Economia Política

Em seminário, Celso Furtado diz que taxa de juro é aberração

O nome do economista foi lançado à candidatura do prêmio Nobel da Economia em seminário no Rio. Apesar das críticas, Furtado elogiou a equipe econômica do governo e disse que o País precisa de reformas muito importantes e tem de enfrentá-las o quanto antes

19/08/2003 00:00

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Créditos da foto: (Wikipedia)

 

Rio de Janeiro - No mesmo evento em que se realizou o lançamento mundial de sua candidatura ao Premio Nobel, o economista Celso Furtado, 83 anos, classificou como “aberração” o atual patamar da taxa de juros no Brasil e afirmou que o país “necessita de reformas muito importantes e tem de enfrentá-las o quanto antes”.

Furtado fez as críticas na noite desta segunda-feira (18/08), durante a cerimônia de abertura do seminário internacional Hegemonia e Contra-hegemonia: Os impasses da Globalização e os Processos de Regionalização, organizado pela Reggen (Cátedra e Rede Unesco/ONU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável).

Em uma noite marcada pelas homenagens a dois grandes intelectuais brasileiros falecidos recentemente, o geógrafo Milton Santos e o cientista político René Dreifuss, o lançamento da candidatura de Celso Furtado ao Nobel de economia atraiu cerca de 600 pessoas ao centro de convenções do Hotel Gloria, centro do Rio.

Para uma platéia numerosa e atenta, Furtado reafirmou sua confiança no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e elogiou a equipe econômica do ministro Antonio Palocci. No entanto, criticou a taxa de juros: “A taxa de juros em uma economia nacional não pode ser maior que a sua capacidade de crescimento da produtividade e do produto interno bruto. No cenário atual, o Brasil tem crescimento de 2% e juros de 20%”, disse.

Segundo o economista, tal disparidade é “uma aberração”, que tem origem “na tirania do sistema financeiro internacional” controlado por grupos econômicos que se beneficiam do atual estado de coisas no Brasil. Mesmo dizendo que jamais adotaria a mesma política econômica do governo Lula, Furtado reiterou o apoio aos seus condutores. “A equipe econômica está trabalhando em sintonia, com espírito de colaboração e pensando nos interesses do povo brasileiro”.

Intenção é reverter conservadorismo do Nobel

A candidatura de Celso Furtado ao Premio Nobel de economia foi lançada oficialmente pelo presidente do conselho cientifico da Reggen, Theotonio dos Santos, que afirmou que o brasileiro já conta com inúmeros apoios nas comunidades cientifica e econômica internacionais.

Segundo Santos, o objetivo até janeiro de 2004 – quando a candidatura de Furtado será oficializada – é ganhar a opinião publica mundial e tentar reverter a tendência da Comissão do Nobel de somente conceder o premio a economistas afinados com o pensamento dominante: “A comissão é conservadora, mas acredito que já chegou a hora dela escutar os pensamentos do Sul”, disse.

Representando a Unesco e o Colégio do Brasil, o ex-ministro da Educação e da Cultura, Eduardo Portella, afirmou que a candidatura de Furtado transcende os limites de sua disciplina: “Ele é muito mais do que um economista”. Quem também levou seu apoio a Furtado foi sua companheira de tantas jornadas, a economista Maria da Conceição Tavares, que preferiu não fazer comentários sobre a política econômica do governo Lula.

A candidatura de Furtado já garantiu ao menos um apoio internacional de peso. Representando a Academia Chinesa de Ciências Sociais, o cientista político Gao Xian declarou que trabalhará pela premiação do brasileiro. O momento mais bonito do evento aconteceu quando o sociólogo e editor chinês Xie Shou-guang presenteou Furtado com um exemplar, traduzido para o idioma chinês, de seu livro “A Formação Econômica do Brasil”, dando a real dimensão do alcance da obra do mestre.

Homenagens a Milton Santos e René Dreifuss

A cerimônia de abertura do seminário internacional da Reggen serviu para que a comunidade cientifica e acadêmica brasileira rendesse suas homenagens póstumas a Milton Santos e René Dreifuss. A obra do geógrafo foi lembrada em discurso de Theotonio dos Santos, que substituiu o ministro da Cultura, Gilberto Gil, que estava escalado para a homenagem, mas não pôde comparecer. Dreifuss foi homenageado pelos colegas da UFF (Universidade Federal Fluminense) e sua obra estará presente no evento através da participação de sua viúva, Estrella Bohadana.

O seminário vai até o dia 22 de agosto. Com alguns dos principais pensadores da esquerda internacional, como Samir Amin, André Gunder Frank e Immanuel Wallerstein, entre outros, seu principal objetivo é fazer um balanço dos problemas atuais da economia mundial e do papel exercido atualmente pela hegemonia militar e econômica dos Estados Unidos.

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