Economia Política

COVID-19 foi um gatilho, mas o capitalismo causou o colapso econômico

 

19/04/2020 12:47

Policiais com máscaras faciais são vistos em 12 de abril de 2020, perto da bolsa de valores NASDAQ no cruzamento da Broadway com a West 43rd Street durante a pandemia da COVID-19. (Maria Khrenova\TASS via Getty Images)

Créditos da foto: Policiais com máscaras faciais são vistos em 12 de abril de 2020, perto da bolsa de valores NASDAQ no cruzamento da Broadway com a West 43rd Street durante a pandemia da COVID-19. (Maria Khrenova\TASS via Getty Images)

 

Após o colapso das ‘pontocom’ em 2000, a política econômica visava "voltar ao normal". Procurou recriar ou restabelecer a economia dos EUA como era antes da crise. Após a crise das hipotecas subprime, a política econômica também passou para a buscar a "recuperação". Isso significava voltar à situação anterior à economia de 2008-2009. Agora, quando entramos em uma depressão econômica ao reagir tão mal ao coronavírus, as políticas do Federal Reserve e do Tesouro de Trump procuram nos devolver à "grande economia", da qual Trump se gabava antes de março de 2020.

A repetida falha política está em não compreender os problemas básicos da economia capitalista dos EUA, anteriores a cada um dos três crashes que seguiram nas duas primeiras décadas do novo século. Esses problemas foram os elementos principais a contribuir para esses colapsos, mais importantes que os eventos que os desencadearam. Não devemos nos deixar enganar pelos esforços desesperados dos defensores do capitalismo, que dão aos crashes os nomes de seus gatilhos, o que apenas distrai a atenção de como e por que as vulnerabilidades do capitalismo ajudaram a transformar os gatilhos em crashes. A política destinada a retornar o capitalismo dos EUA ao seu status quo anterior a cada colapso apenas garante a passagem direta para o colapso seguinte.

Tendências em direção à desigualdade e instabilidade, cada vez maiores, assombram o capitalismo ao longo de sua história. Os líderes e ideólogos do capitalismo, portanto, tentaram tudo o que podiam pensar para acabar, domar e distrair as tendências que ameaçavam periodicamente o próprio sistema. Contra a desigualdade, o capitalismo experimentou estruturas tributárias progressivas, salários mínimos, esquemas redistributivos, estados de bem-estar social, renda básica universal e assim por diante. No entanto, como mostra o trabalho de Thomas Piketty, persistem as tendências do capitalismo de perpetuar uma maior desigualdade. Periodicamente, quando levantes em massa contra a desigualdade conseguiam parar, ou mesmo reverter, essas tendências, as paradas ou reversões foram temporárias.

Contra sua igualmente intrínseca instabilidade, o capitalismo tentou repetidamente as políticas monetárias e fiscais keynesianas, além de todo tipo de reformas, regulações, estabilizadores e assim por diante. No entanto, todos falharam em parar o ciclo de negócios do capitalismo, o acúmulo recorrente de desequilíbrios e fraquezas do sistema culminando em acentuados declínios (crashes) no emprego, na produção e na atividade econômica em geral. Os eventos que desencadeiam cada colapso capitalista diferem, assim como os recursos específicos que distinguem um do outro. No entanto, o papel do próprio sistema capitalista na reprodução periódica de colapsos é flagrantemente evidente no registro histórico.

Antes do coronavírus atingir os EUA em março de 2020, nosso sistema econômico não era "ótimo", como Trump tem se gabado durante seus esforços de reeleição. O setor corporativo movia-se com dificuldade sob uma imensa carga de dívida acumulada. Como as quedas de 2000 e 2008 deram início às políticas do Federal Reserve de redução das taxas de juros, empresas americanas de todos os tamanhos descobriram que podiam tomar dinheiro emprestado de modo ilimitado a custos de juros historicamente baixos. Tomar empréstimos se tornou a maneira mais fácil e barata de resolver todos os problemas que surgiam. Assim, as políticas monetárias, ao tentar lidar com uma crise capitalista, ajudaram a desencadear respostas que construíram a crise seguinte. Ao fechar os negócios, o coronavírus interrompeu os lucros que permitiam o pagamento de dívidas corporativas acumuladas. A inadimplência prejudicou e congelou os mercados de crédito que negociavam dívida corporativa securitizada, os instrumentos derivativos que garantiam essa dívida e esses títulos e assim por diante.

A economia dos EUA antes do choque da COVID-19 também abrigava um complexo médico-industrial capitalista privado. Os cálculos do lucro privado levaram as empresas nesse complexo a não produzir ou armazenar as máscaras, testes, respiradores, camas etc. necessários para combater uma pandemia. O governo dos EUA, formado e controlado ideologicamente por líderes emprestados do setor corporativo, não compensou a falha do setor privado em produzir ou armazenar o que era necessário para um vírus perigoso. A eficiência na geração de lucros superou a eficiência na segurança da saúde pública. As perdas de riqueza desde 1º de março de 2020 excedem em muito os custos de produção e armazenamento de suprimentos necessários para conter e combater o vírus. As decisões dirigidas ao lucro do capitalismo mostraram-se monumentalmente ineficientes.

A "grande economia" de Trump piorou as desigualdades de renda e riqueza que existiam em 2016. O governo de Obama também presidiu com aprofundamento das desigualdades. Essas desigualdades restringiram o poder de compra do consumidor em massa o que, por sua vez, restringiu o investimento na produção. A criação de dinheiro novo do Fed e as taxas de juros, em baixa recorde, registradas na "recuperação" pós-2008 trouxeram a inflação dos preços das ações para o mercado de ações. A distância explosiva entre o mercado de ações e a economia subjacente da produção de bens e serviços acumulou um desequilíbrio (bolha), apenas esperando um gatilho para se desmanchar (explodir).

A recuperação pós-2008 durou mais do que a média de tais períodos (quatro a sete anos historicamente) após um colapso capitalista. Períodos acima da média geralmente significam que a próxima crise (onde estamos agora) será pior que a crise média (como é agora). A recuperação pós-2008 também testemunhou medidas extremas para evitar mudanças básicas no sistema capitalista. Por exemplo, os esforços para restabelecer alguma versão da Lei Glass-Steagall (uma reforma bancária após o crash de 1929) foram rechaçados, diluídos e atrasados pelos grandes bancos privados. Isso ajudou a devolver a economia à sua “normalidade” anterior a 2008. Com a chegada de Trump em 2016, esse retorno à normalidade se tornou uma corrida para trás em direção a um capitalismo privado cada vez menos regulamentado. Todos esses desenvolvimentos ajudaram a orientar a economia em direção ao seu próximo colapso de agora.

Para lidar com a crise atual, são necessárias intervenções diretas em massa para transformar a economia. Em primeiro lugar, é necessário um enorme programa de assistência - baseado nos programas de assistência desenvolvidos na Grande Depressão dos anos 30. Bernie Sanders desenvolveu um esboço sólido para fazer isso. Além do alívio (e igualmente importante), a produção e a distribuição precisam ser reorganizadas para respeitar as condições de distanciamento social, juntamente com continuados exames médicos e o monitoramento da população ameaçada e o monitoramento de todas as populações imediatamente após surtos de novos vírus perigosos em qualquer lugar do mundo. A saúde pública deve ser a prioridade - muito mais importante que os lucros privados e os interesses dos empregadores. A economia resultante será muito diferente - e de muitas maneiras, um desafio para - a economia que existia antes de março de 2020.

Como o objetivo político dominante compartilhado por Trump, republicanos e democratas visa retornar à “normalidade” pré-vírus, o que precisa ser feito não foi e não está sendo feito. Os empregadores não queriam, e nem agora querem, pagar os custos de tornar os locais de trabalho seguros contra o coronavírus, mas querem que os funcionários voltem ao trabalho como estavam antes da pandemia. Esse objetivo não é apenas perigoso para a saúde nesta pandemia, é também uma ameaça econômica direta. As políticas preferidas do establishment dos EUA priorizam o retorno a uma economia capitalista com imensas e perigosas fraquezas em vez de servir à saúde pública agora. Essas políticas bipartidárias do establishment respondem ao atual colapso de maneira a lançar o capitalismo em direção ao próximo colapso.

Richard D. Wolff é professor emérito de economia na Universidade de Massachusetts, Amherst. Atualmente, é professor visitante na New School University, em Nova York. Seu trabalho está disponível em rdwolff.com e em democracyatwork.info.

*Publicado originalmente em 'TruthOut' | Tradução de César Locatelli

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