualquer retorno do imposto sobre a riqueza e à própria ideia de um "debate sobre os salários", ao mesmo tempo em que fez votos de "um crescimento ecológico e solidário”. O mundo de antes tem, definitivamente, uma vida dura.

*Publicado originalmente em 'Libération' | Tradução de César Locatelli



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