Economia Política

Conceição: atual política econômica traz regressão

Em seminário dedicado ao legado do economista Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares traçou um quadro sombrio do que chamou de ''reforma de segunda geração'' que condena o desenvolvimento de países pobres

25/11/2005 00:00

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Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 

Brasília – O que realmente importa no debate atual sobre a política econômica não se encerra na manutenção do ajuste fiscal restritivo ou até na elevação do superávit primário. O panorama apresentado pela professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria da Conceição Tavares, na conferência introdutória do seminário internacional “A atualidade do pensamento de Celso Furtado”, nesta quinta-feira (24), tocou em pontos-chave que teimam em se esconder entre a vastidão de estudos, investigações e especulações econômicas.

Na avaliação de Conceição, conservadorismo e ortodoxia não bastam para caracterizar a política econômica praticada atualmente no Brasil. Está em pleno curso, de acordo com a professora, uma ampla “reforma de segunda geração” que tende a promover uma “regressão a padrões primitivos” - com a flexibilização das leis trabalhistas, a privatização do aparato estatal e o estrangulamento de políticas públicas de seguridade social - que atinge em cheio as escassas e insuficientes conquistas consolidadas ao longo do processo histórico. “Vai sobrar apenas a caridade universal”, profetizou.

Parceira intelectual e amiga pessoal de Furtado, a acadêmica criticou o volume de recursos em juros e lucros que saíram do país “em pleno período de liquidez internacional” e qualificou o momento atual como mais um “mini-ciclo de crédito, consumo e exportação”.

Em outro painel do mesmo seminário, Luis Carlos Bresser Pereira, professor da Fundação Getúlio Vargas/São Paulo (FGV-SP), complementou o quadro pintado por Conceição. Ele discorreu sobre a armadilha em que o país caiu ao adotar a fórmula de crescimento econômico com poupança externa, baseada na idéia de que o desenvolvimento resultaria de um fluxo natural de riquezas dos países ricos para os países pobres. Essa fórmula macroeconômica permitiu, na visão dele, a concessão do mercado interno brasileiro para empresas multinacionais. E é por isso – e não por causa do risco-Brasil, como muitos pensavam - que a taxa de juros não cai. “A taxa real de juros de 14% é um rigoroso assalto ao povo brasileiro”, completou.

Ao lado de Bresser, o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Belluzzo defendeu abertamente a redução da taxa real de juros para 4%. “Em vez de propor o aumento do superávit primário, precisamos discutir a taxa de juros. O Banco Central tem a obrigação de administrar a função pública do dinheiro. O dinheiro tem duas caras: uma pública e uma privada. Ele é objeto de enriquecimento do privado e ao mesmo tempo é, na verdade, a forma de existência da riqueza e da renda na nossa sociedade”, sugeriu o economista. “A economia continua crescendo abaixo de seu potencial. E isso se deve à taxa de câmbio desalinhada, por causa de uma taxa de juros absurda”.

Submissão cultural

Em referência a obra “Desenvolvimento e subdesenvolvimento”, publicada por Celso Furtado em 1961, Maria da Conceição Tavares diagnosticou ainda “um espraiamento do subdesenvolvimento”. “A divisão Norte–Sul já não cabe mais”, enfatizou. A submissão financeira e cultural está, na visão dela, mais robusta do que nunca. “As elites do mundo terminaram se convencendo sobre o paradigma neoliberal”. Para ela, o poder do império norte-americano mudou muito e análise do capitalismo moderno “não está sendo bem feita”.

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