Economia Política

Combater a desigualdade é a forma mais eficaz de enfrentar a crise

05/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
BRASÍLIA - O professor James Galbraith, diretor do Projeto Desigualdade na Universidade do Texas-Austin, não é apenas o herdeiro de um nome ilustre (seu pai, John K. Galbraith, foi um dos economistas mais influentes nos EUA do pós-guerra). Ele foi um dos primeiros a prever a atual crise econômica, ainda em 2004, e por isso tem recebido cada vez mais atenção da imprensa e do governo estadunidenses. Seu livro "The Predator State: How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too” (O Estado Predador: como os conservadores abandonaram o livre mercado e por que os liberais também deveriam fazê-lo- 211 páginas, Free Press, ainda sem previsão de ser lançado no Brasil) está entre os 3 mais vendidos na categoria "governo" da Amazon.com.

No Brasil para participar do Seminário Internacional sobre Desenvolvimento do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Galbraith - que irá participar de um painel sobre o papel do estado no pós crise - concedeu entrevista à Carta Maior, na qual explica que a crise, gestada pelas políticas irresponsáveis de desregulamentação bancária, está longe de ser superada - e que o caminho de sua superação passa antes pela ajuda à população em geral, principalmente aos mais pobres, do que pela ajuda a bancos e grandes empresas.

Carta Maior - O senhor acredita que a ajuda econômica prevista pelo Congresso americano terá sucesso?

James Galbraith - Acho que as duas - o pacote de estímulo e o socorro aos bancos - são complementares. O estímulo econômico depende do socorro bancário, e o problema deste é que a tática, a visão básica por trás dele, que é de que comprar ações, oferecer capital aos bancos para fazer com que eles comecem a emprestar novamente, está errada. A razão pela qual os bancos não estão concedendo crédito é que há uma escassez de boas oportunidades de investimento, ou de tomadores de empréstimo com garantias apropriadas, com imóveis valorizados ou outras garantias.

E o problema com os bancos é que a carteria de ativos deles vale muito menos do que eles pensavam que valia. É uma insolvência maciça e, até que se lide com isso, não haverá reconstrução do sistema financeiro.

CM - Aqui no Brasil, apesar dos bancos estarem numa situação bem mais sólida do que nos Estados Unidos, foram tomadas medidas de estímulo ao crédito e de capitalização. O senhor acredita que essas medidas terão efeito no sentido de estimular os bancos a fornecerem crédito?

JG - Não estou familiarizado com a situação específica do Brasil, mas acho que a mesma idéia geral [mencionada no caso dos EUA] se aplica. O crédito carece de uma comunidade tomadora de crédito forte, que tenha condições de tomar emprestado, e é isso que simplesmente não está presente numa crise.

CM - O senhor escreveu um livro recentemente, o Estado Predador, no qual advoga pela renúncia às práticas neoliberais. A sua opinião é que a intervenção do estado na economia veio para ficar, ou é só uma reação temporária de pânico?

JG - Veja bem, o principal argumento de meu livro é que nos EUA - e, creio, em toda a parte - o ideal neoliberal já havia sido abandonado. O governo conservador foi um governo intervencionista - praticando a intervenção em prol de uma base estreita, de apadrinhados nos setores de energia, militar, mineiro, nas grandes mídias, no setor financeiro. Grupos muito pequenos mas muito poderosos na prática formaram e controlaram o governo por um longo período, e o resultado - especificamente no setor financeiro - foi um desmoronamento completo da confiança da parte da comunidade como um todo na segurança do sistema, nas regras que garantiam a segurança do sistema. E é essa a causa da explosão de empréstimos subprime cada vez mais arriscados, que por sua vez envenenou toda a estrutura de ativos dos bancos e toda a economia.

CM - O senhor crê que uma regulação financeira mas severa, nos moldes daquela imposta nos EUA de 1933 em diante, será imposta a partir de agora nos EUA? E globalmente?

JG - Sim, e têm que ser impostas em nível global, transnacional, e os mecanismos que vão pôr isso em prática já estão aí. A questão que proponho, então, é que é prematuro pensar na recuperação da economia financeira apenas a partir de um sistema regulatório melhorado. O problema jaz nas próprias instituições, que devem ser reconstruídas, com cujos ativos envenenados temos que lidar.

CM - O senhor é diretor do Departamento de Estudos sobre a Desigualdade da Universidade do Texas-Austin. Desde o começo da crise o enfrentamento da desigualdade, que era discutido em foros internacionais e por governos até então, ficou em segundo plano. Tem havido uma opinião de que esse é um assunto com o qual não se pode preocupar antes de superada a crise. O senhor acha que essa atitude é sensata, ou necessária?

JG - Ora, como se luta contra a pobreza, contra a desigualdade? Justamente através da expansão da rede de segurança social. Na Grande Depressão de 29, praticamente toda iniciativa de maior porte se tratou de um meio de reduzir o risco, distribuindo ele e aumentando o padrão de vida na base da pirâmide econômica. Garantias de depósitos, o sistema de assistência e segurança social, as medidas para estabilizar a indústria e a agricultura, tudo foi nesse sentido, e foi assim que os EUA conseguiram sair da pior fase da crise econômica.

Lidar com a pobreza, na verdade, é provavelmente a forma mais eficaz de se lidar com uma crise econômica, muito diferente e muito mais eficaz do que a estratégia de se dar dinheiro aos bancos ou grandes empresas. É assim que você restaura os fluxos de renda, de capital, e a capacidade de tomada de empréstimo da população e do sistema como um todo.

CM - Há uma opinião, algo difundida, de que o Brasil está melhor situado do que outros para enfrentar a crise, e poderia até superá-la no curto prazo. Qual a sua posição quanto a isso?

JG - Bem, como já disse, não estou familiarizado com a situação brasileira. Mas acho razoável dizer que o Brasil está numa posição sólida, comparado a alguns países - porém nenhum pedaço da comunidade global vai ser poupado dos efeitos da atual crise. E por isso é parte da responsabilidade dos países maiores e mais sólidos socorrer os outros, se quiserem ver uma solução efetiva da crise global. Não sei dizer se assumirão essa responsabilidade - isso é uma questão política.

CM - Essa é uma crise que vai além da economia. Também é uma crise política - quais as razões políticas que levaram à crise, no seu entendimento?

JG - Passamos, nos EUA, por um período de desgoverno. Um abandono da responsabilidade pública, da regulação financeira séria. Essa é a raiz da crise, das hipotecas subprime, dos instrumentos baseados nesses derivativos, profundamente embrenhados no setor financeiro; essas coisas não teriam acontecido com uma regulação efetiva, só aconteceram porque o Executivo favoreceu seus cupinchas e largou de mão as responsabilidades públicas reconhecidas durante seis décadas.

CM - De volta à questão da desigualdade: na última década do século 20, ela cresceu em todo o mundo, tanto em países que experimentaram recessões quanto em países que cresciam de maneira explosiva. O senhor vê nesta crise uma oportunidade, ou um risco de que a desigualdade global aumente ainda mais?

JG - Bem, em qualquer crise os pobres vão ser mais afetados do que os ricos. Mas uma diferença pode se ver nesta crise em particular: os setores mais atingidos foram os setores financeiros dos países mais ricos. Mas ao mesmo tempo você verá, por exemplo, uma disparidade crescente entre as Europas Oriental e Ocidental, devido à maneira como as moedas da Europa Central e Oriental eram lastreadas com libras e euros. E uma das implicações disso é que além de ser apropriado que os países reforcem suas próprias redes de segurança social, em economias regionalmente integradas, ou que almejem a integração os países mais fortes devem tomar medidas que reforcem esse tipo de política para a região como um todo.

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