Economia Política

Coronavírus provoca o choque econômico mais rápido e profundo da história

A crise financeira e a Grande Depressão levaram três anos para se desenvolver, essa crise levou três semanas. A Grande Depressão faz acenos.

26/03/2020 15:07

Uma tela do Kookmin Bank mostra o Índice de Preços das Ações da Korea Composite em queda livre. (Yonhap/EPA)

Créditos da foto: Uma tela do Kookmin Bank mostra o Índice de Preços das Ações da Korea Composite em queda livre. (Yonhap/EPA)

 

O choque para a economia global da Covid-19 foi mais rápido e mais severo que a crise financeira global de 2008 e mesmo que a Grande Depressão. Nos dois episódios anteriores, as bolsas de valores caíram em 50% ou mais, os mercados de crédito congelaram, enormes falências se seguiram, as taxas de desemprego subiram acima de 10% e o PIB contraiu a uma taxa anualizada de 10% ou mais. Mas tudo isso levou cerca de três anos para acontecer. Na crise atual, resultados macroeconômicos e financeiros igualmente terríveis se materializaram em três semanas.

No início deste mês, foram necessários apenas 15 dias para o mercado de ações dos EUA despencar para território de baixa (um declínio de 20% em relação ao seu pico) - o mais rápido declínio desse tipo em todos os tempos. Agora, os mercados estão em queda de 35%, os mercados de crédito travaram os spreads de crédito (como dos de títulos considerados de maior risco) subiram para os níveis de 2008.

Até empresas financeiras de grande porte, como Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, esperam que o PIB dos EUA caia a uma taxa anualizada de 6% no primeiro trimestre e de 24% a 30% no segundo. O secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, alertou que a taxa de desemprego pode subir muito rapidamente para mais de 20% (o dobro do nível máximo durante a crise financeira).

Em outras palavras, todos os componentes da demanda agregada - consumo, gasto de capital, exportações - estão em queda livre sem precedentes. Enquanto a maioria dos comentaristas interesseiros têm antecipado uma desaceleração em forma de V - com a produção caindo acentuadamente por um trimestre e depois, rapidamente, se recuperando no seguinte -, agora deve ficar claro que a crise do Covid-19 é algo totalmente diferente.

A contração que está ocorrendo agora parece não ter a forma de V nem de U nem de L (uma desaceleração acentuada seguida de estagnação). Pelo contrário, parece um I: uma linha vertical que representa os mercados financeiros e a economia real em queda.

Nem mesmo durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, a maior parte da atividade econômica literalmente parou, como ocorre na China, nos EUA e na Europa hoje. O melhor cenário seria uma desaceleração mais severa que a crise financeira (em termos de redução da produção global acumulada), mas de vida mais curta, permitindo um retorno ao crescimento positivo lá pelo quarto trimestre deste ano. Nesse caso, os mercados começariam a se recuperar quando a luz no fim do túnel aparecer.

Mas o melhor cenário pressupõe várias condições. Primeiro, os EUA, a Europa e outras economias fortemente afetadas precisariam implementar medidas abrangentes de teste, rastreamento e tratamento para a Covid-19, quarentenas forçadas e um confinamento em larga escala do tipo que a China implementou. E, como pode levar 18 meses para que uma vacina seja desenvolvida e produzida em escala, antivirais e outras terapias precisarão ser implantados em grande escala.

Segundo, os formuladores de políticas monetárias - que já fizeram em menos de um mês o que levaram três anos para fazer após a crise financeira - devem continuar a usar todo tipo de medidas não convencionais na crise.

Isso significa taxas de juros zero ou negativas; orientação avançada aprimorada; flexibilização quantitativa; e flexibilização de crédito (a compra de ativos privados) para apoiar bancos, não bancos, fundos do curto prazo e até grandes corporações (commercial paper e títulos corporativos).

O Federal Reserve dos EUA expandiu suas linhas de swaps transfronteiriças para atender à enorme escassez de liquidez do dólar nos mercados globais, mas agora precisamos de mais linhas para incentivar os bancos a emprestar a pequenas e médias empresas ilíquidas, mas ainda solventes.

Terceiro, os governos precisam implantar estímulos fiscais maciços, inclusive através de “dinheiro de helicóptero”, desembolsos diretos em dinheiro para as famílias.

Dado o tamanho do choque econômico, os déficits fiscais nas economias avançadas precisarão aumentar de 2 a 3% do PIB para cerca de 10% ou mais. Somente os governos centrais têm balanços grandes e fortes o suficiente para impedir o colapso do setor privado.

Mas essas intervenções financiadas por déficits devem ser totalmente monetizadas. Se eles forem financiados por meio de dívida pública padrão, as taxas de juros subiriam acentuadamente e a recuperação seria sufocada em seu berço. Dadas as circunstâncias, as intervenções há muito propostas pelas esquerdas da escola da Teoria Monetária Moderna, incluindo a distribuição por helicópteros, tornaram-se comuns.

Infelizmente, para o melhor cenário, a resposta da saúde pública nas economias avançadas ficou muito aquém do necessário para conter a pandemia e o pacote de políticas fiscais atualmente em debate não é nem grande nem rápido o suficiente para criar as condições para uma recuperação oportuna. Como tal, o risco de uma nova Grande Depressão, pior que a original - uma Depressão Maior - aumenta a cada dia.

A menos que a pandemia seja interrompida, as economias e os mercados ao redor do mundo continuarão em queda livre. Mas mesmo que a pandemia esteja mais ou menos contida, o crescimento geral ainda pode não retornar até o final de 2020. Afinal, até então, é provável que outra temporada de vírus comece com novas mutações; as intervenções terapêuticas com as quais muitos estão contando podem se mostrar menos eficazes do que se espera. Assim, as economias se contrairão e os mercados cairão novamente.

Além disso, a resposta fiscal pode atingir um muro se a monetização de déficits maciços começar a produzir inflação alta, especialmente se uma série de choques negativos, relacionados com o vírus, na oferta reduzirem o crescimento potencial. E muitos países simplesmente não podem realizar esses empréstimos em sua própria moeda. Quem socorrerá governos, corporações, bancos e famílias em mercados emergentes?

De qualquer forma, mesmo se a pandemia e as consequências econômicas estiverem sob controle, a economia global ainda poderá estar sujeita a vários eventos que acontecem com maior frequência [“white swan” tail risks].

Com a eleição presidencial dos EUA se aproximando, a crise da Covid-19 dará lugar a renovados conflitos entre o Ocidente e pelo menos quatro potências revisionistas: China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, que já estão usando a ciberguerra assimétrica para minar os EUA de dentro. Os inevitáveis ataques cibernéticos ao processo eleitoral nos EUA podem levar a um resultado final contestado, com acusações de "manipulação" e a possibilidade de violência e desordem civil.

• Nouriel Roubini é professor na Stern School of Business da NYU e foi economista sênior para assuntos internacionais no Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca de Clinton. Ele trabalhou para o FMI, o Federal Reserve dos EUA e o Banco Mundial.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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