Economia Política

Centrão ou direitona?

 

17/11/2020 18:20

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Os grandes meios de comunicação não deveriam perder a oportunidade de ficarem calados quando o assunto é coisa séria. Isso vale, por exemplo, nos tempos mais recentes, para as campanhas abertas e descaradas que foram por eles desenvolvidas para inviabilizar o governo Dilma Roussef e colaborar de forma decisiva para solidificar o clima para seu posterior impedimento pelo Congresso Nacional. Alguém aí comentou a respeito de falta de provas ou ausência de enquadramento legal? Ora, esse tipo de “detalhe” pouco importava, pois o negócio era condená-la por meio do monstrengo jurídico que foi chamado de “conjunto da obra”.

Na outra frente de batalhas do campo da direita conservadora para desacreditar as instituições e destruir as frágeis bases de nosso ainda jovem processo democrático, assistimos à divulgação alucinada das inúmeras operações ligadas à força tarefa da Lava Jato. Ainda em 2016 cunhou-se o termo República de Curitiba, como se a luta contra a corrupção estivesse apenas nas mãos redentoras daquele seleto grupo que aparelhou e partidarizou as ações no âmbito do Judiciário e do Ministério Público. O caminho para a tentativa de endeusamento de figuras como Sérgio Moro, Deltan Dallagnol i tutti quanti foi um passeio no bosque. Mas não tardaram a surgir as denúncias de ilegalidades, parcialidades e outros procedimentos criminosos adotados por aqueles que deveriam, ao contrário, zelar pela aplicação severa dos procedimentos jurídicos adequados.

No campo da economia, o encantamento absoluto desse pessoal da força da grana com o golpista Michel Temer e seu Ministro da Fazenda, o banqueiro Henrique Meirelles, durou pouco. É verdade que fizeram uma campanha maluca para convencer a população e o legislativo quanto à suposta iminência de uma catástrofe nacional, caso não fossem aprovadas medidas como a Reforma Trabalhista e a PEC do Fim do Mundo. E assim foi feito. Ficamos com uma CLT que retirou direitos fundamentais dos trabalhadores e o desemprego só fez aumentar desde então. Temos a EC 95 que congelou as despesas públicas não financeiras por 20 longos anos e o Brasil afunda cada vez mais na maior recessão de sua História a partir do início do austericídio.

A direita que ajudou a eleição de Bolsonaro.

Em 2018, esse mesmo grupo “formador da opinião pública” decidiu colaborar para a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais, com o argumento de que haveria figuras de porte para segurar a barra do defensor da tortura e saudosista da ditadura. Com Moro e Guedes na equipe da Esplanada, asseguravam eles, haveria setores do governo em condições de impedir que o extremismo fascista do ex capitão tomasse conta completamente do Palácio do Planalto. Triste ilusão ou profunda irresponsabilidade para com a população brasileira? Mal terminado o primeiro biênio do mandato, creio que já temos algumas respostas para essa nada ingênua indagação.

Pois agora, ao que tudo indica, talvez um pouquinho arrependidos da aventura criminosa em que meteram a todos nós, os meios de comunicação articulados com setores que se consideram mais “ilustrados” de nossas elites ensaiam um afastamento com relação a este serviçal de Trump. Seria cômico se não fosse absurdamente trágico. A acrobacia retórica ensaiada agora é que, uma vez espelhados na experiência norte-americana recente, o único elemento que estaria nos faltando, aqui em terras tupiniquins, é um Joe Biden à nossa altura. Bingo! E então saem à busca de tal figura de forma desesperada. Seria Huck? Ou então Moro? Quem sabe o vice Mourão? Ou talvez Rodrigo Maia? Enfim, buscam dentre os conservadores - que participaram direta ou indiretamente da aventura do governo protofascista de Bolsonaro - alguém para sucedê-lo. Uma loucura!

No entanto, tal operação conta com uma retaguarda política e uma estratégia de comunicação que não podem ser desprezadas. Ao perceberem que o enquadramento da extrema direita não encontra boa recepção junto à opinião pública, os responsáveis por esse movimento buscam alterar a métrica do espectro político partidário. Por esse oportunismo tão inédito quanto deslavado, Bolsonaro e sua tropa passam a ser classificados apenas como “direita”, enquanto que os direitistas que ainda estão com ele, os que estiveram em seu governo até anteontem e aqueles que colaboraram para sua chegada ao Palácio recebem o honroso rótulo de “centristas”. Mas parece que tal malandragem não cola.

A direita que apoia a destruição proposta por Guedes.

Ora, além de incorporar uma deturpação descarada das propostas e das intervenções desse atores na nossa realidade política, carimbá-los com a marca de “centro” não resolve o problema em sua essência. Mesmo que seja em uma lógica simplista de enquadramento na paleta de cores político-ideológicas, qualquer exercício similar realizado de forma isenta levaria a outros resultados. O simples fato de estarem atualmente um pouco afastados da linhagem mais extremada do “bolsominionismo raiz” não os exime da classificação pelo que representam de fato em nossa sociedade: a direita. E ponto final. O problema é que eles ainda parecem carregar uma enorme vergonha de se assumirem pelo que efetivamente são.

Um dos exemplos mais cristalinos dessa representação política e ideológico pode ser identificado no super ministro da área econômica de Bolsonaro. Ainda que Paulo Guedes passe a ser considerado cada vez mais como um estorvo, também para esse pessoal que se pretende agora limpinho e cheirosinho, o fato é que o apoio ao programa ultraliberal do old chicago boy sempre foi muito elogiado pelas elites em nossas terras. Todos os integrantes dessa linhagem da direita, que subitamente se pretende travestir de “centro”, foram entusiastas de primeira hora do programa ultraliberal e destruidor de Paulo Guedes. Apoiaram de forma enfática as medidas do infiltrado da banca privada no comando da economia.

Moro, Huck, Mourão e Maia, para não ampliar a lista sem necessidade, aplaudiram de forma decidida as propostas da direita vinculada aos interesses do financismo e implementada desde 2016. Assim foi com a aprovação de medidas como as duas versões da Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência, a EC 95, a prática severa da austeridade a qualquer custo, as intenções e práticas de privatização de instituições públicas, a destruição do Estado e desmonte das políticas públicas, a independência do Banco Central e uma série de outras medidas do arsenal da direita brasileira. Não cabe a classificação de “centrista” para quem apoia a redução ou o fim do auxílio emergencial em plena catástrofe social e econômica agravada pela pandemia da covid 19.

Os atuais presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados pertencem ao Democratas (DEM). Sim, essa nova sigla que foi adotada em 2007 para tentar esconder a alta rejeição do velho e conhecido partido tradicional da direita, o PFL. E que por sua vez havia sido montado com sobras e restos do partido de sustentação da ditadura, a ARENA. Junto com as novas lideranças que assumiram o comando do PSDB, não podem ser considerados como centristas. O DEM venceu as eleições em primeiro turno em Salvador, Curitiba e Florianópolis, e está sendo saudado por parte da grande imprensa como sendo o principal vencedor desse pleito municipal, caracterizada como uma força de centro.

A nova direitona: de Huck a Dória, passando por Moro e Maia.

Porém, tanto a diretriz quase genética do partido, como suas alianças e a identificação programática com figuras do neotucanato como João Dória, nos levam à conclusão inequívoca a respeito da natureza profundamente conservadora desse agrupamento em formação. A tentativa oportunista de adaptar o quadro brasileiro às eleições dos Estados Unidos é descabida. O Brasil não precisa de um Joe Biden, pois o nosso Trump ainda tem mais 2 anos de mandato - caso nada seja feito a respeito dos inúmeros pedidos de impedimento que atolam as gavetas de Maia. O processo eleitoral em curso nos municípios tem demonstrado a vitalidade da renovação política e o surgimento de lideranças com capacidade de promover a mudança que o Brasil tanto necessita. Se existe um grande consenso no meio dos analistas políticos, ele se refere à identificação do grande perdedor do pleito nacional: Jair Bolsonaro e seu círculo político mais próximo.

Aliás, uma das alternativas colocadas para a busca urgente de uma sobrevida política ao Presidente da República já está em marcha. Trata-se da recomposição de sua base no Congresso Nacional, em aliança com o famigerado centrão. Esse é o bloco marcado pelo fisiologismo e pela prática sistemática da corrupção como método de sobrevivência política se adapta a qualquer governo de plantão, desde que seus pleitos de cargos e verbas sejam atendidos. Aguardemos para ver como se comportará no interior do Congresso Nacional, por exemplo, o DEM e o MDB nessa novo momento pós eleições municipais.

Os grandes meios de comunicação repercutem os receios de parcela de nossas classes dominantes, que se veem mais uma vez frustradas no intento de construir uma alternativa política de sua total confiança e que seja viável eleitoralmente. Assim, vão buscar lá no fundo do baú o surrado argumento de que o Brasil não aguentaria mais essa suposta radicalização e polarização políticas. Frente ao medo de que a oposição a Bolsonaro se materialize em uma ampla frente de todas as forças progressistas que efetivamente sejam contra o governo de extrema direita e suas políticas, agora as elites acenam com esses balões de ensaio. O problema é que a pecha de “centro” não lhes cai bem.

Os nomes aventados por eles são todos de direita e deram uma nada desprezível contribuição para que o nosso País esteja mergulhado em uma crise de tais proporções. Se por “nosso Biden” esse pessoal entende alguém capaz de derrotar Bolsonaro na política e nas urnas, a busca vai ter de ser ampliada. Nomes e processos em condições de unificar a oposição não faltam. Mas um dos requisitos para ocupar esse espaço é, com toda a certeza, não ter oferecido nenhuma colaboração para que o atual candidato à própria reeleição tenha conseguido subir a rampa do Palácio do Planalto.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal



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