Economia Política

EUA - Irã, Venezuela e Cuba: Assassinato por sanções

Uma declaração do Comitê Nacional de Solidariedade

15/04/2020 17:15

Ativistas da CodePink protestam em Washington contra sanções unilaterais (People's Dispatch)

Créditos da foto: Ativistas da CodePink protestam em Washington contra sanções unilaterais (People's Dispatch)

 
À medida que o número global de mortes por coronavírus se estende até as centenas de milhares - e enquanto Donald Trump continua seu impressionante ilusionismo diário, sua manipulação política e pirataria de suprimentos médicos críticos, sua falsas alegações de curas milagrosas (nas quais ele tem interesses financeiros pessoais), sua sabotagem de seus próprios especialistas em saúde pública, suas propostas absurdas sobre "reabrir a economia" até 1º de maio e a demissão como retaliação a funcionários que expuseram sua extorsão criminosa à Ucrânia - outras crises não desapareceram. Muito pelo contrário.

Entre muitas questões pouco divulgadas, estão as sanções crescentemente punitivas e incapacitantes dos EUA contra governos “inimigos”, em particular o Irã, Venezuela e Cuba. Essas sanções eram assassinas antes do surto de coronavírus, principalmente em relação à saúde pública. Nas condições atuais, essas medidas beiram genocídios.

Cuba, que está sob bloqueios imperialistas dos EUA por quase seis décadas, parece estar evitando o pior impacto. Cuba, na verdade, enviou médicos para ajudar alguns países mais atingidos. (A proibição quase total de Trump do turismo na ilha pode ter sido um golpe de sorte médico, embora economicamente ruinoso.) Mas, juntamente com o colapso dos preços do petróleo, as proibições dos EUA de transações financeiras são particularmente catastróficas para o Irã e a Venezuela.

No caso iraniano, as promessas da Europa de construir um desvio para transações comerciais, a fim de salvar o acordo nuclear multipartidário, não produziram efeito. Tem sido um fracasso quase total, embora amplamente previsível, das classes dominantes e governos da Europa em resistir aos ditames de Washington. Suprimentos médicos desesperadamente necessários estão simplesmente indisponíveis, especialmente na zona rural do Irã.

Pode-se argumentar que o regime iraniano foi irresponsável, complacente e cínico em, inicialmente, refutar o desastre do coronavírus - particularmente na recusa das autoridades religiosas em fechar os santuários em Qom e em reuniões de massa lá, o que parece ter sido um epicentro da propagação da pandemia ao Paquistão, Afeganistão e Oriente Médio.

Mas isso diz apenas que os governantes do Irã são (quase) tão ignorantes e falidos quanto o próprio Donald Trump - um padrão impossível de se igualar - e que alguns de seus "líderes" religiosos são tão criminosos quanto aqueles piedosos pastores dos EUA que mantêm suas megaigrejas abertas, e governadores estaduais que chamam as igrejas de “serviços essenciais” enquanto forçam o fechamento de clínicas de aborto.

No caso da Venezuela, a criminalidade imperial vai além das sanções econômicas. Após o fracasso do golpe militar abortado do ano passado contra o governo Nicolas Maduro, o Departamento de Justiça dos EUA - um título que George Orwell não poderia ter sonhado - escolheu esse momento para indiciar Maduro por tráfico de drogas.

Não importa, por exemplo, as conexões com o tráfico de drogas do presidente hondurenho e aliado dos EUA, Juan Orlando Hernandez. O único objetivo da acusação de Maduro pode ser incitar uma segunda tentativa de golpe militar, com o incentivo de uma grande recompensa por sua extradição - o que provocaria uma guerra civil total em um país já em quase colapso médico e social .

Imagine uma crise de refugiados nesse cenário. Não é exatamente isso que a Venezuela e a América Latina precisam neste momento de uma pandemia global em expansão para a qual muitos de seus serviços de saúde estão desesperadamente despreparados?

Enquanto o ataque dos EUA ao Irã tem uma "lógica" geopolítica material em termos de controle do suprimento de petróleo, a aliança de Washington com a Arábia Saudita e outros interesses estratégicos do Estado, a campanha anti-Venezuela parece ser impulsionada principalmente pela ideologia de direita cegamente homicida. Não é um conflito que a maior parte do capital dos EUA particularmente queira ou precise.

Nada na Venezuela (infelizmente) é uma "ameaça" ao poder dos EUA em sua condição arruinada. De qualquer forma, a história nos ensina que guerras e ameaças de guerra impulsionadas principalmente pela ideologia são ainda mais perigosas do que aquelas baseadas no interesse do Estado, que são ruins o suficiente.

É importante ressaltar aqui a cumplicidade bipartidária dos EUA no bloqueio de Gaza por Israel, que - muito antes do coronavírus - destruiu a infraestrutura médica que atende à população que desesperadamente superlota de Gaza.

Ao impor sanções brutais a outros países, Trump e grande parte do Congresso estão tentando criminalizar a campanha BDS (boicote / desinvestimento / sanções) que apoia os direitos dos palestinos. A explosão iminente do vírus em Gaza é uma acusação da chamada "comunidade internacional" que merece atenção por si só.

Nas atuais circunstâncias globais aterradoras, a destruição deliberada por sanções das economias inteiras de nações e infraestrutura de saúde não é apenas um ataque contra os povos desses países. Isso terá um efeito terrível sobre toda a luta internacional contra uma pandemia mortal. A frase "crime contra a humanidade" nunca foi tão adequada.

*Publicado originalmente em solidarity-us.org | Tradução de César Locatelli

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