Economia Política

Cenário de juros negativos e desglobalização

 

08/10/2019 12:38

 
É hipotético haver um determinado valor para equilíbrio em uma economia como parte de um sistema complexo emergente de interações dinâmicas entre inúmeros outros componentes. Equilíbrio geral é fruto da imaginação mimética (e não original) de economistas copistas da Física newtoniana: os planos de todos os agentes econômicos coincidirem entre si e com a disponibilidade de recursos produtivos em determinada data – e permanecerem assim estáticos de modo a não alterar o sistema de preços relativos.

Consequentemente, o método tradicional de baixar mais o juro para guiar uma economia de regresso ao pressuposto equilíbrio (“reversão à média”) torna-se ineficaz. Nestas situações deflacionárias e recessivas – quando se convenciona o cartaz “fiado só amanhã” –, todos os agentes ficam no aguardo de “outro mundo é possível”.

Enquanto isso, não esperam retornos de grandes valores dos investimentos em renda fixa ou em empreendimentos produtivos. Massivamente, têm preferência pela liquidez dos depósitos de curto prazo, em vez de fazerem investimentos com longo prazo de maturação. Com isso, uma economia já em estado de recessão sofre um agravamento crítico, entrando em uma fase de desalavancagem deflacionária.

Manter ou expandir o Quantitative Easing (QE ou “afrouxamento monetário”) pode indicar redução ainda maior dos juros longos, sinalizadores da taxa de retorno em longo prazo. Eles já%u001 possuem tendência secular de queda frente a%u000 cultura obsessiva de controle inflacionário, existente desde os anos 1980, às mudanças na composição demográfica e a%u000 evolução da tecnologia.

Esses fatores estruturais são fundamentos para justificar juros abaixo de zero. Quanto à demografia, o aumento de expectativa de vida eleva a poupança pessoal para investimentos financeiros. Enquanto isso ocorre, as novas tecnologias poupam capital. Elas se tornam cada vez mais baratas, reduzindo a demanda por investimento. Em raciocínio inspirado em Knut Wicksell se diz: “a resultante poupança em excesso empurra a taxa ‘natural’ de juros cada vez mais para abaixo da taxa de mercado”.

Fatores conjunturais também ajudam a derrubar a taxa de juros, como o enfraquecimento da atividade econômica e a própria guerra comercial entre Estados Unidos e China. Um ambiente menos competitivo prejudica a inovação, enquanto a maior indefinição política (e geopolítica) afeta as decisões de investimento empresarial.

Juro é a remuneração cobrada pelo empréstimo de dinheiro. Compensa o custo de oportunidade do credor por ele dispor seu capital próprio ao devedor. Este terá a chance de alavancar a rentabilidade de seus negócios em escala maior. O crédito é dirigido pela demanda, quando há projetos de investimentos, e não pelos bancos ofertantes. Por isso, pensa-se, equivocadamente, em aumentar o custo de oportunidade de manutenção de reservas bancárias ser o jeito de fazer o dinheiro efetivamente circular. Daí as taxas de juros negativas estão penalizando depósitos institucionais nos Bancos Centrais.

A questão ininteligível para nós, brasileiros, é: por que alguém compra um titulo com rendimento negativo? Há algumas explicações, dependendo do tipo de investidor.

Os bancos europeus, por exemplo, têm de pagar 0,5% ao ano para depositarem seus recursos no Banco Central Europeu (BCE). Ao investirem em títulos de bons emissores com rendimentos de -0,20% ou -0,30% ao ano, estão diminuindo o custo de oportunidade de manter seus recursos voluntários junto ao BCE.

Hoje, em lugar do retorno, se prioriza a qualidade de crédito (risco de mercado) e a liquidez. Um Banco Central prove%u002 segurança ao depositante em reservas bancárias. Além disso, bancos contam com um mercado secundário extremamente líquido para títulos de dívida pública. Na eventualidade de uma reversão nos mercados, ativos de maior risco, emitidos por empresas de pior qualidade de crédito, sofrerão mais em relação ao risco soberano. Paga-se, dessa forma, por proteção da riqueza financeira.

Além disso, alguns apostam em haver juros ainda mais negativos no futuro. Nesse cenário, os títulos comprados no nível atual de taxa prefixada se valorizarão e beneficiarão quem os comprar hoje.

Mas há também uma abordagem estruturalista sobre as causas desse fenômeno incomum na história financeira mundial. As forças deflacionárias teriam entrado em ação a partir do fim dos anos 70 e início dos 80, quando houve o envelhecimento da geração “baby boom”, o fim dos choques inflacionários do petróleo e o início das relações diplomáticas e de comércio dos Estados Unidos com a China. Na prática inicial, se tornou uma integração comercial, denominada Chimérica, típica da globalização.

Esses fatores, antes impulsionadores do movimento a um pico inflacionário em 1979, foram ultrapassados a partir da overdose dos juros com o monetarismo de Volcker, no comando do FED, durante o neoliberalismo de Ronald Reagan. A inflexão da política monetária norte-americana em 1979 é frequentemente interpretada como uma reação à crise do dólar como moeda-chave do sistema internacional e a retomada da hegemonia norte-americana.

Ao longo neoliberalismo instalado desde então se juntaram, mais recentemente, novas pressões deflacionárias, como o envelhecimento da população e os avanços tecnológicos. A primeira leva à ampliação de investimentos e à diminuição do consumo. Produtividade em larga escala permite o barateamento dos bens de consumo durável, deixando de serem classificados como de luxo ou de consumo capitalista por permitirem o acesso popular e mundial a eles.

Como consequência, os Bancos Centrais mal conseguem atingir o piso de suas metas de inflação. Na realidade, lutam contra a deflação. Enquanto consumidores esperarem os preços de amanhã estarem mais baixos em relação ao de hoje, adiarão sempre o consumo. Paralelamente, enquanto esperarem os juros no futuro estarem mais elevados em relação aos do presente, adiarão a liberalização da moeda para cessão a terceiros. Diante da impossibilidade de elevar os preços da economia, a estagnação econômica ou mesmo a recessão aparecem como “novo normal”.

É possível a próxima tentativa de os Bancos Centrais ser a depreciação da moeda nacional, por meio de sua emissão excessiva e juros reais ainda mais negativos. Em regime de câmbio fixo, fariam uma súbita desvalorização cambial oficial. Em nova Era de Protecionismo – ou “desglobalização” – tais medidas unilaterais poderão levar a uma guerra cambial sem vencedor claro a priori. Haverá mais um episódio da Guerra Comercial entre Estados Unidos e China ou Trump sofrerá antes um impeachment?

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