Economia Política

Carlos Lessa: Serra e a gosma que nos devora

'Se existe um déficit você tem que equacioná-lo buscando recursos onde há superávit. Quem tem sobra, as famílias assalariadas ou os bancos e rentistas?'

28/10/2015 00:00

Geraldo Magela/Agência Senado

Créditos da foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O que faz um intelectual apaixonado pelo Brasil que aos 80 anos, financeiramente resolvidos, convence-se de que seu caso de amor mergulhou em ‘uma gosma’, como ele classifica a situação atual do país?  
 
Talvez jogasse a toalha para desfrutar o conforto privado e merecido. 
 
Talvez, se o seu nome não fosse Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa, ou Carlos Lessa, como é conhecido e respeitado o economista em quem, mesmo adversários de ideias, reconhecem uma das inteligências mais provocantes do país, ademais de um frasista demolidor.
 
Lessa está angustiado, aflito com o Brasil. ’Eu e as torcidas de todos os brasões da nação’, começa.
 
Signatário de um manifesto encampado por alguns dos principais intelectuais brasileiros contrários ao projeto do senador José Serra, de engessamento fiscal do Estado, Lessa, a exemplo de Maria da Conceição Tavares, foi tratado com desdém pelo tucano. 
 
Entre outros vitupérios, o ex-governador de São Paulo, classificou seus críticos de ‘desinformados e pseudo-marxistas’. 
 
‘Mas foram seus professores’, protestou inutilmente o senador petista Lindberg Farias, no dia 20/10, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado  --que voltará a examinar o assunto dia 3 de novembro, em sessão decisiva e ainda mais tensa.
 
‘Serra não precisava se diminuir tanto’, fuzila o professor emérito da UFRJ e ex-presidente do BNDES. 
 
’Ofender pessoas com as quais ele teve reconhecida proximidade intelectual no passado, é ofender a si próprio. Lamento que tenha chegado a isso’.
 
No exílio chileno, nos anos 70, Serra conviveu intimamente com a família Lessa. A residência do economista, agora fustigado por ele, era um espaço da rotina do tucano, que então atribuía ao dono da casa seu aprendizado em economia.
 
‘Elogio em boca própria é vitupério’, desconversa o autor de ‘Quinze anos de política econômica’ (a industrialização do pós-guerra aos anos 60)’, obra apontada como uma continuação proposital de outro clássico –‘Formação Econômica do Brasil’, de Celso Furtado.
 
‘Mas desmerecer Conceição?’, indigna-se Lessa.
 
Uma das principais referências dos economistas heterodoxos, ‘Conceição’ deu a Serra, inclusive  --lembra Lessa-- a parceria em um texto famoso. ‘Além da estagnação’, obra de 1972, tornou-se um clássico, ao decifrar a perversidade intrínseca à acumulação capitalista no Brasil, harmoniosamente integrada à concentração de renda, contratada em 1964 à ditadura militar pelas elites golpistas de então.
 
‘Desfazer de Conceição?’, escande Lessa, como se dissesse: ‘quanta indignidade’.
 
‘Ver o destino do país jogado nessa goma da qual o projeto de Serra é um espessante, me aflige’, diz a voz grave.
 
O denominador comum da ‘gosma’, na visão do economista, é a panaceia do ‘corte’. 
 
‘Cortar é tudo o que o discurso pantanoso tem a dizer sobre o nosso futuro, que assim deixa de existir’, desacorçoa.
 
Serra propõe 15 anos de retalhamentos. 
 
‘O mais risível’, detona, ‘é que a esperteza quer sempre cortar do outro, nunca de si mesmo. Chegamos a essa situação pegajosa, na qual a nação chafurda e pode se perder’.
 
Cortar o quê, de quem, como e para quê?  
 
Carlos Lessa cobra coerência nas respostas que não enxerga em nenhuma das tesouras mobilizadas para esquartejar e salgar as chances do desenvolvimento brasileiro. 
 
‘Claro que eu também quero equilíbrio fiscal’, fustiga em direção a Serra. ‘Ninguém quer ver o Brasil caminhar para o encilhamento. Mas o que falta a Serra, e outros, é coragem para admitir o óbvio’, observa agora de forma pausada e pedagógica.
 
‘Se existe um déficit você terá que equacioná-lo buscando recursos onde há superávit. Estou certo?’, pede ajuda antes de uma pausa para respirar.
 
Em seguida metralha sem piedade: ‘Quem, afinal,  é superavitário hoje no Brasil; quem?’, esgrime a pergunta com repetidas estocadas. ‘Diga-me quem?’
 
Por certo não é a família assalariada, responde o economista agora de forma compassiva. ‘Tampouco o investimento, que há anos sequer resvala a mínima necessária ao crescimento sustentável, uma taxa da ordem de 20% do PIB, pelo menos’. 
 
Depois de descartar o arrocho sobre a dívida pública – ‘uma ferramenta necessária, mas que no Brasil só cresce para pagar juro, ‘não para investir’, Lessa chega ao ponto do qual acusa Serra e outros de se afastarem covardemente.
 
‘Quem é superavitário nesta sociedade hoje, e há muito, são os bancos e os rentistas. Essa gente precisa ter brio e admitir um pacto, na forma de uma taxa,  para ajustar as contas fiscais, sem esmagar o emprego, o investimento público e os direitos sociais. Ou então afundaremos na gosma’, arremata o conferencista experiente, cujas frases hipnotizaram centenas de plateias acadêmicas e não acadêmicas por todo o Brasil.
 
Nascido em uma família da elite carioca, mas num tempo em que o futebol de rua conectava o berço rico à infância pobre da favela, Carlos Lessa não se dispensa do que cobra dos endinheirados institucionais.
 
‘Eu também acho que devo ter meus investimentos cortados para que se possa baixar a despesa do Estado com juros; hoje elas só servem para engordar a minoria e esmagar a capacidade fiscal do país’, sentencia sem concessão à hipocrisia.
 
O professor emérito da UFRJ, porém, não é ingênuo. 
 
Lessa sabe que a repactuação política para a retomada do desenvolvimento não virá da generosidade dos detentores da riqueza financeira.
 
‘Falta bom senso para o Brasil sair da gosma. A legião do ajuste, na verdade, não se interessa pelo Brasil’, desfere para em seguida adotar um tom grave: ‘Dilma sabe onde está o problema. Já demonstrou isso. O que lhe falta é coragem. Um presidente precisa saber tomar paulada e persistir: existem condições para cortar os juros. Mas é forçoso ir além da esfera técnica’, observa agora em um tom de confidência: ’Um presidente precisa abraçar a discussão política do problema, e assim abrir espaço ao protagonismo da sociedade’. 
 
O professor Carlos Lessa discorda dos que enxergam no mercado mundial uma atalho para o Brasil voltar a crescer, à margem dos seus interditos e impasses domésticos.
 
‘A globalização jaz em estado pantanoso’, avalia. Disputas e pendências históricas, no seu entender, estão sendo acirradas pela crise mundial. As tensões geopolíticas se avolumam. ‘O que vejo é a antessala de acirramentos bélicos, em uma palavra: guerra’, pontua com palpável angústia na voz.
 
O economista enxerga dois blocos em rota conflitiva: de um lado, os EUA e seus acordos transpacífico e transatlântico; de outro a China e sua diáspora de desembarques estratégicos em diferentes pontos do planeta. ‘A recuperação norte-americana fraqueja e a Europa definha’, acrescenta Lessa agregando peças ao seu painel de formações em marcha conflitiva pelo globo. ‘A Rússia está viva e quer ser o elo entre a eurásia e a Europa. Há um cheiro de pólvora no ar. Imigrantes são cerceados nas fronteiras; a extrema direita acaba de vencer na Polônia, a sexta economia da Europa... O Brasil pode se dar ao luxo de desperdiçar o mercado interno para se ancorar nessa areia movediça traiçoeira e carregada de minas?’, argui com gravidade.
 
A voz grave evidencia cansaço; a conversa precisa acabar. Não, porém, antes que esse brasileiro apaixonado pelo seu país, possa sinalizar linhas de passagem que, no seu entender, ainda resgatariam a economia da gosma espessada por ideias como as de Serra. ‘Nosso padrão de consumo melhorou inequivocamente’, pondera, ‘mas a qualidade de vida se deteriora. O país tem condições de escapar da gosma sufocante erguendo casas dignas para milhões de famílias, civilizando uma urbanização que concentrou 50% da população em 11 regiões metropolitanas conflagradas, erradicando de vez a fome na vida de nossa gente’, lista com realismo para fincar a estaca de esperança no meio da pasta disforme que desfigura seu sonho de Brasil: ‘Nada disso pressiona as contas externas. Estou falando de melhorar a qualidade de vida, gerar empregos e renda, mobilizando a única indústria realmente nacional que restou: a da construção. É isso ou a gosma; eu prefiro apostar nas possibilidades nacionais’, conclui e se despede agradecido, como se tivesse cumprido um dever: ’Obrigado’.






Conteúdo Relacionado