Economia Política

Entendendo o mercado de ações pandêmico

Quanto piores os fundamentos e previsões econômicas se tornam, mais misteriosos parecem os resultados do mercado de ações nos EUA. Em um momento em que notícias genuínas sugerem que os preços das ações deveriam estar afundando, não atingindo recordes, explicações baseadas na psicologia da multidão, na viralidade das ideias e na dinâmica das epidemias narrativas podem lançar alguma luz

08/07/2020 17:04

(Drew Angerer/Getty Images)

Créditos da foto: (Drew Angerer/Getty Images)

 
New Haven – O desempenho dos mercados de ações, especialmente nos Estados Unidos, durante a pandemia do coronavírus parece desafiar a lógica. Com a desintegração da demanda arrastando para baixo investimento e emprego, o que poderia estar mantendo os preços das ações à tona?

Quanto mais fundamentos econômicos e os resultados de mercado divergem, mais profundo o mistério se torna, até que se considere possíveis explicações baseadas na psicologia das massas, na viralidade das ideias e na dinâmica das epidemias narrativas. Afinal, os movimentos do mercado de ações são impulsionados em grande parte pelas avaliações dos investidores sobre a reação em evolução de outros investidores às notícias, em vez das notícias em si.

Isso porque a maioria das pessoas não tem como avaliar a importância das notícias econômicas ou científicas. Especialmente quando a desconfiança na mídia é alta, eles tendem a confiar em como as pessoas que conhecem reagem às notícias. Esse processo de avaliação leva tempo, razão pela qual os mercados de ações não respondem às notícias de repente e completamente, como a teoria convencional sugere. A notícia inicia uma nova tendência nos mercados, mas é suficientemente ambígua para que a maioria do dinheiro esperto, que se move com rapidez, tenha dificuldade em lucrar com isso.

Claro, é difícil saber o que impulsiona o mercado de ações, mas podemos pelo menos conjecturar ex post, com base em informações disponíveis.

Existem três fases distintas do quebra-cabeça nos EUA: o aumento de 3% no S&P 500 desde o início da crise do coronavírus, em 30 de janeiro, até 19 de fevereiro; a queda de 34% a partir dessa data até 23 de março; e a alta de 42% de 23 de março até o presente. Cada uma dessas fases revela uma associação intrigante com as notícias, já que a reação do mercado defasado é filtrada através de reações e histórias dos investidores.

A primeira fase começou quando a Organização Mundial da Saúde declarou o novo coronavírus como "uma emergência de saúde pública de preocupação internacional" em 30 de janeiro. Nos 20 dias seguintes, o S&P 500 [índice composto por 500 ações negociadas na Bolsa de Nova York] subiu 3%, atingindo um recorde histórico em 19 de fevereiro. Por que os investidores dariam às ações sua maior valorização após o anúncio de uma possível tragédia global? As taxas de juros não caíram nesse período. Por que o mercado de ações não "previu" a recessão se seguiria fazendo declinar os preços das ações antes do início da recessão?

Uma conjectura é que uma pandemia não era um evento familiar, e a maioria dos investidores, no início de fevereiro, simplesmente não estava convencida de que outros investidores e consumidores prestariam atenção a essas coisas, até que viram uma reação maior às notícias e aos preços de mercado. Sua falta de experiência passada, desde a pandemia de influenza de 1918-20, significava que não havia análise estatística do impacto desses eventos no mercado. O início dos bloqueios, no final de janeiro na China, recebeu pouca atenção na imprensa mundial. A doença causada pelo novo coronavírus não tinha um nome até 11 de fevereiro, quando a OMS a batizou de COVID-19.

Nas semanas antes de 19 de fevereiro, a atenção pública a problemas de longa data, como aquecimento global, estagnação secular ou o sobre-endividamento, estava desaparecendo. O julgamento de impeachment do presidente Donald Trump, que terminou em 5 de fevereiro, ainda dominou as conversas nos EUA, e muitos políticos, aparentemente, ainda achavam contraproducente levantar alarmes sobre uma hipotética nova tragédia enorme se aproximando.

A segunda fase começou quando o S&P 500 despencou 34% de 19 de fevereiro a 23 de março, uma queda semelhante à queda da bolsa de valores de 1929. No entanto, em 19 de fevereiro, havia apenas um punhado de mortes relatadas pela Covid-19 fora da China. O que mudou o pensamento dos investidores sobre esse intervalo não foi apenas uma narrativa, mas uma constelação de narrativas relacionadas.

Algumas das novas notícias eram absurdas. Em 17 de fevereiro, uma corrida por papel higiênico em Hong Kong foi mencionada pela primeira vez, e se tornou uma história altamente contagiosa como uma espécie de piada. Claro, as notícias sobre a propagação da doença estavam se tornando mais internacionais. A OMS chamou de pandemia em 11 de março. As buscas na Internet por "pandemia" atingiram o pico na semana de 8 a 14 de março, e as buscas por "coronavírus" atingiram o pico na semana de 15 a 21 de março.

Parece que nesta segunda fase, as pessoas estavam tentando aprender o básico sobre este estranho evento. A maioria das pessoas não conseguia lidar com isso imediatamente, muito menos imaginar que os outros, que poderiam influenciar os preços de mercado, estavam fazendo o mesmo.

À medida que a crise do mercado de ações prosseguia, surgiram histórias vívidas de dificuldades e interrupções nos negócios causadas pelo bloqueio. Por exemplo, algumas pessoas no bloqueio chinês, supostamente, foram reduzidas a procurar peixinhos e minhocas de praia para comer. Na Itália, havia histórias de médicos em hospitais sobrecarregados sendo forçados a escolher quais pacientes receberiam tratamento. As narrativas sobre a Grande Depressão dos anos 30 floresceram.

O início da terceira fase, quando o mercado do S&P 500 começou seu aumento de 40%, foi marcado por algumas notícias genuínas sobre política fiscal e monetária. Em 23 de março, depois que as taxas de juros já haviam sido reduzidas para praticamente zero, o Federal Reserve dos EUA anunciou um programa agressivo para estabelecer linhas de crédito inovadoras. Quatro dias depois, Trump assinou a Lei coronavírus de US$ 2 trilhões, de ajuda, alívio e segurança econômica (Coronavirus Aid, Relief, and Economic Security - CARES), prometendo estímulo fiscal agressivo.

Ambas as medidas, e ações parecidas em outros países, foram descritas como semelhantes às ações tomadas para combater a Grande Recessão de 2008-09, que foi seguida por um aumento gradual, mas no final, por um enorme aumento nos preços das ações. O S&P 500 ficou cinco vezes mais alto que seu ponto mais baixo, de 09 de março de 2009, a 19 de fevereiro de 2020. A maioria das pessoas não tem ideia do que consta no plano do Fed ou na Lei CARES, mas os investidores sabiam de um exemplo recente quando essas medidas aparentemente funcionaram.

Histórias de colapsos menores, mas ainda significativos no mercado de ações e fortes recuperações, algumas delas a partir de 2018, foram amplamente lembradas. Falar de arrependimentos por não comprar nas mínimas de então, ou em 2009, pode ter deixado a impressão de que o mercado tinha caído o suficiente em 2020. Nesse ponto, o FOMO (fear of missing out, ou, medo de ficar de fora) se firmou, reforçando a crença dos investidores de que era seguro voltar.

Em todas as três fases do mercado de ações no surto da COVID-19, os efeitos das notícias genuínas são aparentes. Mas os movimentos dos preços não são necessariamente uma resposta lógica e rápida. Na verdade, raramente são.

Robert J. Shiller, ganhador do Nobel de Economia em 2013, é professor de Economia na Universidade de Yale e co-criador do Índice Case-Shiller dos preços das casas dos EUA. Ele é o autor de Irrational Exuberance, Phishing for Phools: The Economics of Manipulation and Deception (com George Akerlof), e Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli



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